O COLAPSO DA AZALEIA E A CHINA QUE NOS SUFOCA

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Publicada em 18/05/2014 às 00:35:00

A retirada da Azaleia fechando três das suas quatro fábricas sergipanas deixa, atrás da decisão radical, rastro calamitoso de 1300 desempregados. Desemprego não é coisa simples, como se fosse apenas o corriqueiro e inevitável incidente resultante da natureza cíclica do capitalismo conduzido pelas regras de mercado. Desemprego é, antes de tudo, uma calamidade que destrói a estabilidade de famílias, gera desespero e a revolta que tantas vezes compele o trabalhador compulsoriamente de braços cruzados a percorrer o roteiro da marginalidade. Em Carira, Simão Dias, Ribeirópolis, a economia ainda acanhada será afetada pelos efeitos cumulativos da menor circulação de dinheiro, e aí surge também o desemprego indireto. Nos registros policiais passarão a constar crimes causados pela embriaguez, a droga, também furtos, assaltos, uma sucessão de ocorrências negativas pelas quais o empresário que fecha postos de trabalho nunca é responsabilizado. Empregar e desempregar são decisões facultadas ao empresário, desde que, evidentemente, ele cumpra o que determina a legislação trabalhista. A Azaleia cumprirá esses requisitos, trata-se de um conglomerado empresarial que tem um histórico alongado de abertura e fechamento de fábricas, todas elas voltadas para a utilização intensiva de mão de obra, por isso, muito disputadas nos estados, como é o caso de Sergipe, que enfrentam o desafio de gerar empregos. A Azaleia fechou diversas fábricas na Bahia e a nossa vez agora chegou. Os donos do grupo empresarial do qual a Azaleia faz parte continuarão ricos, manterão o mesmo padrão de vida, não diminuirá o caviar sobre as suas mesas, nenhum deles irá a Nova Iorque em classe turista. O ato de demitir será para eles apenas um episódio banal, com o qual lidam sem constrangimentos ou temor de consequências.
A direção da Azaleia justificará a decisão pondo a culpa na invasão dos produtos chineses, no anacronismo da nossa legislação trabalhista, na carga tributária desmesurada, em tudo aquilo que forma a massa insuportavelmente pesada do Custo Brasil.
A agressividade do capitalismo selvagem da China "comunista" de fato sufoca a retardada indústria brasileira, que se cobriu sob o lençol do protecionismo retirado por Collor, e até hoje sente o frio do desamparo. A China faz correr pelo mundo o tsunami das suas quinquilharias baratas e desastrosamente perecíveis. Nos Estados Unidos fábricas fecham subjugadas pela concorrência chinesa, mas os chineses com seu trilhão de dólares investidos em títulos do tesouro americano financiam o astronômico rombo nas contas públicas que assim sustenta a sua insustentável pujança. Aqui, vendemos commodities aos chineses, entre outras coisas, mandamos minério de ferro e recebemos trilhos que entortam, veículos quebradiços e sem peças de reposição.
O colapso da Azaleia, todavia, não decorre somente da concorrência chinesa nem de outros obstáculos que empresas similares enfrentam e conseguem vencer. Veja-se, por exemplo, o caso da Estrela. A tradicional fábrica de brinquedos estava capitulando diante dos chineses, e Albano Franco abriu caminho para que a empresa viesse a se instalar em Ribeirópolis. A Estrela começou a fabricar brinquedos high-tech aqui em Sergipe e reconquistou o mercado. O fechamento das fábricas da Azaleia é o resultado de uma série de decisões equivocadas, e, como sempre, nesses casos, o custo dos erros recai sobre o trabalhador.