Um caso de batismo apropriado

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O cinza é a cor da política
O cinza é a cor da política

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Publicada em 29/03/2014 às 00:40:00

São Paulo é a cidade tema. Metrópole brasileira muito bem fotografada por Tiago Tambelli. Suas tomadas aéreas e ótimos movimentos de 'stadycam', servem para mostrar o concreto enquanto organismo vivo deste espaço urbano. Estamos 'emparedados'. É uma metáfora real no contexto da maior capital brasileira dentro do aspecto social, com ênfase na exclusão e no pensamento crítico.

Tendo como subfoco os pichadores de rua, todos os que prestam depoimentos falados fazem a todo o momento referências a esses pontos e o quanto isso molda um cidadão em sua individualidade particular e comunitária. Num resumo: os grafiteiros de um lado - acuados como pessoas meliantes perante o bojo social estabelecido - e a massa que, enquanto majoritária fatia do bolo social, execra qualquer pessoa, tipo ou comportamento que tenha relação com a latinha e o 'spray'.

Mas eis que surge a modalidade do grafite. Um santo remédio para tirar a imagem negativa desse movimento de rua. Com foco no trabalho de artistas (não marginais, e sim, artistas), o roteiro de Peppe Siffredi (co escrito por Felipe Lacerda e Marcelo Mesquita) conduz toda a narrativa do documentário nos depoimentos de alguns artesãos a partir da história de um imenso painel. A mega obra colorida havia sido apagada por uma tinta cinza através da prefeitura.  

A partir disso, o filme segue três vertentes: a primeira é uma imensa propaganda sobre 'Os Gêmeos', irmãos que, desde a adolescência, estão no meio marginalizado. Muito envaidecida, essa parte fica destoante por ser uma autopromoção no meio de todo um discurso sociocultural. Pareceu que, do nada, começou uma biografia velada da dupla de grafiteiros; maiores expoentes desta arte 'made in Brazil' para o mundo ver, conhecer e aplaudir.

Suas obras são realmente admiráveis, visto principalmente no prisma da intervenção urbana. A direção de Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo se mostra refinada ao revelar uma delas. Numa tomada aérea, um edifício sai de cena e releva, no segundo plano, um boneco colorido desenhado na construção subsequente. Pronto! A cortina foi aberta e o artista está no palco! Esse impacto visual é a catarse desses profissionais. O choque com o público é imediato. Não tem como ficar indiferente à instalação. A trilha sonora - numa melancólica melodia de Criolo e Daniel Ganjaman - é emocionante. Arte consumada!
Os funcionários da prefeitura funcionam bem enquanto reflexo de ignorância social por não dotarem de críticas acadêmicas acerca do assunto. Por outro lado, é um sintoma discriminatório generalizar toda uma população através desses profissionais. Conceito de arte está relacionado com vocação, acesso e boa educação. Nem todos as tem.

A última vertente está na política do então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.  Mesmo com um discurso de indignação contra a política vigente, nossos protagonistas não concretizam uma devolutiva quando se encontram cara a cara com o prefeito. Um dos gêmeos até se manifesta, só que de maneira tímida. Apenas para constar na gravação. Sinônimo de que, mesmo eles sendo (ex) marginais, a falta de anarquia (naquele momento) é um sintoma de poder do sistema. Nesse ponto faltou atitude, mas sobrou boa arte em sua estratégica propaganda midiática. Uma coisa compensa a outra.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.