Tempos de ginásio

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Publicada em 23/05/2014 às 00:41:00

* Eduardo Almeida

Sou do tempo em que vulcabrás era sinônimo de sapato colegial. Todo mundo tinha um vulcabrás para frequentar o colégio. O sapato aguentava bem a rotina e, com algum cuidado, até servia para o ano seguinte, justificando a fama de resistente e confortável.
A farda era impecável. Camisa de cambraia branca com uma abertura abaixo da gola onde cabiam dois botões. Calça de tergal azul escuro com bolsos internos laterais. Para manter o vulcabrás na linha o ano inteiro, era preciso gastar muita pasta e caprichar na flanela, tarefa a que nem todos se dedicavam, pelo que se via do aspecto desleixado dos sapatos de uns e outros.  

A farda das alunas era praticamente igual à dos alunos. Com o detalhe de que elas faziam uma dobrinha da largura de um dedo em cada manga da camisa, o que lhes conferia um ar gracioso de feminilidade. O vulcabrás delas era sem cadarço, um pouco diferente do sapato dos homens, com cadarço. De fato, o modelo usado pelas meninas parecia prender-se com mais delicadeza aos pés femininos.

As meias completavam o conjunto - pretas para os rapazes, brancas para as moças. Mas as meias eram pouco notadas, já que ficavam guardadas pelo sapato e pela calça, aparecendo só  quando a gente se sentava. De qualquer sorte, as meias na cor branca caiam melhor, contrastando com o azul da calça e o preto do lustrado vulcabrás das estudantes, estas sim, mais zelosas com o sapato.

No meu tempo de ginásio,  os homens, mais dispersos, gostavam de ocupar as carteiras do fundo da sala, para roubar uma prosa com o colega do lado durante a aula, sem serem alcançados pelo olhar do professor, que estava ali para ser ouvido com toda atenção e repreender qualquer desvio de conduta. Já as mulheres, mais concentradas, preferiam a fileira da frente, de cara no giz, como se dizia. Elas pertenciam a uma classe dentro da classe, a das cdf, assim chamadas por esquentarem muita cadeira em horas e horas de estudos.
Mas tudo isso era recompensado pela hora do recreio e pelo horário vago entre uma aula e outra. Era a hora do disse-me-disse, da gozação, da paquera e também do picolé premiado. O picolé premiado da porta do colégio era o mais gostoso da cidade. Você comprava um e ganhava outro e ainda saia se gabando de ser um cara de sorte, para impressionar a turma, que quase nunca se convencia de tal façanha.

O meu colégio fazia parte do ensino municipal e era reconhecido por oferecer boa educação. Foi o primeiro ginásio público do interior da Bahia. O exame de admissão, obrigatório naquele tempo, era o primeiro ou o segundo mais disputado de Ilhéus. Além da reputação no ensino, era bonito no estilo arquitetônico e bem localizado. O prédio tinha forma arredondada, fachada inteira de comungol para o vento entrar livremente, ampla porta de entrada toda feita em ferro, larga escada com corrimão dos dois lados ligando o térreo aos dois andares de cima e salas arejadas, com um quadro negro tão grande que nele poderiam caber os assuntos de todas as aulas ao mesmo tempo.

O meu colégio ficava bem no começo de uma avenida  que de tão comprida parecia não ter fim. Era facilmente notado por quem passava pela rua, tanto pelos traços arquitetônicos, que lembravam um navio, como pela localização privilegiada, em plena esquina de uma via importante, tendo como vizinhos o ginásio de esporte da cidade e o estádio de futebol, que por si só já atraiam a atenção geral, sobretudo nos dias de competições que apaixonavam a população.

Quanto ao meu vulcabrás, era do tipo conservado, mais pelos rigores da minha mãe do que por minha própria vontade: eu tinha que atravessar dois anos seguidos, no mínimo, com o mesmo par do sapato, sob pena de ter que encarar o ano letivo com chinelo de dedo. O que era proibido pela direção do colégio, não importando se o caso tinha a ver com um mero capricho do aluno ou com um terrível castigo materno.

* Eduardo Almeida é jornalista