A América por John Ford

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A filmografia de John Ford não envelhece
A filmografia de John Ford não envelhece

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Publicada em 17/05/2014 às 00:24:00

* Anderson Bruno

No período de 08 a 14 deste mês de maio, foi realizada a mostra de cinema "A América por John Ford". O projeto foi idealizado pelo SESC (Serviço Social do Comércio) e exibido nas instalações do Cine Vitória.
Um período de 25 anos da carreira de John Ford  é desenhado com a reprodução de "Médico e Amante" (Arrowsmith, 1931, 98 min) no abre alas como a produção mais antiga. "Rastros de Ódio" (The Searchers, 1956, 119 min) é a mais recente e encerra a mostra.
É pouco para 54 anos de carreira cinematográfica e 133 obras concluídas. Mas suficiente para ter como obrigatória a tarefa de estar presente na sala de cinema e acompanhar filme a filme selecionado. Nota-se um trabalho de direção bem atual. Seus filmes não envelheceram. Digo dentro de uma generalidade.
O bom humor é um dos aspectos para tal afirmativa. Todos os seus filmes são do gênero dramático. "Juiz Priest" (Judge Priest, 1934, 96 min) é o que mais sai por fora. Mesmo assim, a comicidade é perceptível em todos eles. Sempre existe a figura de um bêbado, por exemplo. Muitas das situações cômicas estão neste núcleo ou imbuído de alguma outra maneira no roteiro. Algumas construções de mise-en-scene beiram a anarquia. "A Mocidade de Lincoln" (Young Mr. Lincoln, 1934, 96 min) e " Juiz Priest" transformaram tribunais em verdadeiros picadeiros com direito a magistrado se desdobrar de rir em pleno trânsito de julgamento e disputa de 'cuspe ao alvo' em pleno fórum. Uma balbúrdia só!
Fala-se muito dos índios retratados nos filmes de John Ford. Como no Brasil, os autóctones americanos foram dizimados pelo interior dos E.U.A.. Em algumas produções eles estão lá, como em "No Tempo das Diligências" (Stagecoach, 1939, 97 min) e "Rastros de ódio". Eles não são necessariamente inimigos dos brancos, e sim, antagonistas fílmicos.
Mesmo com a presença indígena, o que mais chama a atenção é o retrato dos negros e latinos. São papéis importantes enquanto coadjuvantes. Principalmente os afro-descendentes. Eles estão presentes em todos os longas. Uma característica bastante humanista na construção das personagens dirigidas por Ford. Não há nenhuma menção preconceituosa, racista ou discriminatória. Nota-se a preferência do diretor em conduzir uma história calcada nos valores sociais. Está lá representado no médico branco (Warner Baxter) ajudado pelo guarda negro da penitenciária na qual está preso em "O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões" (The Prisioner of the Shark Island, 1936, 96 min) ou quando Pompey (Woody Strode), braço direito de Tom Doniphom (John Wayne), permanece ao seu lado até no pós morte em "O Homem que Matou o Facínora" (The Man Who Shot Liberty Valence, 1940, 119 min). É quando o subalterno adquire íntegra personalidade.
A fotografia de suas produções sempre trabalha a abertura da luz aliada à psicologia das personagens. Em praticamente todos os filmes os personagens estão envoltos numa negritude sem fim ao passar por algum momento ruim. É o caso de Henry Fonda quando descobre estar sem nada ao sair da prisão em "Vinhas da Ira" (The Grapes of Wrath, 1940, 129 min). A má notícia é revelada na escuridão por seu vizinho. A técnica também está em evidência no filme "Rastros de Ódio", única produção a cores da mostra. Ethan (John Wayne) é engolido pelo breu de sua obstinação em localizar o paradeiro de duas sobrinhas raptadas por índios.
Muita coisa a se escrever para pouco espaço. O tempo passa e a fonte John Ford continua inesgotável.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual