A baianidade de Silas na Che Petiscaria

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Balanço até dizer chega
Balanço até dizer chega

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Publicada em 17/07/2014 às 00:56:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O bom filho à casa torna. Esta semana, o cantor e compositor Silas Giron volta à cidade onde cresceu e debulhou os primeiros acordes para uma apresentação na Che Petiscaria. Vale muito a pena. A música de Silas é uma síntese de anos de pesquisa e criação em canção popular, com ênfase em diversas linguagens de matriz africana e nítida influência do universo percussivo baiano. Tem balanço até dizer chega.

O show propõe um passeio pelo mundo por meio de canções belas e vigorosas. Várias línguas, um sotaque, muitas surpresas. O artista carrega a influência de um bocado de gigantes. Gilberto Gil, Bob Marley, Chico Buarque, Stevie Wonder, Beatles. Como se não bastasse, o show também traz referências inusitadas e interessantes como a cantora nigeriana-alemã Nneka e o congolês Lokua Kanza. No palco, as participações especiais do seu irmão, o cantor Paulo Giron, e o amigo João Ventura.

Não é a primeira vez que Silas se apresenta na terrinha. Em outra oportunidade, eu redigi uma crônica e resvalei na pieguice para lembrar que o mundo é grande e que o magrelo faria bem abraçando a circunferência redonda, cheia de ondas, da própria música. Um tiro certeiro.

Mundo grande - Deus me fez um cara fraco. Quem me encontra nas bodegas, uma barriga grande como o mundo, não adivinha o menino magro, quase sem recheio, no qual eu me reconhecia há uns pares de anos. Pele e osso como eu, só meu amigo Silas, tão franzino que a gente não sabia como seus ombros suportavam o peso daquele sonho.  Ele alisava as cordas do violão, arrancando gemidos, e jurava que um dia viveria de música. Ninguém duvidava, mas parecia tudo tão distante...

A semana passada, Silas visitou Aracaju. Graduado em História e Salvador, seu sonho feliz de cidade, o magrelo voltou pra terrinha doido pra se mostrar. Foi por intermédio vaidoso deste escriba que Silas conversou com Paulo Lobo e agendou um show no espaço privilegiado do Viva Ará Café. Ele ainda não sabe, mas encontrá-lo no meio da tarde, experimentando um instrumento fabricado por Nino Karvan enquanto acertava os detalhes de uma apresentação, me ajudou a aquietar um rebanho de angústias. Naquela hora eu percebi que nossas aspirações se justificam quando adquirem a medida exata da vocação que as inspiram.

Sempre guardei certo pendor para a palavra escrita. Quando leio o primeiro parágrafo de Moby Dick, no entanto, me pergunto, assombrado, como a combinação de algumas palavras pode produzir tamanha magia. O mesmo espanto está guardado na melodia de "Sílaba muda", uma das seis faixas presentes no EP "Em transe", primeiro trabalho de Silas Giron, gravado após a conquista do IV Festival Universitário de Música da Bahia (Unifest). Se expressando sempre na condicional, Silas realiza uma verdadeira declaração de amor, comovente e contida, como quase tudo que podia ser.

Para alimentar a minha prosa insossa, só tenho os acidentes escondidos entre a minha casa e a redação do Jornal do Dia. Silas, ao contrário, procurou a Praia do Buracão, o carnaval da Bahia, correndo desembestado como um bruguelo no meio da feira. Ao que parece, contudo, ainda não se deu por satisfeito. Durante nossa conversa, ele deixou transparecer um desejo de cair ainda mais pro sul, até encontrar o centro cultural do país, como os doces bárbaros que sempre fizeram a sua cabeça. Quem ouve seu disco com um pouco de atenção não tem nenhuma dúvida. O mundo é grande e o rapaz faria bem.

Silas Giron no Che:
Sábado, 19 de julho, às 21 horas