Tupi - Guarani e guerra

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Publicada em 30/07/2014 às 00:13:00

*Ary Moreira Lisboa

Lendo a Coluna de João Carlos, de 13 último, ocorreu-me discorrer sobre dois termos por ele usados: Guerra e o Tupi-Guarani como idioma nacional em substituição ao português. A ideia foi de Lima Barreto que chegou a apresentar um esboço, estudo, tratado, ou outro termo que se queira dar, ao segundo Presidente da Republica, Mal. Floriano Peixoto. O Mal. "cavaleiro" não se interessou. Como outro Presidente, também Marechal, tempos depois, sentia melhor o cheiro de cavalos do que as idiossincrasias idiomáticas. Quanto ao sentido mencionado pela "Guerra" do esporte, que finalmente chegou ao fim, embora melancolicamente e bastante presumível, pois para quem teve uma Seleção com Zito e Didi, Gerson, Clodoaldo, Rivelino, Sócrates e Falcão, jamais poderia acreditar, e muito menos depender de Luiz Gustavo, Fernandinho, Ramires, Paulinho e Willian. Seria acreditar em milagres, estes inexistentes. Ao final de um mês de paixões, tristezas, alegrias e cavalheirismo, aqui vai uma história na qual esses ingredientes se misturaram no pior dos cenários: o da guerra. Os alemães foram muito bem recebidos, recepcionados, paparicados no local onde Cabral chegou. Ficaram encantados com a paisagem e com a efusividade dos nativos. Os recompensaram com um polpudo cheque e muitas palavras de carinhos e agradecimentos. Sem levar em conta autógrafos e fotos.  Tal fato, alheado ao mencionado por João Carlos, serve para demonstrar o comportamento dos alemães, mesmo em período de guerra. O fato que a seguir passo a transcrever, é verdadeiro e se encontra inserido no Livro "A Higher Call", de Adam Makos, ainda sem título, em breve será filmado. Diz o autor: "Em março de 1946, um ano depois da derrota da Alemanha, Franz Stigler estava em busca de trabalho quando foi reconhecido pela boa qualidade de suas botas. Eram as botas dos pilotos da Luftwaffe, aqueles que, segundo a propaganda do governo, salvariam a Alemanha da derrota. Dos 28 mil pilotos do Reich, haviam sobrado só 1.200, mas ele foi reconhecido e insultado pelos compatriotas. Esse pedaço da vida mostrou-lhe que as botas da glória haviam-se transformado em marca de opróbrio. Franz não era um homem qualquer, mas, em 1946, ninguém haveria de se lembrar dele. Salvo Charlie Brown.

Três anos antes, Franz pilotava um caça Bf-109, protegendo o norte da Alemanha, quando alcançou um B-17 de uma esquadrilha que bombardeara a região de Bremen. O avião americano estava em pandarecos. Ele podia ver tripulantes feridos e rombos na fuselagem. Tirou o dedo do gatilho e emparelhou seu caça com o bombardeiro. Aquele avião não podia estar voando. Charlie Brown, o piloto do B-17, esperava apenas pelos últimos tiros. Viu o piloto alemão movendo a cabeça num incompreensível sinal afirmativo e achou que estivesse sonhando. Franz escoltou o B-17 durante dez minutos. Quando ele se aproximou da costa da Inglaterra, balançou as asas e voltou para a base alemã: 'Não se atira em paraquedista'. O avião estava fora de combate. Eu não carregaria isso na consciência". Charlie contou aos seus superiores o que lhe acontecera, mas mandaram-no ficar calado, pois propagaria um episódio capaz de comover os colegas com a ideia de que havia alemães civilizados. Franz sobreviveu à guerra, mudou-se para o Canadá e só contou sua história em 1985. Não sabia o que acontecera ao B-17. De 12 mil bombardeiros, 5.000 haviam sido destruídos em combate. Na outra ponta, Charlie Brown, que vivia na Flórida, sonhava em encontrar aquele alemão. Escreveu uma carta para uma revista, descrevendo o estado de seu avião, com o cuidado de omitir um importante detalhe. Em 1990 os dois encontraram-se. Franz tinha 75 anos, e Charlie, 68. O alemão lembrou-lhe que o B-17 estava com o estabilizador destruído. Era o detalhe omitido. Pouco depois, todos os sobreviventes do B-17 reuniram-se, levando suas famílias. Eram 25 homens e crianças que deviam a vida a um homem que não apertou o gatilho. Franz morreu em março de 2008. Charlie, em novembro". Pois é, como bem lembrou João Carlos, o placar poderia ser de 21 tentos, porém a magnanimidade dos germânicos ficou arrefecida ante a fragilidade da esquadra brasileira que se encontrava fragilizada, "fora de combate com a fuselagem (meio de campo sem Zito e Didi e os demais acima mencionados) esfacelada, não mereceria o aperto do gatilho". Li em a A Tarde, a lembrança de uma carta de um leitor, comparando o resultado do jogo que poderia ser maior: 102 a ZERO. Sendo que acima da centena é o número de Prêmios Nobel deles sobre o ZERO do Brasil. E pensar que o Brasil nunca foi dividido em dois países, nem jamais enfrentou a fúria de todas as nações para infringir-lhe derrota. Bastou uma apenas, para demonstrar sua fragilidade e arrogância. "Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez". Jean Cocteau.  

*Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor.