Alforje de caçador

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Publicada em 08/08/2014 às 00:44:00

* Rangel Alves da Costa

Para os que ainda não sabem ou conhecem, alforje é um saco de couro, fechado nas extremidades e aberto no meio, formando como que dois bornais, que se enchem equilibradamente, sendo a carga transportada no lombo dos animais ou sobre os ombros de uma pessoa. Por sua vez, bornal ou embornal é uma bolsa de couro onde o sertanejo carrega, por exemplo, seu canivete, sua pinga, seu fumo, sua farinha com carne e rapadura.

Lampião e seus cabras quando cruzavam os sertões nas suas empreitadas sem fim, ao lado de outros apetrechos de paz e de guerra carregavam seus embornais cheios de anéis de ouro, dinheiro, balas prateadas e todos os tipos de recordações de uma vida de sangue e aperreação. De couro cru ou tecido lonado trabalhado, forte o suficiente para suportar as durezas da luta, ainda assim sempre enfeitados artesanalmente.

Não só no mundo cangaceiro, mas também no sertanejo, a bolsa matuta de viagem e guarnecimento era de necessário acompanhamento. Sem o alforje, sem o embornal, ninguém era ninguém, a vida era nada. O baú da memória cangaceira estava ali pendendo pelo corpo, descendo pelos ombros, no couro cru, envernizando de suor, cheirando a sertão. Dentro dele também guardada a história sertaneja, a saga dos grandes caçadores, vaqueiros e os demais homens do sol.

Como dito, o alforje de couro cru quando já envernizado de sol e envelhecido da luta chega a cheirar a sertão. E qual o cheiro de sertão, alguém poderia perguntar. O sertão cheira a suor, a bafo quente de terra molhada, a coivara e queimada, a sol esturricando gente e bicho, a mormaço e insolação, a carniça de gado morto na pastagem nua, a café torrado e pisado no pilão, a cuscuz de milho ralado em casa, a beiju, a tapioca, a buchada, a flor no jardim da esperança, a perfume de alfazema nas mocinhas bonitas que alegram as tardes ao deus dará. Sertão cheira a tudo isso, e mais a cheiro de água. Água cheira a nada, e esse também é o cheiro do sertão.

Para se caminhar por esse sertão que cheira a tudo e a nada, o homem precisa ser destemido e valente. Ora, meu Deus, se tudo que se abeira, se adentra, se coloca e existe no sertão é grandioso, perigoso e verdadeiro demais aos olhos, não haveria de ser um fraco que quisesse andar pelos seus caminhos de pedras, suas veredas de tocaias, seus labirintos de assombrações, seus habitantes medonhos e ameaçadores. Tem cobra seu moço, tem urtiga e cansanção, tem espinho de quipá por todo lugar, tem bicho malvado homem por trás da moita, nas sombras do tufo de mato.

Contudo, verdade que nem todo sertanejo criado comendo barro da tapera, caminhando pelas veredas espinhentas, ladeando as catingueiras e tomando banho de sol dia e noite, sabe e conhece os caminhos do sertão. Hoje até que está muito fácil caminhar pelas suas distâncias, vez que não há mais nada a desbravar, não existe mais mata fechada, as onças sumiram e os perigos são outros. Mas quando a mataria era cerrada, sem caminho certo pra se andar, com trilhas de cortar solado e as venenosas escondidas em cada moita e embaixo de cada pedra, tinha que ter o que fazer pra se entrar nesse mundo.

Mas varar pelas veredas sertanejas sempre foi preciso. A vida se faz caminhando, seu moço. Quem quiser matar a fome dos meninos tem que ir atrás do mocó e do preá, da nambu e da rolinha, do punhado de milho e de feijão, da abóbora leiteira e da melancia bonita que ficaram escondidas embaixo das ramagens pra ninguém levar escondido. Mas ninguém vai sem nada pelo corpo não, que ninguém é besta. Não há que se dar um passo sem o alforje de caçador sendo carregado, como se fosse braço, como se fosse pé.
Caçador que vai pra sua empreitada sem o alforje corre até risco de vida. E assim porque dentro dele deve haver um bom pedaço de fumo ou a uma grande porção dele já picadinho para ser entregue aos fumantes das matas. Sim, seu moço, pois caçador metido a valente que não leva a oferenda para os seres encantados, como o curupira e a caipora, corre sério risco de tomar uma surra de ficar moído no chão. E o pior que desperta da coça sem saber onde está nem qual caminho tomar para retornar. Assim já aconteceu muitas vezes e continua acontecendo.

Um dia encontraram um alforje esquecido pendurado num pé de catingueira, longe, bem longe. Depois de tantas noites de sereno e dias de sol, o couro parecia encardido, com uma cor diferente, querendo enrugar. Como um caçador poderia esquecer seu alforje, meu Deus, se perguntou um menino que havia ido caçar passarinho por aquelas distâncias. Certificando-se que há mais de mês o alforje tinha sido esquecido ali, o pequeno sertanejo desceu o alforje e abriu com cuidado.
Revirou todinho, balançou, sacudiu de cabeça pra baixo e só caiu um bilhete: Quem encontrar esse alforje entregue a Maria de Ernestino. Ela tá grávida e como vou ter vergonha de não poder tirar mais nada desse sertão pra dar ao meu filho, que ao menos ela fique com essa lembrança. Não sei aonde a estrada do destino vai me levar. Só sei que parto entristecido pelo meio do mundo.

* Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
blograngel-sertao.blogspot.com