Aniversário com Hitchcock e muito rock

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Publicada em 11/06/2014 às 00:05:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

"Lembro de uma senhora negra, muito velha, que depois de uma sessão gratuita, voltada para um público de idosos, agradeceu a oportunidade de ver um filme pela primeira vez na vida. Ela acreditava que morreria sem jamais entrar num cinema".

O depoimento do produtor cultural Roberto Nunes, responsável pelas exibições do Cine Cult, pode ser tomado como um emblema da motivação por trás de aposta tão arriscada. Ao longo de sete anos dando murro em ponta de faca, a iniciativa da produtora Cine Vídeo Educação se consolidou como a principal janela aberta na sala escura do mercado exibidor brasileiro para a cinematografia autoral mais autêntica e relevante produzida nos quatro cantos do mundo.

Filmes como Dogville, Manderlay, O Grande Chefe, Anticristo, Melancolia e Ninfomaníaca, para ficar somente na produção de Lars Von Trier, só foram exibidos em Aracaju graças ao Cine Cult. O resultado foi tão positivo que o complexo Cinemark propôs a ampliação do projeto, contemplando as principais praças do país. "Através do Cinema, somos transportados para outras realidades. Se tivermos as ferramentas certas, podemos aprender um pouco mais sobre o outro".

Próxima sexta-feira, 13, o Cine Cult celebra o triunfo do olhar crítico, as margens que transbordam em aproximação e entendimento, com a exibição cópia digital 2 K do Clássico The Birds (Os Pássaros) de Alfred Hitchcock. Após a sessão, a Plástico Lunar puxa o coro de parabéns com um show especial, na Che Petiscaria.

Jornal do Dia - Ao longo de tantos anos à frente do Cine Cult, você acredita que é possível interferir na geografia sensível de um dado lugar por meio da educação e, sobretudo, do cinema, em particular? O batismo de sua produtora não se deu toa...

Roberto Nunes - Cada dia creio mais nisso. Num mundo onde a relação de consumo domina o cotidiano das pessoas, onde as informações circulam com uma velocidade incrível, a educação é o que pode alterar esse círculo vicioso proposto pelo capitalismo, onde o acumulo de bens é o objetivo de toda uma vida.
Nesse contexto, o Cinema pode ser uma ferramenta importante para, através da imagem em movimento, abrir novos horizontes. Quando assistimos um filme iraniano, russo, sul coreano, argentino, somos transportados para outra realidade e se tivermos as ferramentas que possibilitem uma análise mais aprofundada dessa história podemos aprender um pouco mais sobre o outro. O Cinema é tão importante na formação humanística do indivíduo que deveria ser parte do currículo das escolas fundamentais.

JD - Há alguns anos, em uma conversa suscitada pela importância do projeto, você contou a história de uma senhora que entrou num cinema pela primeira vez em uma ação de cunho social promovida pelo Cine Cult. Porque a linguagem artística, de um modo geral, é tão pouco acessível e valorizada entre os nossos?

Roberto - Há um contingente ainda muito grande de pessoas que não têm acesso aos bens culturais, pessoas que não podem ir ao cinema, pessoas que nunca foram ao teatro, a um show. Há uma grande omissão do estado em fomentar esse acesso, de levar a arte para a periferia. Durante muito tempo fiz sessões de cinema em bairros, escolas, até em hospitais psiquiátricos, praças públicas, e sentia como a população valorizava essa oportunidade. Mas educação e cultura liberta. E um povo liberto não interessa aos governos.

JD - A manutenção de um projeto com a natureza do Cine Cult junto a um exibidor do porte do Cinemark é um dado curioso. Há alguma espécie de dificuldade ou conflito de interesses entre o projeto e o complexo exibidor?

Roberto - Conflito sempre há, é um casamento de sete anos, mas este conflito é sempre em alto nível e resolvemos rapidamente. A Cinemark é o maior exibidor do país e um dos maiores do mundo, tem procedimentos rígidos a serem cumpridos e trabalhar com isso é sempre um aprendizado.

JD - A experiência cinematográfica (sala escura, projeção em tela grande, o ritual) vem sendo ameaçada pelo acesso permitido por meio dos Cine Torrents da vida. É possível experimentar todas as nuances de um filme em qualquer espaço?

Roberto - Não, é diferente, é outro tipo de experiência. É como ouvir um CD ao invés de conferir um show de verdade, de frente pro palco. O Cinema é uma experiência coletiva, para ser compartilhada com a pessoa ao lado. Isso, pra não mencionar as peculiaridades técnicas. Hoje, com projeções em 2Km é impossível ter a mesma qualidade em casa.

JD - A falta de educação dos expectadores em determinadas praças também tem afastado o consumidor mais exigente (tratamos de um produto, afinal de contas). O comportamento dos exibidores, no entanto, não tem enfrentado o problema com a devida atenção (e o episódio relacionado ao filme "Praia do Futuro" é emblemático). Falta compreensão da experiência cinematográfica como de fruição artística por porte do Cinemark?

Roberto - Podemos apontar diversos erros nas operações, o público do Cine Cult sempre "incomoda" mais, por ser exigente, por querer o que lhe é de direito. Como a maioria das pessoas que vai ao cinema assiste aos chamados filmes pipocas, não se incomoda com detalhes que para o nosso público é fundamental. Ver os créditos até o final, qualidade de som e projeção, por exemplo. No caso de 'Praia do Futuro' houve uma grande "selvageria" de pessoas que nunca parecem nunca frequentaram um cinema. São as mesmas pessoas que aplaudiam as cenas de torturas de 'Tropa de Elite' e não estão acostumadas com a convivência com o diferente. Infelizmente o espectador médio do cinema não respeita o espaço cinema.

JD - E os planos para os próximos anos de Cine Cult? Ainda dá pra crescer?

Roberto - O Cine Cult quer ampliar suas ações para além das exibições. Queremos agregar debates pós sessões, realização de alguns cursos e lançar filmes nacionais menores e experimentais. Tudo isso aliado a um processo profissional de busca de apoios e patrocínios.