Em memória dos vivos

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Publicada em 27/06/2014 às 00:39:00

* Rangel Alves da Costa

Talvez os vivos mereçam uma missa, um pranto de saudade, um buquê de flores e um emocionado discurso louvando sua memória e suas virtudes. Seria um tipo de Réquiem para os vivos, um rogo pela purificação das almas que se alastram perdidas nos desvãos da existência. Assim, ao invés de o celebrante dizer "dai-lhes o repouso eterno", diria "dai-lhes o renascimento do que de mais puro ainda existe nas suas almas".

Somente na louvação e na memória é possível lustrar as feições humanas com os bálsamos inexistentes perante a realidade. Mas o que os viventes, os que continuam vivos e perambulando por aí, fizeram para que sua memória precisasse ser reverenciada antes do desaparecimento terreno? Não seria mau augúrio nem antecipação dos fatos, mas apenas um forma de reconhecimento agora daquilo que certamente o homem esconde em si. E também uma maneira de despertar as tais virtudes que parecem enclausuradas e sufocadas pelo lado frio e arrogante do ser.

Não há de se duvidar que o homem que anda por aí é um ser transformado pela realidade que vivencia no seu dia a dia. A bem dizer, é apenas um ser revestido de outra roupagem que não aquela inicialmente concedida. Despido de sua natureza intrínseca, e esta nascida boa pelo próprio desígnio humano sobre a terra, aos poucos foi convergindo para si os males do mundo e assim se deixado levar no convívio e nas suas relações. É como se a sua bondosa natureza tivesse sido tomada pelos fluídos negativos da Caixa de Pandora.
Envolvido e transformado sem ser esse o seu destino, é preciso que se diga. Nenhum homem nasceu com a sina da maldade, da violência, da desonestidade consigo mesmo e com o próximo. Nenhum ser humano nasceu carregando a cruz da miséria, da discórdia e do sofrimento. Nenhum ser humano veio ao mundo para expurgar de si seus relevos espirituais e se transformar em algo medonho e temido. Logo se tem que a roupagem adquirida nada lembra aquela vinda no corpo, na alma e no coração do homem.
Quer dizer, o homem não é assim tão desumano, egoísta, soberbo, falso, mentiroso, aproveitador, que só pensa nele mesmo e depois em si mesmo. Não, o homem não pode ser assim, e certamente não é, mas algo o impulsiona a assim ser e se comportar. E uma missa em sua memória, ou à memória de suas virtudes, talvez possa fraquejar o lado insidioso e fazer renascer aquilo que se espera ressurgindo. As palavras de glorificação e reconhecimento de suas capacidades servirão como remição para os tantos erros e ressurgimento das boas virtudes que acabaram nas sombras.
A verdade é que o homem não pode continuar aprisionado por aquilo que não deseja. Assim porque se presume não desejar ser, viver e agir sendo comandado pela sua feição mais desumana e insensível. Em muitos há uma verdadeira luta íntima para não se deixar conduzir pelas ações que lhe retiram o que tem de mais virtuoso. E porque seu lado bom continua prisioneiro das exigências e influências negativas do mundo, o homem espiritual precisa ser urgentemente libertado destes tormentosos grilhões.
O homem é um ser essencialmente esquecido das lições primordiais da vida. Basta que algo brilhe como ouro, e já larga as preciosidades duramente alcançadas. E na ganância, na ambição desmedida, acaba rejeitando princípios éticos, morais e de bondade, para se alimentar somente da acumulação daquilo que nenhuma serventia traz à alma. E neste afã de conquista, todo aquele que se puser à sua frente tenderá a ser visto como empecilho e pisado como verme asqueroso.

E num mundo de disputas, ambições e injustiças, a medida da ação será aquela que lhe garanta não só a sobrevivência, mas principalmente ter sempre mais do que necessita, e custe o que custar. Nesse estágio, a violência não comove, a arrogância não é sentida, a desonestidade não provoca revolta, o medo não provoca qualquer espanto. E nada disso faz sofrer ou causa reflexão porque também é agente dessa situação. É como se aprendesse no erro a também errar. É como se escolhesse negligenciar as condutas positivas da vida porque pressente e se guia pelos desacertos de seus semelhantes.
Lamentável que seja assim. Ora, o homem, enquanto dádiva da criação, é um ser bondoso, digno, virtuoso, nascido para o companheirismo e o agradável convívio. Que se tome como exemplo a criança brincalhona, feliz, cheia de satisfação, ainda que nascida em leito empobrecido. Tome-se como exemplo o jovem sonhador, lutador, que vai abrindo caminho e enfrentando os espinhos sem perder a candura nem afrontar o destino. Mas parece que tais qualidades acabam depois da curva da estrada. Após isso, já não mais será avistado como antes.

Diferentemente do que se possam imaginar, tais palavras não são pessimistas nem carregadas de descrenças no ser humano e generalizando de modo negativo as feições existentes em cada indivíduo. Pelo contrário, surgem como reconhecimento de sua capacidade para agir positivamente diante do que lhe foi confiado na existência. E reconhecimento também que os malefícios acaso surgidos, e proliferados de modo tão danosos, não são fruto de escolha pessoal, mas do meio que impõe a sujeição a todos os tipos de indignidades.

* Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
blograngel-sertao.blogspot.com