Um convite à morte

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Publicada em 18/07/2014 às 01:09:00

* Jossimário de Souza Mick

Ao me deparar diante de tantas murmúrias e reflexões nesses últimos dias sobre nossa existência, sobre o sentido da vida e, principalmente, sobre a morte, estancadas nas redes sociais e nos diferentes veículos de comunicação, devido ao falecimento de líderes políticos, artistas  de nomeada nessas últimas semanas,  surgiu a ideia de tratar de forma mais racional sobre esse "mal" que atormenta a humanidade desde sua existência.

A morte é, sem dúvida, a musa inspiradora da filosofia e da religião. A Filosofia era entendida  por Platão como "preparação para a morte". Textos anteriores de Parmênides e Heráclito já tratam da questão do nascer e perecer. Inúmeros são os filósofos a  tratar do tema e até Freud escreveu sobre a pulsão de morte [extremamente importante para a Psicanálise], tratando de como termos a certeza da morte nos influencia inconscientemente muito mais do que costumamos imaginar.

Mas em que consiste a morte? A morte nada mais é que a aniquilação permanente da consciência. Assim, como afirmou Arthur Schopenhauer [ de quem me aporto para escrever essas linhas] em seu tratado - Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si - "se o sono é irmão da morte, o desmaio é seu irmão gêmeo", pois é durante o sono que nossa consciência de existência está ausente.
Alguns afirmam temer a morte pela dor que ela pode causar. Essa afirmação em nada é verdade. Não podemos dizer temê-la por conta da dor sofrida no momento em que  vem. Quantas vezes nos ferimos ou até nos cortamos e nos damos conta da dor momentos depois? Bem assim é a dor na morte: quando ela chegar, a consciência já está aniquilada e assim não se é possível senti-la.

O temor da morte é o tormento mais profundo e antigo que o ser humano tem. Não a desejamos nem ao pior de nossos inimigos. Ela é a única verdade que se tem da vida. O animal não sabe da existência da morte, mas qualquer ato que ameace a sua sobrevivência o faz fugir. Imagine um simples mosquito: não tem consciência de que a morte existe, basta levantarmos a mão para que voe longe daquela ameaça de morte. É dentro dessa análise que nos cabe afirmar que o medo da morte não provém da razão. A vontade de viver corre "as veias" de todo ser vivente. Por mais doente e debilitado que esteja alguém, ainda assim quer continuar a viver.  O pego à vida em qualquer caso, é inclusive insensato, como Sócrates já demonstrara na Apologia de Platão [se antes da vida havia o não ser, e se voltássemos a isso após ela, qual seria o problema?]. Mas a vontade de vida é  "cega e desprovida de conhecimento", instintiva como nos animais desprovidos de raciocínio.

É justamente essa vontade de viver, que fez a religião criar "antídotos" contra a certeza da morte. Imaginemos todo sacrifício por que passamos para estudar, trabalhar, constituir uma família, um vasto patrimônio e ter que deixar tudo isso ao morrer. É mesmo doloroso ou no mínimo desmotivador. É melhor vivermos acreditando que após a morte da matéria gozaremos eternamente num lugar onde tudo será de graça, onde haverá justiça, a viver sem nenhuma esperança. É mais consolador.

Determinado dia estava eu em uma festa na qual havia uma multidão. Comecei a obser-   var as pessoas. Parei num canto e chamei um amigo, a quem disse: "olhe bem para todas essas pessoas! Em cem anos, ou pouco mais, nenhuma delas mais existirá". O olhar dele transpareceu que eu estava a falar o óbvio, mas nessa reflexão há algo mais profundo: o ser humano se vê como eterno. E, em se vendo como eterno, a morte o atormenta pelo fato de que em um dado momento não será mais. Assim, o temor da morte pelo fato de não sermos mais, não deve ser maior que o de não termos sido. Porque houve uma infinidade de tempo se passou sem que não éramos e, após uma existência efêmera, outra infinidade de tempo se passará em que não seremos mais. Desse modo, o não ser vindouro não deve ser mais lamentado que o não ser passado.

É de bom alvitre ressaltar aqui duas visões antagônicas sobre a morte . De um lado a cosmogonia budista (e bramanista) e  de outro, religiões como o cristianismo. Para os primeiros, o homem é o próprio ser originário, cuja essência não tem nascer nem perecer [semelhante à ideia da physis, já presente nos textos de Parmênides e Heráclito, onde nascer e morrer seriam apenas ilusões para quem não vê o todo]. Já para os cristãos, o homem teria vindo do nada e só passaria a existir com o nascer. A implicação disso é que a ideia de morte é muito mais natural, menos preocupante, para o budista, enquanto os cristãos vivem no absurdo limite entre a aniquilação total antes do nascer e a imortalidade da alma após a morte.

As consciências se acabam junto com as vidas individuais e a essência, ou a espécie, é que sempre permanece. Se uma mosca dorme e no dia seguinte volta a zumbir, ou se morre e no dia seguinte outra mosca nascida do seu ovo vem zumbir - é a mesma coisa para o Schopenhauer [é nisso que consiste a indestrutibilidade de nosso ser em si]. Assim como os dias se acabam e voltam a nascer, as estações do ano sucumbem e florescem, "tudo existe sempre no seu lugar e na sua ocasião." Podemos perceber aqui o conceito do trágico, também muito utilizado por Nietzsche e uma possível inspiração para o seu "eterno retorno": "Disso que existimos agora, segue-se, pensando bem, que devemos ser em todos os tempos".

Assim, finalizo esse convite à morte, refletindo sobre algumas considerações feitas por Athur Schopenhauer: o egoísmo do homem o faz limitar toda a realidade à própria pessoa. E a morte seria o desvelar desses véus de ilusão (os véus de Ísis), mostrando que o homem é parte do todo, e o todo é também o homem. Isso eliminaria a diferença entre externo e interno [o que Freud muito mais tarde diria que acontece com todas as crianças, que ao crescerem vão mudando de percepção e passam a se sentir individuais, separadas do mundo que as cerca]. O homem que consegue manter esta percepção de parte do todo, pode transformar seu egoísmo em altruísmo (compaixão) e estará muito mais bem preparado para a morte.

* Jossimário de Souza Mick é professor de Língua Portuguesa e Pós-Graduando em Didática, Docência e Tutoria no Ensino Superior.
e-mail: jossimariomick@bol.com.br