Marlene estava sempre começando

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Coroada Rainha do Rádio em 1949, glória imensurável
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Dona de uma beleza exótica, Marlene era sedução e charme
Dona de uma beleza exótica, Marlene era sedução e charme

Marlene e Sérgio Britto em \"Um Céu de Asfalto\", dias 27 e 28 de agosto de 1991, no Teatro Atheneu
Marlene e Sérgio Britto em \"Um Céu de Asfalto\", dias 27 e 28 de agosto de 1991, no Teatro Atheneu

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Publicada em 26/06/2014 às 00:19:00

Lembro-me como se fosse hoje porque na efervecência hormonal dos meus vinte aninhos, eu estava lá, no Teatro Glória (Rio de Janeiro) visivelmente excitado com a sensualidade de Marlene:quando ela começou a cantar no show "Marlene Olê Olá", pelo menos cinqüenta membros da "família marlenista" ocupavam os primeiros lugares da casa de espetáculos, com flores, faixas e bilhetes, como nos velhos tempos da Rádio Nacional. Grande parte do público carioca (ou não) muitos anos depois, estava revivendo uma rivalidade tão antiga quanto o rádio brasileiro, quando Emilinha Borba (que antecedeu a "rival" na viagem de volta) e Marlene provocavam brigas intermináveis entre grupos de fãs entusiasmados. Foi nesse clima que ela relembrou os acontecimentos de sua vida, que gravei e reproduzo aqui, ainda abalado pela notícia do seu falecimento, ocorrido na fatídica sexta-feira, 13 de junho. Sem aviso prévio ela nos deixava, aos 91 anos, vítima de um câncer no pulmão:
"Quando eu vim para o Rio de Janeiro (Marlene era paulista) tinha dezesseis anos. Eu queria cantar sem saber o que ou para quê. Não me importava se um dia eu seria alguém. Queria apenas começar. E até hoje estou sempre querendo começar alguma coisa".

Em 1948, Marlene era a estrela de um teatrinho que mais tarde veio a se chamar "Marlene, Meu Bem", aos moldes de "I Love Lucy" da TV americana. A experiência teatral seria desenvolvida anos depois em dezenas de outras peças.
Cantora excepcional e atriz consagrada, Marlene, após atuar com brilhantismo no Cassino da Urca (por onde passaram nomes famosos como Carmen Miranda e Grande Otelo, entre tantos outros), ela foi convidada por Carlos Machado,(o Rei da Noite) para ser crooner da Boate Casablanca. Daí passou para o Copacabana Palace, onde Caribé da Rocha estaria decidido a transformá-la numa estrela de renome internacional.
 
Eterna insatisfeita
Com tudo correndo a seu favor, mesmo assim, Marlene estava insatisfeita. Não queria cantar apenas alguns momentos, e sim a noite inteira, como Lana Bittencourt, Dória Monteiro, Jorge Goulart e Nora Ney. Saiu do Copacabana Palace para a Rádio Nacional, onde Emilinha Borba era a estrela do programa "A Felicidade Bate à Sua Porta". Marlene foi contratada a "peso de ouro" e passou a dividir a popularidade com a cantora. A rivalidade foi crescendo de tal maneira, que em pouco tempo os fãs das duas cantoras começaram a armar os maiores "barracos". A emissora foi obrigada a separá-las, apresentando-as no programa alternadamente, uma em cada domingo.

No começo da carreira na Rádio Nacional (a meta de todos artistas, na época, a exemplo da TV Globo, hoje), Marlene foi eleita dois anos seguidos Rainha do Carnaval Carioca. Foi aí que começou a gravar seus primeiros hits que se tornariam verdadeiros clássicos, tais como "Nasci Para Bailar", "Que nem Jiló", "Toma Jeito, João", "Tome Polca", "Sassaruê", "Apito no Samba", "Jambalaia"(a preferida da nossa Clara Angélica), "Saudosa Maloca", "Chora Telelê", "Gimba", "Briga, Nunca Mais" e tantos outros.
De carnaval, a relação é ainda maior. Apenas para situar o(a)  leitor(a) na época, vale citar:"Sapato de Pobre", "Lata D'água na Cabeça" (talvez o maior de todos), "Zé Marmita", "Mora na Filosofia", "Pega no Ganzê" e "Bloco da Solidão". Sem esquecer o "Skindô, Dô Dô", que a Censura quase proibiu por causa do rebolado "escandaloso" da cantora, quando de suas apresentações. Brincadeira de criança se comparada à "dancinha da garrafa" da Carla Perez, hoje.

