Brasileiríssimo na Domingueira da Intera

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Para a semana de todo mundo começar pra cima
Para a semana de todo mundo começar pra cima

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Publicada em 04/07/2014 às 00:09:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os espertos já possuem o mapa da mina. A Casa Intera é um dos espaços mais bacanas da cidade. O jardim criativo cultivado por Alisson Coutto e Isabele Ribeiro em pleno Bairro São José se presta a todo tipo de evento. Nenhum traduz a felicidade da proposta de maneira tão descontraída e oportuna, contudo, quanto as Domingueiras da Intera. Música no fim de tarde, entre flores, comes e bebes, para a semana de todo mundo começar pra cima.

O Jornal do Dia conversou com Maiume e Ricardo Vieira, voz e sete cordas do grupo de choro Brasileiríssimo, a próxima atração da Domingueira. Segundo o casal, e a apresentação na Intera o prova, não há público ideal, nem lugar cativo para determinado gênero de canção. No fim das contas, tudo resto resumido à verdade da música.

Jornal do Dia - O surgimento de alguns grupos de choro, a exemplo do Brasileiríssimo, com uma agenda relativamente movimentada, é suficiente para amparar a existência de um movimento de choro local?

Maiume Vieira - O Brasileiríssimo surgiu em meados de 2012 com o propósito de implantar em Sergipe uma proposta diferenciada de composição e interpretação desse gênero tão importante para a história da música urbana brasileira. De fato, naquele momento em que Ricardo Vieira, idealizador do grupo, deu os primeiros passos para formação do Brasileiríssimo, o cenário local estava restrito a praticamente dois pontos de encontros semanais mantidos por guerreiros que bravamente mantiveram viva a tradição da roda de choro.

Porém, havia uma lacuna enorme no que se refere à existência de grupos estáveis no quesito formação instrumental, composições de peças originais e arranjos para as pérolas dos mestres do Choro. Estas constatações constituíram o estímulo maior para concepção dos ideais do Brasileiríssimo. A partir de então, o Brasileiríssimo, ao sabor de muito trabalho, passou a desenvolver uma série de subprojetos que abrangiam, por exemplo, o retorno do Choro ao vivo na rádio, através de apresentações semanais no programa Choros e Canções da Aperipê FM, o ineditismo do Choro e Orquestra Sinfônica através de concerto popular com a ORSE, temporadas no Café da Gente, inaugurando mais um point de Choro local, participação nos principais festivais e circuitos musicais do Estado, dentre outros.

Diante disso, se não pudermos afirmar que o Brasileiríssimo foi o personagem de um "movimento" no sentido mais amplo desse verbete, podemos, sem dúvida, afirmar que o Brasileiríssimo promoveu uma "sacudida" no cenário local, inaugurando um período em que o Choro passa a ser alocado em seu merecido status de música em plena evolução e, de fato, para todos.

JD - O choro é uma variação muito sofisticada dentro do segmento da música popular. Isso dificulta o relacionamento com o público, de alguma maneira? Choro é música para aficionados? Aliás, falando em público, eu percebi um público bem diverso, nas oportunidades em que conferi uma apresentação do Brasileiríssimo...

Ricardo Vieira - "Variação" é uma palavra-chave para o Choro. Esse gênero musical surgiu no final do século dezoito como uma forma de tocar aquela gama de gêneros e ritmos chegados da Europa e África, tais como o lundu, o maxixe e a polca. Essa forma brasileira de tocar propiciou o surgimento da música urbana brasileira, trazendo também uma sofisticação técnica e o improviso, constante nas interpretações das obras.
Eu penso que esta "sofisticação" não influencia negativamente a relação com o público, muito pelo contrário.

Desde sempre, o Choro impressiona os ouvintes justamente por uma riqueza harmônico-melódica característica do gênero. Infelizmente, em nossos dias, convivemos com a lamentável realidade cultural em que grande parte da população sequer ouviu falar sobre o gênero Choro, como consequência de um sistema já demasiadamente conhecido em que impera a imposição sobre a população de gêneros musicais diretamente relacionados a questões puramente comerciais e de movimentação de massas. Isso sim constitui o fator que dificulta o relacionamento de qualquer tentativa cultural autêntica como o Choro ou qualquer outra iniciativa cultural com o público. Como ter afinidade por algo que não tenho acesso? Essa pergunta é facilmente respondida ao analisar as temporadas do Grupo Brasileiríssimo no Café da Gente. A parceria do Brasileiríssimo com o estabelecimento na pessoa de Adriana Hagenbeck foi livre de grandes pretensões. Porém, ficamos impressionados desde o primeiro show. A gente não imaginava aquele público lotando o espaço, da criança ao idoso. E realmente, tem sido assim na grande maioria das vezes, e é motivo de grande alegria para todos envolvidos no projeto do Brasileiríssimo.

JD - Outro dado interessante, captado nas apresentações do grupo, é a pretensão autoral de alguns membros. Muita gente encara o choro como uma expressão musical estanque, parada no tempo. A existência do Brasileiríssimo, entrtanto, contraria essa impressão. Há planos para o lançamento do repertório autoral do grupo?

Ricardo Vieira - É verdade. O Brasileiríssimo vem retificar esta impressão. Atualmente temos um repertório autoral e original composto para formação do grupo. Além disso, temos inovado com o resgate do choro cantado. De um modo geral, o Brasil vive um momento singular constituído por uma grande safra de compositores do gênero, tais como Hamilton de Holanda, Danilo Brito, Yamandu Costa, Alessandro Penezzi, Zé Paulo Becker dentre outros, que têm mostrado ao mundo o quão rico é o Choro.
Estamos trabalhando para realizar esse lançamento. O primeiro semestre de 2014 foi dedicado à composição e arranjos para o primeiro CD do grupo. Atualmente estamos gravando as obras com pretensão de lançamento ainda este ano.

JD - A temporada realizada no Museu da Gente deu uma visibilidade muito boa para o Grupo. Como anda o relacionamento com os espaços? A reiterada reclamação por palco, uma constante na cena, ainda faz sentido, a essa altura do campeonato?

Maiume Vieira - Podemos dizer que a parceria entre o Brasileiríssimo e o Café da Gente foi o grande marco para o lançamento do grupo e para o estabelecimento de um novo point de choro. Além da beleza do local, a gastronomia é diferenciada e tudo isso ao som da autêntica música urbana brasileira é, de fato, indescritível. Estamos inaugurando com um show dia 11 Julho a pré-temporada do grupo no Café da Gente, que será realizada em Agosto, sempre às sextas feiras. Esta temporada marca o retorno do Brasileiríssimo após o período dedicado produção do CD.

Ricardo Vieira - Com relação à ocupação dos espaços, temos uma concepção diferente da impressão corrente. Claro que tudo parece ser mais dificultado pela falta de estímulo, principalmente dos órgãos públicos de cultura, da mídia e de todo sistema como citado anteriormente. Porém, talvez devido a tamanha dedicação do grupo ao projeto, temos adentrado em todos os espaços pleiteados até o momento, sempre com a seriedade da proposta e alegria e nostalgia que só o Choro pode oferecer.

Brasileiríssimo na Domingueira da Intera (Rua Riachuelo, 970):
Domingo, 06, a partir das 15 horas