Roger Kbelera e os embates do tempo

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Em busca dos próprios pares
Em busca dos próprios pares

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Publicada em 02/07/2014 às 00:03:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O cantor e compositor Róger Kbelera foi um entre tantos talentos genuínos a se apresentar no curralzinho dedicado à música parida no coração da aldeia durante o Forró Caju 2014. Não ganhou sequer uma linha de atenção. Erguido a meio palmo do chão, o palco Gerson Filho não tinha altura para operar um milagre e devolver a luz aos veículos de imprensa locais. Uma pena. Mas em terra de cego quem tem olho é rei.

O recém-lançado 'Nordestinaracajuano' (2014) cristaliza um embate que extrapola a seara estritamente musical. Indeciso entre as bênçãos das vacas sagradas e os acenos pressentidos no horizonte, Kbelera se prestou a um retrato involuntário dos conflitos inerentes à filiação criativa em nossos dias. O resultado é um registro irregular, que não resolve as diferenças entre um compositor inspirado e um artista em busca dos próprios pares.

Um disco inteiro dedicado ao mais descarado bairrismo sergipano. O forró bem marcado, embalado pelos golpes surdos da zabumba, confere a 'Nordestinaracajuano' o status inquestionável de produto da terra. Letrista capaz de batizar uma música com a sentença certeira de que 'Shopping não sente', uma síntese digna dos grandes da canção, o compositor resvala, contudo, numa reverência tardia aos modismos de antanho. Não precisava ser assim.

A introdução de 'Nordestinaracajuano', com um texto de Maestro Duduca na voz de Rômulo Aquino, seguida pela primeira faixa, 'Perguntas e respostas', promete uma imersão extemporânea no melhor da tradição forrozeira. O timbre cafona da faixa seguinte, entretanto, quase põe tudo a perder. Dirigido por Chico Queiroga e Antônio Rogério, artistas indispostos ao diálogo com o novo, Kbelera desperdiça canções com potencial para credenciá-lo entre os compositores de hoje em arranjos caindo de velhos.
Uma estreia é só um primeiro passo. Kbelera pode seguir em frente. Basta parar de olhar pra traz.