Tragédia nordestina

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Publicada em 15/08/2014 às 00:45:00

* Rangel Alves da Costa

Os tambores nordestinos ecoaram entristecidos, as cantigas se transformaram em lamentos, o povo surpreendido e amargurado saiu às ruas para olhar os horizontes e buscar nos céus quaisquer respostas para a notícia espalhada como tragédia. E logo confirmada. Nesta quarta-feira, 13 de agosto, ainda pela manhã, um avião levando seu filho ilustre e assessores caiu num condomínio em Santos e todos acabaram vitimados no terrível desastre. A tragédia se confirmava: Eduardo Campos estava entre os mortos.

Uma tristeza indescritível. Por mais que a morte seja destino e fadário de todos, não há como negar a dor redobrada diante das circunstâncias que ela chega. Particularmente dolorosa quando consequência de acidente, mas ainda mais aterradora quando ocorrida num desastre aéreo, em via urbana, e ceifando a vida de sete pessoas ainda jovens, e com relevância maior para a morte de um político renomado e candidato à presidência da República. Pernambuco, berço familiar e político, certamente ainda sente dificuldade para acreditar no que realmente ocorreu com seu filho.  

É tristeza após tristeza, luto após luto. O povo nordestino ainda pranteia a partida de Ariano Suassuna, expoente maior de suas raízes e tradições, falecido em 23 de julho passado, e poucos dias depois novamente se vê levando lenços aos olhos transbordantes de entristecimentos. Um pranto angustiante, uma profunda aflição, tudo com a feição de um luto que melancolicamente se prolonga. Em pouco tempo e um povo se vendo órfão do seu guardião cultural e daquele cujas raízes políticas tanto enriqueceram o estado pernambucano e que despontava como esperançosa promessa na política nacional.

E que grande promessa da política nacional era Eduardo Campos, daí também a consternação de toda a nação brasileira, desde os viventes sulistas aos caboclos das distâncias nordestinas. Mesmo não sendo seus eleitores ou defendendo outras bandeiras partidárias, inegavelmente que o jovem candidato era respeito e admirado por todos. E com virtudes difíceis de ser encontradas em meio aos vícios e mazelas da política brasileira: não agia por conveniência, não se dobrava às benesses oferecidas, não temia ser afrontado por aqueles que se sentiam feridos por não ter seu apoio, eis que sempre agia com a mesma coerência herdada de seu avô.

Sim, do seu avô a herança do homem e do político. E agora tudo ocorrido na mais triste coincidência. No dia 13 de agosto de 2005, vitimado por um choque séptico causado por infecção respiratória, falecia no Recife, aos 88 anos, um dos maiores expoentes da esquerda brasileira, o ex-deputado e governador Miguel Arraes. E nove anos depois, na mesma data, o Brasil e o Nordeste perderam o neto do grande líder, também alçado ao patamar das grandes lideranças, o ex-deputado, ministro e governador Eduardo Campos. E um dos concorrentes mais fortes ao posto maior da nação.

Sua biografia, trajetória e percurso já eram bem conhecidos dos pernambucanos, e aos poucos o país inteiro ia tomando conhecimento de sua caminhada vitoriosa, sua conduta pessoal e política, de seus projetos para um Brasil melhor. Mas faleceu antes mesmo que pudesse expor suas ideias com mais precisão nos programas eleitorais no rádio e na televisão. E certamente muito tinha a dizer ao povo brasileiro, e não só pautando sua experiência legislativa, ministerial e executiva, como também a partir daquilo que via como respostas possíveis aos problemas brasileiros. E demonstrando sua capacidade de efetivamente realizar, como já comprovado nas funções públicas exercidas.

Incabível aqui o delineamento de toda a sua trajetória, bastando apenas relembrar que foi militante político e presidente do diretório acadêmico quando estudante de Economia da UFPE, chefe de gabinete de seu avô Miguel Arraes, sendo eleito deputado estadual em 1990, pelo PSB. Daí em diante foi acumulando vitórias e reconhecimentos, sendo eleito e reeleito deputado federal, tornando-se articulador político do governo federal e depois ministro da Ciência e Tecnologia. Foi eleito em 2006 para o governo de Pernambuco e reeleito em 2010. Era líder maior do PSB nacional. E por esta sigla se lançara candidato a presidente.

Sergipe também chora e lamenta o ocorrido, e duplamente, eis que um filho da terra também acabou vitimado pela tragédia. Pedro Almeida Valadares Neto, o Pedrinho Valadares como mais conhecido, assessorava politicamente Eduardo Campos e com este estava no trágico voo. Aos 48 anos, advogado, político, ex-deputado federal por três legislaturas, possuía filiação numa das mais tradicionais famílias sergipanas e simão-dienses, a Valadares, de tantos e renomados políticos.

Por todo e tudo, o dia 13 de agosto de 2014 será de difícil esquecimento para a nação brasileira. O povo, seja qual for a bandeira partidária, naturalidade ou classe social, continua enlutado com o acontecido. A maioria sequer deseja falar sobre as consequências políticas com a morte do candidato, os novos rumos das campanhas ou acerca de quem será indicado em seu lugar. Não vê a morte senão como uma tragédia que abriu profunda fenda no sentimento. E por isso, muito mais que o político, chora o homem sensato, sereno e coerente que se foi. E também dolorosamente pranteia todos aqueles que alçaram os espaços num voo muito diferente daquele que não chegou.

* Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
blograngel-sertao.blogspot.com