Visita a Santo Souza

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Publicada em 23/04/2014 às 00:39:00

* Amaral Cavalcante

O poeta me recebeu de bengala e majestade, sentado numa vetusta cadeira de general como se à frente dele, perfiladas, as falanges divinas o aguardassem. Era como uma ilustração do Bhagavad Gita, uma santidade em seu elefante de guerra a comandar o destino dos homens na mítica batalha entre as forças do bem e as hostes do mal, majestoso na varanda mais sergipana dos Aracajus, na Avenida Rio Grande do Sul, no coração do Aribé.
Gestos alados, o andar tolhido pelo costume de voar, o poeta deu três pulinhos de pássaro e me abriu o portão.  Era bonito ele, com a barba por fazer, o torso nu e o olhar tão nascituro, lindo senhor de elegâncias guerreiras: um rei núbio de cabelos anelados, brancos, meio assanhados para traz, com o seu cajado cravejado de suores.
Juro que vi um Avatar.

Ajoelhei a cabeça em conversa miúda, enquanto, olho no olho, nos reencontrávamos. O mais moderno e venerável poeta da nossa história me reconheceu, declamou para mim, levou-me às suas estantes e me serviu o mel de sua convivência doméstica. O galáctico guerreiro Santo Souza, eu o vi se cumprindo em humanidades, traçando nos mapas da casa suas estratégias amorosas:
- Um poema para minha filha, presente de Natal. E o leu.
Era um poema de paternos segredos, desses que perdem o cheiro e secam nos baús da casa cheio de perdões e abraços deixados para mais tarde.
Li-o em voz alta em postura coreográfica, perseguindo o ritmo inusitado nas estrofes (eram somente duas) tão inesperadamente rituais e belas. O verso doméstico do poeta Santo Souza, tão simples quanto o elegante arrastar de uma cadeira na mesa do jantar para que sua filha sentasse confortável, foi-me a confirmação da humanidade dele, um poema tão belo e coreográfico que me pôs a dançar, enquanto o poeta ria da minha inadequação.  

Depois, percorri meio perdido a babel da sua estante, batendo cabeça nos livros que o trouxeram à intimidade com a literatura universal: mimos de autores consagrados em profusas loas à sua poesia, uma profusão de filósofos gregos, pensadores essenciais à compreensão da agônica posição do homem como criador e criatura, alguns originais seus aguardando publicação, livros e mais livros amontoados no cultivado universo literário do poeta, na preciosa biblioteca daquela casa simples no Bairro Siqueira Campos, em Aracaju, o vórtice ideal de onde emerge a melhor poesia de Sergipe a comover o mundo.
Santo Souza é um poeta reconhecido, considerado "orfico" para quem precisa de classificações, mas é, sobretudo, uma voz ímpar na poesia moderna, um observador consciente da condição humana diante da agônica contradição do seu destino.  
Bebo uma taça de Rum ao poeta Santo Souza, argonauta a perseguir em mares desconhecidos o velocino da poesia dourada, um poeta universal a remover-se sempre entre os vaticínios que nos moldam poetas e a poesia que nos humaniza.    

* Amaral Cavalcante é jornalista e escritor