Sempre insatisfeita, Marlene resolveu, de repente, mudar de estilo. Depois de se tornar popular através de músicas despretensiosas, passou a cantar composições de "melhor teor artístico", como dizem os puristas. Foi justamente em 1965 que apareceram compositores talentosíssimos como Milton Nascimento, por exemplo. Além, é claro, de Caetano, Gil e Chico. Ela não hesitou de em gravar músicas de todos eles. E com incrível categoria, como sempre, apesar de sua voz rouca e sensual. E talvez por isso mesmo, se é que você me endente...

A volta por cima
Foi em 1968 que a patota da MPB redescobriu Marlene. Isso graças a um show chamado "Carnavália". Na época, ela disse, humildemente: "O público me achou diferente", mas logo adotou uma postura mais arrogante e provocativa, bem ao seu estilo:"Pura mentira. Eu sempre fui assim. Nunca modifiquei nada, sou igual desde o princípio".

A verdade é que existia um preconceito imbecil em torno daquela espontaneidade dos programas de auditório da Rádio Nacional, que agora a televisão tenta copiar sem muito sucesso.
Para Marlene, no entanto, o marco inicial dessa volta por cima foi o show "É a Maior!", produzido por Hermínio Bello de Carvalho e Fauzi Arap, duas grandes "feras" do cenário artístico brasileiro. A dupla introduziu no espetáculo aquelas músicas que Marlene gostaria de cantar mas não deixavam. Não tinha a menor chance junto às gravadoras, principalmente. Fauzi Arap, experiente diretor de teatro, fez uma marcação perfeita e ensinou Marlene alguns segredos da conduta no palco. Anos depois, viria um outro grande sucesso da explosiva Marlene no palco: "Te Pego Pela Palavra", com direção do não menos explosivo Jorge Fernando. Esses dois espetáculos que tive a felicidade de aplaudir, consolidaram esse novo caminho de uma estrela que nunca deixará de brilhar. E agora mais do que nunca, quando se encontra no Plano Astral, jubilosamente gloriosa.

Artista na intimidade
Tive o privilégio de conhecer Marlene na intimidade, levado pela amiga Eva Todor. Ela morava na Rua Júlio de Carvalho, com o maridão Paulo de Barros, engenheiro, e o filho dela com o seu primeiro marido, o ator Luís Delfino, Sérgio Henrique, na época com apenas dezoito aninhos. Marlene nos contou que aos quinze anos, Serginho deu um trabalho danado à mãezona, porque tinha uma namorada e queria casar a qualquer custo. "Claro que a família não podia concordar com aquela loucura juvenil", disse Marlene. Felizmente, o garotão acabou concordando.

Na sua vidinha de dona de casa, Marlene, apesar do sucesso que vinha fazendo nas emissoras de rádio, no teatro, na televisão e no cinema, ela dizia que já não era mais assediada pelos fãs como antigamente. Já não precisava se preocupar com os quartos de hotéis em que eventualmente se hospedava, onde às vezes era surpreendida pela invasão de fãs mais afoitos. Já podia sair às ruas tranquilamente, pois o máximo que lhe podia acontecer era um pedido de autógrafo que ela nunca se negou a atender. E com mesmo prazer dos velhos tempos
Marlene sempre quis saber qual o mistério de sua popularidade. Convidada para desfilar na Presidente Vargas (ainda não havia o Sambódromo) cantando o samba-enredo da Império Serrano, a cantora e atriz aceitou correndo, porque novidade era com ela mesmo, que dizia estar sempre começando. E foi assim que no dia 13 de junho de 2014, ela confirmaria o princípio que norteou toda a sua carreira artística e irá continuar norteando, muito provavelmente na sucessão de muitos outros avatares.... AXÉ!