AS CRIANÇAS E A CASA DE CHOCOLATE

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Publicada em 22/06/2014 às 00:07:00

Há os que exageram entendendo que Karl Marx não serve mais para nada, e há ainda os que vão além, no desatino de considerar a inexistência de escapatória para os dilemas do mundo a não ser pelos caminhos antes palmilhados, e o diabo sabe como, do marxismo juntado ao leninismo, ou ainda ao trotskismo, deixando pelo caminho o esquecido Engels, burguês parceiro de aventuras do pensamento ¨proletário¨, arrimo seguro sem o qual Marx até fome haveria padecido.
Cornelius Castoriadis (1922- 1997) pensador francês de origem grega como denuncia o nome, é filósofo por aqui pouco citado, embora desde os anos 70 até sua morte em 97 se tenha dedicado a escrever extensa obra sob a denominação geral de Figuras do Pensável, onde faz a critica do marxismo após seu engessamento pelo totalitarismo stalinista. Ele concentra-se ainda no dilema da incapacidade de sobrevivência da racionalidade, em face do enclausuramento capitalista pela degeneração putrefata do cassino global resultante daquilo que Gilles Châtlet (1944-1999) ainda às voltas com a Beat Generation dos anos 70, já denominava ¨Contrareforma Neoliberal¨.
Vem ai mais uma eleição e será que estaremos metidos na mesma esfarrapada camisa de força ideológica, ou, pior ainda, safadamente puritanos a ocultar a nudez cerebral que nos remete a preconceitos, nos afunda em dogmas, e até leva alguns a acreditarem no ¨cristianismo¨ desses vorazes profetas do PSC?
Restará algum espaço onde se albergue a nossa miseranda racionalidade?
Por onde andaria ela? No escárnio do gesto de um Che Guevara de hospício, o decaído apparatchik Zé Dirceu, ao transpor os umbrais da Papuda? Ou estaria escondendo-se, trancafiada, lá pelos mictórios do Supremo Tribunal Federal, enquanto o ainda ministro Barbosa sonhava empunhar o machado que, passando de geração em geração celebrizou na França uma família de carrascos, os Sanson?
No STF a racionalidade deixou, ainda que desenxabida, o seu bunker tresandando malcheiroso ódio, quando o ex-ministro Carlos Britto falou de cátedra: ¨Não se pode praticar nem o Direito Penal do compadrio nem o do inimigo, que estigmatiza o preso, o réu, e o vê como besta-fera, um cão dos infernos. É preciso muito equilíbrio nesta hora¨.
No caso do singular humanista Carlos Britto, até ele deixou-se de certa forma contagiar, prefaciando o livro de um perfeito energúmeno e deplorável jornalista chamado Merval Pereira.
Na varanda hospitaleira de uma fazenda sergipana, conservando certa pose atávica de coronel, político descendente deles, conservador, latifundiário, defensor da ordem e do progresso, definindo-se como moderno e democrata fazia apologia calorosa aos arruaceiros truculentos mascarados, os black- blocks. Alegava que se as corjas não depredarem, não incendiarem, não ferirem, os anseios reprimidos da sociedade jamais serão ouvidos.
A irracionalidade é absolutamente atemporal. Assusta, contudo, a sua recidiva similitude.
1922. Acontecia a Marcha Sobre Roma. Seriam 20, 40 mil, divergem as estatísticas, mas há uma certeza: entre eles não havia ninguém portador de bom senso.  Todos, de uma forma ou de outra contaminados pelo ódio que se originava das frustrações pessoais, da inveja, da ambição, da usura , do fanatismo, do fracasso. Eram os fascistas. E incendiando, atemorizando, espalhando o pânico, assassinando, assaltando, chegaram ao poder. O trajeto deles até abril de 45 às margens do Lago de Garda quando foram seus cabeças presos e fuzilados, é a página terrível da historia italiana . Não há projeto político que possa sustentar-se permanentemente no ódio.  Por isso, espanta a impassibilidade de tantos brasileiros diante da marcha ululante da irracionalidade que se manifesta nos black-blocks e nos que entoam o coro sem rima, mandando uma senhora que eventualmente é presidente: "Vá tomar no cú". Por que ter aqui o escrevinhador, preocupação eufemista com a ferocidade odienta do insulto, suavizando a expressão infame?
O ódio, observou Freud, é bem mais antigo do que o amor.
Disse o presidente Juscelino Kubitscheck, uma vez quando apupado: ¨Feliz do país onde um povo livre pode vaiar um presidente¨.
Ele, homem civilizado, contemporizador e sobretudo democrata, repetiria agora: Feliz do pais onde um povo livre, politizado e destituído de ódio pode vaiar um presidente¨.
Talvez o ódio, a incivilidade , os descaminhos da sociedade , resultem, entre outros fatores , da desagregadora sensação de inutilidade da política.
Reconstruir a política como instrumento de sintonia com a racionalidade não é tarefa para aventureiros, ignorantes, desonrados ou meliantes.
O desafio não se coloca apenas diante dos brasileiros, trata-se de uma busca da racionalidade em escala global.
A longo prazo o modelo econômico social nosso, e do resto do mundo industrializado ou em desenvolvimento é, visivelmente insustentável. Mas as revoluções, que aliás pouco resolveram ou mais complicaram, são agora impossíveis e indesejáveis pela maioria sensata.
Não há outro caminho por mais lento ou decepcionante além da trajetória política. E não se dignificará a política com insultos ou pedradas.
Voltando a Castoriades concluímos com um texto dele que é síntese da imensa tarefa de transformação que terá de ser feita, a própria reconstrução racional do mundo e dos sistemas em que vivemos, coisa para algumas gerações, dai porque a ansiedade terá de ser contida: ¨O mundo só faz reproduzir a velha ilusão cartesiano-capitalista- marxista do homem mestre e senhor da natureza - conquanto o homem seja antes como uma criança que, diante de uma casa cujas paredes são de chocolate, se põe a comê-las sem compreender que logo o resto da casa vai lhe cair na cabeça, ora, esta destruição é, até nova ordem, necessária à sobrevivência do sistema. O regime oligárquico liberal, com a apatia e a privatização que o tornam possível, pressupõe que as pessoas passem efetivamente o seu tempo nos supermercados e diante das televisões¨.