Além da ação e dá catástrofe

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Publicada em 12/04/2014 às 00:11:00

* Anderson Bruno

Uma grande produção (cerca de 125 milhões de dólares é o seu orçamento), uma história que remete à bíblia, um diretor de talento a sair filme a filme do cinema independente com uma mágica história nas mãos e com um grande elenco. Essa é a fórmula de ouro para o longa-metragem "Noé" (Darren Aronofsky, EUA, 2014, 137 min). A produção acertou em cheio ao realizar um material (literalmente) de proporções bíblicas. Elementos importantes para a formação de uma platéia cinematográfica estão lá, reunidos como a uma barganha para atrair um grande público.

A começar pela tão famosa narrativa acerca de Noé (Russell Crowe), homem incumbido por Deus a construir uma arca. O aviso sobre a edificação do imenso barco advém de uma visão. Nela, nosso escolhido precisa embarcar pares dos mais diversos animais e, junto a sua família, zarpar numa viagem para uma nova era começar após a passagem de um dilúvio arrasador enviado pelo Criador.

Acreditando ou não na teoria litúrgica, não há como não 'viajar' (tanto no tempo quanto introspectivamente) nos primórdios do homem. O roteiro não dá margem apenas para os excelentes efeitos especiais da Industrial Light & Magic (os efeitos aqui são de primeira grandeza para o bom êxito sobre a visualização da história), ele também faz um apanhado daquilo que pertence a todos nós: como conduzir nosso lado bom e nosso lado mau?
O discurso em torno dessa dualidade é filosófico e dá credibilidade intelectual àquilo que teria de tudo para se transformar num filme de mera pirotecnia para a exploração do dinheiro da platéia através do 3D. O resultado tinha de tudo para ser a de um material descerebrado encorpado num filme de ação com a fina e esfarrapada desculpa de elevar um ícone cristão como Noé para tal desrespeito cinematográfico vingar.
Ao invés disso, o diretor-roteirista Darren Aronofsky (um dos melhores da sua geração) escreveu o texto do filme (ao lado de Ari Handel) concentrado no discurso espiritual da boa condução do ser humano, sem deixá-lo corromper a nenhuma tentação e, por fim, finalizar os desígnios de Deus.
Nesse trajeto o que fica não é a visão imaculada de um homem santo, incrustada no inconsciente coletivo sobre a imagem de Noé. Mostra também a figura de um homem envolvido pela dúvida sobre qual o melhor caminho a seguir. Angustiado por não saber qual o percurso certo e qual o errado. Um simples homem comum abençoado por Deus. Um pecador.

O trabalho de observação da luz na fotografia de Matthew Libatique é imprescindível para a construção da história. As gravações variam entre a captação da luz natural de locações islandesas para representar a parte terrestre do enredo, passando pela textura escura da tempestade digital - ainda mesclando com tomadas computadorizadas do espaço - bem como a fantástica representação do Jardim do Éden, com uma iluminação mágica; justamente para pontuar esse momento de origem do homem muitíssimo importante para o decorrer da narrativa.
 "Noé" é mais que um grande filme de ação-catástrofe ianque. É a materialização fílmica dos tempos atuais dentro do contexto das mudanças climáticas tão em voga. O lembrete para cuidar do planeta foi nos dado há mais de 5000 anos. Parece que o filme quis nos passar novamente este aviso através do instrumento de massa que o cinema representa. Seria mais um aviso de Deus? Não vou nem discernir sobre a epidemia de dilúvios que estamos a presenciar desde aquele tsunami registrado em 2004 na Tailândia. Grande elenco. Grande filme!

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.