O homem, acima de qualquer paradigma

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O rubro do título remete ao comunismo, a paixão por um ideal, a sangue, a perigo
O rubro do título remete ao comunismo, a paixão por um ideal, a sangue, a perigo

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Publicada em 05/04/2014 às 00:58:00

* Anderson Bruno

Simbolismo é tudo! Semana passada, discerni a respeito da representação da cor cinza no documentário "Cidade Cinza" (BRA/2013). Volto ao tema das cores uma semana depois para caracterizar o forte simbolismo presente no também documentário "A Mesa Vermelha" (Tuca Siqueira, BRA, 2013, 80 min). O rubro característico de seu título remete ao comunismo, a paixão por um ideal, a sangue, a perigo; tudo no invólucro da ditadura militar tendo como narradores 23 personagens masculinos sobreviventes da época de chumbo.

A produção pernambucana foi exibida no último dia 1° de abril para ilustrar os 50 anos do golpe militar deflagrado no dia 31 de março de 1964. Exibido no reduto comunista do Museu da Gente Sergipana (afinal, foi o governo vermelho do PT quem reestruturou o espaço, à época coligado com o PC do B) o evento foi também um acontecimento sergipano, já que a figura política do ex-preso Bosco Rollemberg é a persona abre-alas da produção como também um dos depoentes.
Utilizando-se da fórmula clássica de coletar as histórias de seus remanescentes através de uma câmera fixa e entrevistados em posição de diagonal, a direção de Tuca Siqueira consegue arrancar com extrema naturalidade e intimidade seus testemunhos.

A cartilha do roteiro da própria diretora é bem simples: um apanhado pré-golpe, o golpe, a evolução (ou involução) para o Ato Institucional Número 5, o inferno deflagrado a partir desse momento com prisões, censura e tortura, as relações interpessoais com amigos dentro da prisão e familiares e uma volta ao tempo numa análise sobre a época; erros, acertos, falhas, arrependimentos e glórias. A trilha sonora acompanha o sentimento de cada etapa relatada: para momentos de tensão, música mais frenética; para momentos de animosidade, uma faixa sonora mais amena e por aí vai.

A produção cai um pouco quando sai dos esquemas das entrevistas. A dinâmica para encorpar a narrativa com alguns artifícios ficou um tanto irregular. Já no primeiro plano dessa fase, quando nossos companheiros de luta estão reunidos - numa alusão de sobrevivência - eles são postos ao redor da tal mesa vermelha. Vários 'takes' são editados. Ora eles estão dispostos ao redor da mesa em posições diferentes entre planos principais e secundários (tudo gravado em perspectiva), ora estão simplesmente ao redor da mesa numa inusitada câmera totalmente baixa com uma frondosa árvore a emoldurar o teto de suas cabeças.

O artifício serviu para mostrar ícones lendários, hoje vivos e reverenciados. Pena que a idéia se mostrou um tanto amadora para a amplitude de seus objetos principais.
Já a 'foto para posteridade', por exemplo, mostrou-se certeira. Como a um registro de bastidor pré-fotográfico, nos é revelado momentos de descontração do grupo na preparação das poses que a antecedem. Vê-los brincar uns com os outros nos faz pensar no antagonismo deste momento alegre com aqueles de tempos atrás.

Mesmo sabendo de cor e salteado todas as atrocidades sofridas por quem vivenciou esses momentos de terror, é impossível não desgrudar os olhos e ouvidos do material. O relato de Emilson Ribeiro é um deles. A revolta na descrição de sua tortura é chocante. Mais um material audiovisual sobre a ditadura a se ver. Muito pelo seu valor sobre a integridade humana do que qualquer outro paradigma. Mesmo sendo um relato pernambucano, fico com as palavras de Bosco Rollemberg: "...é uma experiência que não pertence a mim. Pertence ao povo brasileiro..."

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.