O FIM DO MUNDO E OS SINAIS DO TEMPO

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Publicada em 30/03/2014 às 00:17:00

A parcela judaico-cristã da humanidade, minoritária, aliás, não é exclusiva portadora da ideia do Genesis e do Apocalipse, os dois pontos fulcrais onde começa e termina o mundo , e que a Bíblia descreve desde o Éden, o paraíso perdido por Adão e Eva em consequência da irresistível atração pelo prazer de morder a maçã metafórica, até o fogaréu derradeiro, onde tudo se consome, e o Criador chega para sopesar virtudes e defeitos das suas criaturas, e determinar-lhes o destino: Céu ou inferno, ressureição, ou cinzas. Em forma de textos religiosos ou lendas transmitidas de geração a geração, existem centenas ou milhares de narrações diversas sobre a Criação, e profecias inúmeras a respeito do fim dos tempos.  Em quase todas elas, os sinais que precedem a hecatombe derradeira são dados através de eventos extraordinários, cometas luminosos, desastres naturais, ou as turbulências humanas, desde guerras, a crimes hediondos, ou até a devassidão de costumes.

Em Canindé do São Francisco, naquele extremo de sertão onde a seca persiste , há quem viva a repetir que, chegando-se ao quarto ano de invernos secos e verões sem trovoadas, seria sinal forte de um próximo fim do mundo, tema no qual se especializam tantos padres e pastores que lotam templos espalhando temor. E aconteceu, em Canindé, o crime horrendo: Um homem de 39 anos matou e decepou braços e pernas de uma criança de dez, que era seu irmão. Isso fez as pessoas enxergarem mais perto o Apocalipse, como se em terras do paraíso que fora tão recentemente perdido, Caim não houvesse matado o irmão Abel. E era apenas o começo dos tempos.

Daqui a 2 bilhões de anos, se algo fortuito e grave não ocorrer, a terra estará nos estertores, a humanidade terá desaparecido, e ninguém mais verá , da terra gelada, um sol enorme, bola de luz mortiça, quase imperceptível no fundo do firmamento negro.
Se os temores místicos de um fim de mundo a bater às portas são cientificamente injustificáveis, a realidade apavorante da violência que a nossa volta cresce, as vezes nos faz duvidar, se como espécie temos evoluído ou regredido, e isso, efetivamente, nos atormenta. Ficando indiferentes ou acovardados, estaremos condenando as próximas gerações, pelo menos aqui no Brasil, onde a violência virou rotina, a se virem diante da opção selvagem : Justiceiros ou bandidos.
A violência, como querem alguns, seria exclusivo produto da miséria, das injustiças sociais, mas, talvez, ela se alimente com maior intensidade no espaço das nossas omissões, tolerâncias, e visão deturpada a respeito de valores e conceito de liberdade e direitos.

O homem que matou, cortou braços e pernas do irmão, um menino vivaz, inteligente, que gostava de música, e retornava, vindo da escola, carregando uma sacola de livros, era considerado um demente, vez por outra com acessos de fúria sem maiores consequências. Na policia, ele disse que não completara a empreitada bárbara, porque não tivera tempo de esfolar, retirar a pele do irmão ainda vivo, de quem tinha quase a mesma idade, quando viu sua mãe estuprada por marginais que infestavam uma favela de Socorro, aonde o pai, vindo do sertão, instalara um pequeno armazém. A mãe, desde então, passou a viver num estado quase cataléptico. Os estupradores não foram presos, continuaram estuprando e roubando. Tempos depois, três deles foram mortos, e o pai, acusado de ter perpetrado a vingança, foi preso, passou mais de dois anos na cadeia. Voltou a viver em Canindé, assustado com a violência da cidade grande, tornou-se funcionário da COHIDRO, e tem uma Banda de Música, a Forrobodó, onde o menino morto gostava de ensaiar o canto. Messias de Bento é assim conhecido o sertanejo, homem honrado, que passou pela ignominia de viver o crime sem castigo sofrido pela esposa, agora, semiparalítico em consequência de um acidente vascular cerebral, deveria, se pudesse se locomover, ir a novo júri, 20 anos depois. Pai de um filho morto e também do que o matou, ainda chora a morte de outro filho, assassinado há dez anos. Os matadores estão soltos, nunca foram julgados.
Para Messias de Bento, para os seus filhos assassinados, para o seu filho assassino, o mundo deles acabou, tragados pela realidade do outro mundo, o global, cuja lógica se tornou para todos eles, ininteligível.