Já não se coroam reis como antigamente

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Esse é do tempo em que Roberto bebia com a gente
Esse é do tempo em que Roberto bebia com a gente

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Publicada em 29/05/2014 às 00:24:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Opiniões educadas não têm graça. A História caminha arrastada pelos tropeços. A palavra traidora, maculada por uma paixão que nunca teve guarita nas páginas do dicionário; a urgência que revela intimidades numa caligrafia desesperada; atentados terroristas e deslizes ortográficos. O coração antes do juízo. Por isso o trabalho do biógrafo Paulo Cezar de Araújo, sobretudo o imbróglio relacionado a sua publicação, diz tanto da gente.

Em novembro de 2006, Paulo Cesar de Araújo lançou 'Roberto Carlos em detalhes', primeira biografia de fôlego do maior ídolo da música brasileira. A recepção imediata do livro foi proporcional ao tamanho da empreitada. Em poucos dias, ele ganhava resenhas entusiasmadas e atingia a lista de best-sellers. Não era pra menos: o trabalho consumiu dezesseis anos de pesquisa, contou com centenas de entrevistas com as maiores personalidades da MPB e figuras-chave na vida do cantor, e condensava em uma narrativa ágil e equilibrada todo o percurso do ícone da Jovem Guarda.

Mas a boa onda duraria pouco. Em sua coletiva de Natal daquele ano, Roberto Carlos reagiu com virulência quando indagado sobre o livro. Acusando o autor de invadir sua privacidade, disse que o caso já estava com seus advogados, que em breve entrariam na Justiça para impedir a circulação da biografia. Em 10 de janeiro de 2007, o rei de fato bateu às portas dos tribunais contra o autor e sua então editora. Foi o início de uma rumorosa batalha judicial, dolorosíssima para todas as partes, e também de uma das mais graves agressões à liberdade de expressão na história brasileira recente.

Quem quiser conhecer os pormenores da batalha judicial que culminou na censura do livro 'Roberto Carlos em detalhes' deve se apressar, antes que os advogados do cantor consigam autorização para repetir o feito e retirar o recém lançado 'O rei e o réu' (2014) das prateleiras. O fundamental, no entanto, todo mundo já sabe: Roberto não é mais o mesmo. E já faz tempo.

E até os erros de meu português ruim - Sobre as cabeças coroadas pelo aplauso vacila uma espada morta de sede, pronta para o mergulho gelado que lava a face dos vivos num balde transbordando de lágrimas e emprenha os buracos podres da terra com o bafo dos defuntos. O meu amigo Roberto nunca se deu conta do pano imundo em que se meteu com as moedas trocadas pelo pulso impressionado de suas palavras. Dizem que adoeceu. Só veste azul. Nunca mais nos falou nem bebeu com a gente.

Uma corda amarrada ao pescoço não o traria mais apertado. Roberto dá entrevistas, faz caridade, se apresenta à frente de orquestras, mas faria melhor negócio enterrado. Sob sete palmos, metido num paletó de madeira, obrigado a um regime de raízes e insetos, a salvo da bajulação, talvez recordasse o idioma com o qual mandava tudo ao inferno.
Vocabulário e intenção nos aproximavam. O dinheiro não dava pra nada, o vinho torcia nossas tripas e as meninas não olhavam pra gente. A vida era simples e dolorosa, por isso as canções de Roberto.