Travesti é agredida após reagir a assédio dentro de ônibus

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Publicada em 17/05/2014 às 00:22:00

"Sociedade, você criou pessoas doentes". O diagnóstico carrega em si a mesma crueldade da situação vivida às 18h desta quinta-feira pela travesti e estudante de psicologia Sofia Faveiro Ricardo, 20 anos. Dentro de um ônibus que fazia a linha Bugio/Atalaia, ela foi assediada sexualmente, ofendida por um passageiro, ameaçada com uma faca, jogada do ônibus e agredida com chutes na cabeça, em meio à omissão e as risadas constrangedoras dos outros passageiros. O caso foi denunciado à polícia e ganhou repercussão depois de um desabafo perturbador divulgado pela internet.
Sofia relatou que estava a caminho da faculdade onde estuda, na Avenida Tancredo Neves, quando um homem colocou a mão entre suas pernas e tentou abusar sexualmente dela. Ela percebeu, deu uma cotovelada no passageiro e gritou contra ele, para chamar a atenção dos outros passageiros. Foi aí em que entrou em cena o segundo agressor, que xingou-a de "traveco" e "viado". Perplexa, a vítima relata que ouviu risadas de todos os passageiros e reagiu ainda mais irritada. "Eu respondi muito perplexa com as pessoas - inclusive mulheres - do ônibus que estavam rindo da situação, achando engraçado que ele tenha se enganado na hora de 'encoxar'. Como se eu não pudesse ter direitos, eu já sou ousada o suficiente para viver", desabafou.
A situação piorou, pois o autor das ofensas, descrito como um homem moreno, de estatura mediana e aparentando ter 23 anos, sacou uma faca da mochila e ameaçou matá-la, dizendo que iria "tirar-lhe o diabo do corpo". Amedrontada, a estudante avisou que o ônibus tem câmeras e pediu para que o agressor guardasse a faca. A tensão tomou conta do ônibus, que só parou seu trajeto em frente à faculdade, quando três passageiras pediram para descer. Sofia desceu atrás delas, mas, já na escada, foi surpreendida pelo criminoso com um forte chute nas costas, que a derrubou para fora do ônibus.
Ferida e caída no asfalto, Sofia levou ainda outros dois chutes na cabeça e ouviu ainda mais ofensas do agressor, antes que ele voltasse ao ônibus. Na internet, ela descreveu que ninguém se prontificou a ajudá-la, o que a fez se sentir ainda mais humilhada. "Ele disse que meu lugar era ali. No asfalto. Que eu deveria agradecer porque ele não meteu a faca em mim. O ônibus foi embora. Todos estavam na janela, olhando pra mim. Nenhuma mulher gritou, nenhuma mulher me ajudou", escreveu. A ajuda só veio de uma senhora que a levou para a calçada e ligou para a mãe da vítima, avisando-a do que aconteceu com a filha.
Uma queixa foi prestada na 8ª Delegacia Metropolitana (Capucho), mas o caso foi encaminhado ao Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV), onde Sofia prestou depoimento ontem de manhã. O caso é acompanhado pela Secretaria Estadual de Direitos Humanos (Sedhuc), a qual informou, pela assessoria, que está prestando assistência jurídica e psicológica à vítima. Um exame de corpo delito foi prestado no Instituto Médico-Legal (IML). A polícia quer agora ter acesso às imagens gravadas pelas câmeras do ônibus para tentar identificar os agressores. (Gabriel Damásio)