Um homem morreu de causas naturais

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O homem por traz do Cine Cult
O homem por traz do Cine Cult

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Publicada em 16/07/2014 às 00:22:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Eu tenho um saco cheio de histórias pra contar sobre Roberto Nunes. A maioria não fala bem do personagem. Roberto era capaz de acordar um amigo com os punhos na porta do apartamento em plena madrugada. A mulher o havia expulsado de casa mais uma vez. Mulher desalmada. Numa segunda-feira. Nesse ritmo, eu acabaria sem teto também.

Não me arrependo de ter mandado Roberto tomar no cu, pagar a conta e sair sem olhar pra traz. Foi ele, no entanto, quem me apresentou à cidade de meus pecados e minha vida inteira. O bicho tinha faro. Macaxeira com carne na rodoviária velha; leitão à pururuca, com direito a baralho, jogo de truco e cachaça pingada de um barril de madeira depois de o restaurante fechar as portas, na Atalaia. Posso dormir o resto de meus dias e não vou recuperar as noites que perdi e ganhei ouvindo Roberto reclamar da vida e dos homens num trailer enferrujado, ao lado da catedral.

Roberto era um cara passional. Só assim pra aturar a relação complicada, pontuada por tantos conflitos de interesses, que o homem por traz do Cine Cult mantinha com o Cinemark. Só assim pra amargar os prejuízos recorrentes da Sessão Notívagos. Era investimento na marca da produtora, mas parecia filantropia. Ele ficava devendo a Deus e o mundo (a mim, sempre pagou direitinho), mas botava as caras e fazia.
Morreu como vivia: Cabeça dura.
Dizem que os amigos de verdade nunca vão embora. Eu levantei da mesa e não me arrependi. Nunca mais bebemos juntos. Tinha de ser assim.

Uma nota muito triste - O paulista Roberto Nunes, 47, idealizador e programador do projeto Cine Cult, morreu na madrugada desta terça-feira no Hospital Walfredo Gurgel, em Natal, devido a complicações de saúde. Roberto era hipertenso e diabético.