XINGÓ OU A DESCOBERTA TARDIA DA IMPORTANCIA DOS CANAIS

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Publicada em 29/06/2014 às 01:53:00

Construir canais interligando rios ou levando suas águas para locais distantes é uma prática que se inicia alguns séculos depois que o homem deixou de ser caçador e fixou-se à terra para plantar e colher o alimento. Há 4, 5 mil anos, chineses, egípcios, babilônios, já os faziam, e com eles os campos produziram mais e as cidades cresceram. Os árabes, transpondo o Mediterrâneo e chegando à península ibérica, levaram suas técnicas para transformar terras áridas em produtivas, e fizeram de quase todo o sul da Espanha um jardim, levando as águas do Guadalquivir, do Ebro, para irrigar as planícies da Catalunha onde chove bem menos do que no semiárido nordestino.
Colbert, um ministro cuja criatividade era maior do que a sua rapacidade, fez, com suas boas ideias, uma parte da glória de Luiz XIV, o Rei Sol.  Ele levou ao rei, que não era muito chegado à água, tanto assim que nunca tomou um banho verdadeiro (apenas era higienizado com toalhas úmidas e quentes, uma ideia que Luiz XIV, apesar de audacioso construtor de suntuosos palácios, achou um exagerado sonho). Colbert propunha interligar os rios Ródano e Garrone através de um canal com quase 400 quilômetros ,tornando navegável um percurso desde o Mediterrâneo no sul, à baia de Biscaia no norte. Isso aconteceu no século XVIII, o rei topou a ideia, e assim surgiu o Canal do Languedoc, cuja importância econômica todos os franceses bem conhecem. Doze mil homens foram postos a trabalhar num tempo em que nem mesmo as primitivas máquinas a vapor ainda não eram utilizadas. Em alguns pontos o Languedoc chega a alturas superiores a 200 metros acima do nível do mar, e foram construídas comportas, aqueles elevadores de água que fazem subir e descer as embarcações.
No Brasil, nos tempos coloniais os portugueses nunca pensaram em canais, tantos eram os rios, tanta era a água disponível e tão poucas as suas culturas. O príncipe Maurício de Nassau, executivo da multinacional Companhia das Índias, no curto período do domínio holandês no nordeste, chegou a imaginá-los, mas não houve tempo. Dom João VI, que a falsidade histórica transformou num glutão, às voltas com os chifres inúmeros que lhes colocava a sua fogosa Carlota Joaquina, canalizou até a cidade a água da floresta da Tijuca, fazendo para isso um vistoso aqueduto, técnica que os romanos tão bem dominavam quinhentos anos antes de Cristo e resolveu por muitos anos o abastecimento do Rio de Janeiro. A República por onde passaram tantos presunçosos incompetentes, viu-se dominada pela cultura rodoviarista desde quando o genial Juscelino Kubitschek instalou fábricas de automóveis e rasgou estradas ate pelas selvas entre Brasília e Belém. Sem imaginar que iriamos aderir inteiramente ao caminhão, esquecendo dos rios, do transporte fluvial, até da cabotagem que os navios do Loyd e da Costeira faziam entre os nossos portos do Rio Grande ao Amapá. Canalizar água para irrigação nem pensar, e em São Paulo, José Serra, Geraldo Alckmin, esqueceram até de acumular e canalizar mais água para uma São Paulo enorme e vítima de tanta ausência de previsão.  Nesse capítulo, Sergipe dá lições de competência. Temos muitas adutoras, falta-nos todavia um bom canal que receba água do São Francisco e a leve pelo semiárido afora mitigando a sede das gentes, irrigando as plantas, dando água para a vaca produzir mais leite e ter forragem suficiente. Sexta-feira, dia 27, o diretor presidente da CODEVASF anunciava o nosso Canal de Xingó.