Sexo, drogas e disco music

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Longa lançou Travolta ao estrelato
Longa lançou Travolta ao estrelato

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Publicada em 28/06/2014 às 01:01:00

* Anderson Bruno

É engraçado a dimensão que um clássico alcança. Todos acreditam, por exemplo, que o filme "Os Embalos de Sábado à noite" (Saturday Night Fever, John Badham, 1977, EUA, 118 min) é sobre John Travolta (no papel de Toni Manero) dançando ao som de 'Stayin' Alive', do BeeGess. Contribui muito o fato de o longa ter lançado o nosso protagonista ao estrelato. Ele foi condecorado a símbolo sexual de uma época revolucionária: a década de 1970. Este decanato é o principal ponto discutido na produção.

O lema era o do sexo, das drogas e do Rock and Roll. Porém, aqui nos 'Embalos...' a 'disco music' é o estilo musical reinante. Em dado momento, o gênero regado a guitarra e bateria é referendado numa citação a David Bowie. Definitivamente, o rock não era a 'praia' dos nossos personagens. De maneira jocosa até, um deles reduz a imagem do ex-Ziggy Stardust a um bissexual apenas, sem sequer se aprofundar na parte artística do cantor. Que por sinal fez história à época com suas performances andróginas regadas a muito gliter, roupas espalhafatosas e maquiagens idem. O interessante é perceber Bobby C. (Barry Miller), um dos fiéis escudeiros de Toni Manero, a andar de salto por entre as ruas. Ninguém questiona sua sexualidade. Ele faz parte do reduto macho ítalo-americano apreciador da era disco e pronto. Não existe viadagem entre eles.

Dentro do espectro, a produção lança um raio-x negativo dessa época, afirma a efemeridade do momento e alerta suas jovens personagens. É como se o filme dissesse: "Aproveite a juventude porque tudo passa. Inclusive a febre dessa época". A revolução feminista acompanha. Dramatiza uma falsa sensação de independência da mulher através de Stephanie (Karen Lynn Gorney), parceira de Toni. Para conseguir status pessoal e profissional, a bela se entrega várias vezes ao 'teste do sofá'. A emancipação é dela, mas a supremacia continua a ser masculina.

Outra cena a enfatizar tal pensamento está duplo estupro sofrido por Annette (Danna Pescow). De início, parte dela transar com os dois. No momento do ato, ela se arrepende. Mesmo assim, a violação sexual é consumada. Logo após, ela está novamente junto aos rapazes. Mais do que promiscuidade, a mensagem principal está na falta de amor a si próprio. A sentença de culpa recai sobre a setentista década, pela falsa sensação de alegria regada a "Disco Inferno", música de "The Trammps" integrada à trilha sonora dos "Embalos...".
O catolicismo funciona como a um termômetro. A todo o tempo, referenciais litúrgicos permeiam a película. A família de Toni é uma delas. Se o personagem de John Travolta é visto como o representante do demo - por sensualizar no rebolado ou por andar só de cueca pela casa - seu irmão mais velho é visto de maneira oposta.

Frank (Martin Shakar) é um padre elevado a santo pela família com direito a foto no altar da sala de jantar. O gesto de largar a batina é a representação do livre arbítrio e suas conseqüências: a família sente-se fracassada e impotente pelo meio vigente (o do sexo livre, drogas e orgia). Já Frank se sente livre para seguir o caminho se sua consciência. Essa é a dicotomia arraigada no filme: viver os momentos de prazer ou trabalhar a razão para o futuro? A espiritualidade funciona como o equilíbrio. Toni, por exemplo, ainda se encontra perdido na vida. Tanto ele quanto seus amigos usam crucifixos no pescoço. Um adorno para eles, um referencial católico para o filme.

"2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968), Al Pacino, "Serpico" (1973), Farrah Fawcett, "Rocky" (1976) e Bruce Lee estão entre as citações cinematográficas do longa. A volta de Travolta ao sucesso, nesse patamar de estrelato, apenas se daria com "Pulp Fiction - Tempo de Violência" (1994), depois de amargar dezessete anos no ostracismo.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.