ZÉ CASSEMIRO

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Publicada em 22/04/2014 às 01:21:00

* Paulo F.T. Morais

Semelhante àquele ano, poucos viram duas vezes um verão de luminosidade  desmedida, a ferocidade solar espargia o azul do firmamento sobre a Terra como se a cobrisse com uma fina cortina de cor ambarina e odor de caxixe,  impedindo a nitidez das formas,  o tamanho real dos  objetos, e não se distinguia a linha do horizonte.
Era habitual o pequeno Benedito ficar sentado ao amanhecer no batente de casa, na usina Canoa. Tempo de moagem e calor de fogueira. Nessa época do ano, principalmente daquele, o movimento do mundo começava mais cedo. O vento Nordeste soprava levantando palhiços de cana,enquanto as  juntas de bois eram reunidas  para ser atreladas às carroças, e o pisoteio do gado no chão arenoso enfunava remoinhos de poeira espessa, que,  misturada com o suor dos trabalhadores,  causava-lhes coceiras  e os deixava de humor exasperado.
- Homem, venha cá. Como é seu nome?
- Zé Cassemiro. E o seu?
- Não sabe...
- Não é Bené?
O menino ria.
 Zé tinha uma ótima índole, quase ingenuidade. Morava em Maruim, e trabalhava na usina. Diariamente fazia duas léguas, ida e volta, para roçar ou cortar cana. Mal o sol atingia a copa das palmeiras em volta da casa-grande, ia chegando com a foice ao ombro e à cintura o facão,  em cujo cabo amarrava a mochila com um tanto de farinha e um dedo de carne seca.   
 Achava engraçada a desenvoltura  de Bené, e sempre  estacava para conversar com ele. Contava-lhe histórias mal ouvidas, porque a luz dos olhos de Benedito, não totalmente regulada, estreante com relação às imagens da vida, transformava  coisas singelas em grandezas, e ele precisava  do nome das revelações ininterruptas, queria ser  íntimo das sucessivas  descobertas, e as perguntas se atropelavam na espera ansiosa  de ver as coisas nascerem.
- Cadê as nuvens? Que zoada é essa? Hoje vai ter fogo no canavial? Sua mãe manda você rezar de noite? Você tem filho? Aquele boi pega?
Zé Cassemiro ria.
- Benedito, deixe Zé ir trabalhar. - Dizia a mãe lá de dentro.
- Não se preocupe, dona Judite, ainda tá cedo.   
Mas em seguida:
- Bené, vou chegando. Amanhã a gente conversa.  
Zé Cassemiro não fazia escolhas, jogava nas onze. O balanceiro adoeceu? Chamavam-no para substituí-lo. Jonas carreiro não veio? Zé Cassemiro. Com trinta anos de idade carregava a experiência de quem já vivera muito, o bom humor e a resignação  de alguém cujo futuro  tinha apenas vinte e quatro horas, e em vez de mortificar-se com o amanhã, esfalfava-se trabalhando dia a dia, com zelo e arte, e o tempo de vida mais distante que conseguia antever era a hora de voltar para casa, a noite, o banho, rodelas de inhame, jabá, café, o aconchego da mulher e dos dois filhos, o colchão de palha macia, acolhedor, suavemente  côncavo. Os sonhos, se é que sonhava, não  o levavam para além do que era e conhecia; neles não havia lugar para deslumbramentos. Zé a nada aspirava, bastava-lhe seu mundinho sossegado, sem surpresas dolorosas nem alegrias que desnorteiam, e era do tamanho da roda de uma carroça.
O costume de conversar com o trabalhador todas as manhãs deixava Bené com o sono agitado. A qualquer hora da noite, sentava-se na cama, chamava a mãe, e com os olhos quase fechados perguntava se Zé Cassemiro estava na porta. O pai vinha vê-lo:
- Cassemiro está na casa dele dormindo. Ainda é noite, o dia vai demorar.  Se ficar acordado, vai demorar mais ainda.
Numa das manhãs de calor incendiário, Bené avistou o amigo chegando e dessa vez foi ao encontro dele:
- Como é meu nome? - brincou o trabalhador.
- Zé Cassemiro. Por que seus filhos não vieram brincar comigo?
- Tá danado de sabido, hein, Bené? Qualquer dia eu venho com eles. Olhe o que trouxe pra você ver.
- Que é isso?!
- Uma harmônica. Uma caixa de onde você tira música com os dedos. Ouça esta como é bonita e penosa. O que vale é que o som dela me sacode o coração. Também sou caminhante de léguas tiranas.
Abriu o fole e puxou Légua Tirana, uma das mais belas de Luiz Gonzaga.
Bené encolheu-se, enfiou a cabeça entre as pernas; de vez em quando fixava os olhos aterrados na harmônica, e de novo  se encaracolava. Os pais  apareceram chamados  pela melodia.
- Boa alvorada, Zé. Não sabia que você tocava.
- Bom-dia, Seu Tomé e Dona Judite. Arranho. Gosto de música, me deixa mais satisfeito. Trouxe ela pra Seu Betino  consertar, está com um furo começando. Meu amigo Bené é diferente de mim, quando comecei a tocar ele amuou.
Dona Judite passou a mão na cabeça de Benedito:
- É acanhamento. Nunca viu uma sanfona. Levante a cabeça, meu filho. Deve estar bastante curioso, mas receoso.
Quando Zé parou de tocar, o menino levantou-se, e, hesitante, encostou a mão no teclado. Sorrindo, coração arrítmico, alisava  o fole como se o instrumento tivesse vida, os olhos saltavam dos pais para o trabalhador mais expressivos do que se falassem  pedindo  para continuar tateando o objeto mágico que Zé Cassemiro  trouxera - havia de lembrar tempos depois  - naquele dia inesquecível de um verão abrasador.
Depois de conhecer a harmônica, Bené passou o dia desinteressado das novidades  que o mundo fazia desfilar ante seus olhos, abstraiu-se da matéria e bandeou-se para o nível etéreo da música. Onde quer que se o encontrasse lá estava solfejando Légua Tirana. Pode ter sido impressão, mas a mulher disse ao marido, com voz preocupada, que, quanto mais a entoava, aí é que os olhos dele brilhavam.
Pelo meio da tarde desse dia, Tomé entrou em casa e chamou a mulher, enquanto perguntava por Benedito.
- Você aqui essa hora?! Que aconteceu? Ele está na cama, pegou no sono. Cantava a música  e de repente calou.
- Não conte nada a ele! Houve um acidente sério na caldeira. Um morreu. O menino nunca viu ninguém morto, vai aperrear a gente pra ver.
- Quem foi o pobre de Cristo?  
- Ainda não se sabe, é preciso limpar. Não estou dizendo nada, mas logo hoje Zé Cassemiro substituiu Humberto, o encarregado do tanque.
- Meu Deus do Céu, não é possível! - exclamou Judite.
Ao anoitecer, um caminhão levou na carroceria, ensacado, o corpo  de uma pessoa para ser enterrado  em Maruim.
No dia seguinte, enquanto as palmeiras da casa-grande cintilavam  com suas palhas os primeiros raios do sol, lá estava Bené esperando  o amigo passar.
- Zé, Zé Cassemiro, você não disse que ia trazer seus filhos pra brincar comigo?
Tomé e Judite correram para a porta. Benedito enxugava os olhos com a fralda que segurava o bico.
-Cadê Zé Cassemiro, Benedito? - perguntou o pai.
- Ele não quer mais saber de mim. Não parou, achou graça e foi embora

* Paulo F.T. Morais é jornalista e escritor
pftmorais@ig.com.br