O TEMPO E OS VENTOS

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 12/04/2014 às 11:33:00

O tempo andou a fazer enganosa propaganda de chuva. E isso aconteceu meses a fio, desde o começo de novembro, data em que se anunciam e podem ocorrer trovoadas. Nuvens escuras, pesadas, passavam insistentemente pelo céu, pejadas de aguas que não caiam. Durante as noites, havia o faiscar de relâmpagos, formando focos de clarões espalhados por todos os quadrantes, mas, não se ouvia o ribombar rouco de trovões, embora os clarões parecessem não estar tão distantes. Era apenas um festim celeste, espetáculo de luzes sem maiores consequências, deles, não surgia a abundancia das tempestades levadas a bom termo, ou seja, desfazendo-se na liquefação do vapor, passando a ser chuva, água. Nuvens espessas que em frações de segundo pareciam massas incandescentes, surgiam e desapareciam, levadas ao vento sem deixar pelo chão de brasa um rastro molhado. E com as nuvens que até começos de abril passavam, tão indiferentes ao chão esturricado, e aos que dele ansiosamente acompanhavam o seu percurso, se acabavam as esperanças dos aguaceiros de verão, as trovoadas.
Os desacertos do clima subvertendo estações, ainda não tornaram incrédulos os sertanejos, sempre observando sinais que os céus, a terra, as árvores e os bichos, sempre transmitem, anunciando chuva ou estiagem. Pelo começo de abril, antes mesmo que a meteorologia anunciasse, os farejadores da chuva já andavam a antecipar o despencar das águas que as nuvens e os relâmpagos há tanto tempo, falsamente, deixavam antever.
Eram as formigas de asas que voejavam, as ¨fogo-pagô¨ em bandos recém-chegados, juntando o sincopado canto ao lamúrio dolente da juriti, enquanto seriemas pareciam fazer uma competição agressiva de vozes estridentes. Por fim, era a terceira ou quarta vez que os mandacarus se enchiam de flores, aquelas noturnas, que só o luar revela, e se fecham, precavidas ao primeiro clarão de sol. Até os sapos, tão sumidos, andaram reaparecendo.
Diante de tantas evidências, as nuvens e os raios não poderiam continuar apenas como enganosa propaganda celestial, e assim, apesar de ser abril, retardatária tempestade finalmente desabou na madrugada do dia 8. Raios e trovões estrepitosamente audíveis, formaram o cenário feérico da chuva benfazeja que despencava.