Ufanismo babaca no Forró Caju 2014

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As estrelas que todo ano lavam a jega às custas da tradição não vão fazer nenhuma falta
As estrelas que todo ano lavam a jega às custas da tradição não vão fazer nenhuma falta

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Publicada em 23/05/2014 às 00:49:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Nem a bênção dos santos de junho em carne e osso seria suficiente para agradar todo mundo. A ladainha é sempre a mesma. Os artistas que ficam de fora choram a mamadeira enquanto os eleitos da vez colocam o rabo entre as pernas e fazem de conta que não têm nada com a peleja. Muito barulho pra nada. O único lamento relacionado à programação do Forró Caju digno de nota é produto do amor roxo da rabeca. Joésia Ramos passou na peneira fina da Funcaju. Nino Karvan tirou a sorte grande. Forrozeiros de primeira grandeza, a exemplo do sanfoneiro Cobra Verde, Erivaldo de Carira e Sergival, foram mais uma vez lembrados. O resto é ufanismo babaca. E ponto final.

As estrelas que todo ano lavam a jega às custas da tradição não fazem nenhuma falta. No palco do Forró Caju, Zé Ramalho, por exemplo, não passa de animal adestrado. A exaustão dos gestos repetidos sem descanso, como numa empresa de autômatos, não carrega o menor vestígio do assombro criativo de 78, quando seu LP de estreia anunciou a ventura de um compositor cheio de si. As canções não mudaram, são pisadas e repisadas sem a menor piedade. O paraibano, ao contrário, parece ter cegado com os reflexos do primeiro impulso. Difícil, no entanto, é aturar politicagem da Prefeitura de Aracaju travestida em investimento cultural. Não desce.

Uma pulga atrás da orelha - Tonico Saraiva, o presidente do Sindimuse, tem gritado aos quatro ventos que existe um cartel dedicado à contratação de determinados artistas e superfaturamento de shows no âmbito da administração pública local. Indícios existem e precisam ser investigados por quem de direito, mas o presidente do Sindimuse não é a pessoa mais indicada para apontar o dedo pra ninguém. E eu vou dizer por quê.

O ano era 2010. Eu conheci Tonico, "o rei do jingle", na condição de repórter da Agência Voz. Meia dúzia de forrozeiros haviam se reunido numa associação com o justo objetivo de reclamar cachês mais polpudos para os artistas sergipanos. O Movimento Salve tinha uma pauta extensa, composta por 47 itens levados ao conhecimento do então governador em exercício Belivaldo Chagas. Nas entrelinhas do documento, contudo, um ranço sectarista depunha contra as boas intenções da redação. Para eles, a música sergipana deveria ser entendida como produto exclusivo de seus primeiros autores, egressos da geração de 80. A vitalidade esbanjada em nossos dias, por exemplo, não passaria de uma cópia dos papocos pernambucanos. Eles não admitiam nenhuma contaminação.

A matéria foi redigida. Apesar de minhas ressalvas, chegou a ser publicada também na página que assino no Jornal do Dia. Mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. A perseguição alegada pelo Movimento Salve não era fruto de um surto paranóico. Tonico sabia bem o que pretendia quando reclamava da injustiça. A briga não era com os coronéis aboletados nas prefeituras do interior, nem com os grandões da indústria do entretenimento. Mas com a criatividade que brotava aqui mesmo na aldeia, bem embaixo do nariz de todo mundo: "A gente percebe que existe um componente ideológico na distribuição das oportunidades. Como o forró é um gênero que sempre foi bem recebido em nosso Estado, a Secult nos identifica com governos passados. Para deixar sua marca, a secretaria nos penaliza".

Em conversas posteriores, mais à vontade para rasgar o verbo, Tonico distribuiu sopapos a torto e direito. E o fez usando todas as letras. A naurÊa teria um dono com os bolsos forrados de dinheiro público. Os editais da Secult seriam um jogo de cartas marcadas. E seguia assim. A razão de tanto ressentimento, no entanto, não tardaria a aparecer. Além de músico, Tonico é também produtor de uma banda. As Patricinhas do Forró, pastiche da tradição evocada para justificar a pauta do Movimento Salve, vinha sendo preterida nos eventos públicos. Não foi uma inquietação de natureza ética que jogou Tonico nas fileiras do movimento sindical. O menino berrava pela mamadeira.

Este ano, as Patricinhas do Forró foram finalmente escaladas para a programação do Forró Caju. Fora isso, continua tudo como dantes no quartel de Abrantes (http://www.aracaju.se.gov.br/pdf/programacao-forrocaju2014.pdf), mas eu duvido que a direção do Sindimuse tenha coragem de abrir a boca pra soltar um pio.