3ª Bienal da Bahia promove intervenções artísticas na Feira de São Joaquim

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Publicada em 01/08/2014 às 00:00:00

A Feira de São Joaquim, uma das maiores feiras livres do Nordeste brasileiro, será o centro de intervenções artísticas de participantes da 3ª Bienal da Bahia a partir do dia 4 de agosto. O objetivo é possibilitar novos olhares sobre a feira, evidenciando o seu rico acervo cultural e humano e flagrando momentos de seu cotidiano único. A proposta entra em sintonia com a própria questão formulada pela Bienal da Bahia: É Tudo Nordeste? As intervenções, sintetizadas no projeto Feira Arte Livre (F.A.L.), ocorrerão no espaço da feira, localizada no bairro da Cidade Baixa, até o dia 12 de agosto, com a presença de artistas brasileiros e estrangeiros.

Uma das integrantes da F.A. L. é a artista francesa Sylvie Blocher, que realizará na Feira de São Joaquim um trabalho dentro do âmbito de seu Histórias Urbanas, projeto iniciado em 2003, reunindo vídeos em forma de caderno de viagem que se utiliza de formas híbridas, mesclando instantâneos registrados no cotidiano urbano e ações performáticas improvisadas com as pessoas que ela encontra na rua. Seus vídeos serão produzidos durante sua estadia na Bahia e apresentados diariamente no box da F.A.L. em São Joaquim.

Já o projeto Feira do Rolo, do artista baiano Maxim Malhado, inspira-se em um movimento que acontece na Feira Livre de Alagoinhas, município situado a 120km de Salvador e sua cidade natal. Nesta feira, uma vez por semana, a população local leva seus objetos de apreço, bem como aqueles que não lhes tem mais utilidade, para trocarem por outros. Esta prática estabelece um retorno ao passado da economia humana, onde a única moeda era a troca, a permuta, em que o excedente da produção era trocado por outros excedentes. O projeto propõe que os artistas integrantes do projeto F.A.L. se desloquem para São Joaquim e proponham trocas de objetos materiais (objetos de apreço, obras de arte, inúteis, etc.) e imateriais (performances, experiências, textos, poemas, etc.), criando um espaço outro, inusitado e performativo, numa área de escambo.

O terceiro componente do projeto em São Joaquim será o lançamento do Manifesto da Árvore, proposta especialmente concebida para a 3ª Bienal da Bahia pela Academia da Árvore, o primeiro departamento do Museu do Invisível, criado por Pascal Pique, com o lançamento do livro Sociomytho-logies de l'arbre (Sociomito-logias da árvore), de Pierre Capelle e Michel Boccara, final de 2013, no Palais de Tokyo em Paris, França. A Academia da Árvore é voltada a artistas contemporâneos, sensíveis às diversas dimensões perceptivas e visionárias que podem entrar em jogo ao contato com as árvores, e que eles traduzem em suas obras.

A Academia propõe envolver o Manifesto da Árvore na base do encontro de dois dendrológos (estudiosos das árvores): Pierre Capelle, do Vale do Lot, na França, e Benki Piyako, porta-voz do povo Ashaninkado do Estado do Acre, Amazônia brasileira. Ambos são guardiães e transmissores de uma consciência particular da natureza e da preservação fundada em suas respectivas culturas do Invisível. Foi lhes proposto um encontro para troca de saberes e práticas sobre suas culturas e, juntos, fazerem uma declaração que acompanhe o Manifesto da Árvore, que será apresentado por ocasião de um seminário na sexta-feira, 8 de agosto.

Pierre Capelle é curandeiro no Vale do Lot, no sudoeste da França. Iniciou sua formação como artesão de construções, e acompanha há mais de vinte anos alguns de seus pacientes na prática de Despertar à árvore, que é uma forma de meditação em contato com os vegetais. Estas sessões são parte de um estudo documentado realizado com o CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França).
Também participa do Manifesto da Árvore a artista franco-gabonense Myriam Mihindou. Tendo já trabalhado com algumas culturas do Invisível e seus rituais (especialmente dos bwitti no Gabão), e realizado performances de dimensão profilática, Mihindou foi incumbida de conceber um projeto específico para o lançamento do Manifesto da Árvore, acompanhando de perto as sessões de Despertar à Arvore, conduzidas por Pierre Capelle.

Autenticidade - Os participantes da F. A. L. acreditam que uma feira pública, como a de São Joaquim, é um local ideal como ponto de encontro de experimentação entre o cotidiano e os olhares artísticos. Acham que, melhor que qualquer outra, a Feira de São Joaquim soube preservar sua autenticidade até os dias de hoje e oferece ao público diferentes tipos de artesanato, tendo os boxes dedicados às festividades do Candomblé como uma de suas expressões fundamentais.
As intervenções artísticas que acontecerão de 04 a 12 de agosto de 2014 constituem a introdução e uma primeira parte do projeto da F.A.L São Joaquim, que terá continuidade em 2015, em colaboração com o Museu de Arte Moderna da Bahia.