A infância de muita gente

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Coragem, fé, espiritualidade e auto-estima
Coragem, fé, espiritualidade e auto-estima

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Publicada em 16/08/2014 às 00:34:00

* Anderson Bruno

Há exatas 3 décadas estreava nos cinemas "A História Sem Fim" (The NeverEnding Story, Wolfgang Petersen, EUA/ALE, 1984, 94 min). O longa-metragem foi baseado no livro de mesmo nome (Die Unendeiche Geschichte, no original alemão) lançado no ano de 1979 pelo germânico escritor Michael Ende. Trata-se de uma narrativa emoldurada numa ambientação de gênero fantástico. Várias criaturas estranhas convivem juntas no reino de "Fantasia". Vai desde um caracol de corrida, passando por um gigante de pedra falante até chegar a um fofo e abençoado cachorrão voador.

Dirigido pelo também alemão Wolfgang Petersen (diretor de 'O Barco' de 1981 e 'Tróia' de 2004) o filme é um primor no seu conceito discursivo. O roteiro escrito por Petersen junto a Herman Weigel explora o conceito de mundos paralelos e suas interligações, coragem, fé, espiritualidade e auto-estima.
Enquanto que o garoto Bastian (Barret Oliver) contempla a leitura do livro 'A História Sem Fim' no sótão de sua escola (praticamente sua única interação com um cenário durante todo o longa) a narrativa paralela ocorre em 'Fantasia', por sua vez protagonizada por Atreyu (Noah Hathaway), pequeno guerreiro incumbido de salvar o lugar do temido 'Nada' - uma força destruidora. É a reprodução metafórica da falta de esperança da humanidade. Uma potência tão negativa e poderosa que precisa ser canalizada para algum lugar. Ela simplesmente é uma força natural que destrói todo o mundo paralelo de 'Fantasia'. É a representação da nossa autodestruição espiritual. Principalmente quando nos deixamos abater pela solidão, pela tristeza e pela falta de esperança.

Num breve momento, as duas crianças se observam através de um espelho fixado no fantasioso lugar. Mais um ponto de introspecção. A mensagem deixada por ela é o ponto máximo de sua encenação. É um momento de clímax também. Os dois meninos são simplesmente a mesma pessoa. Um mais enfraquecido, o outro mais forte.

A parte da liturgia continua a dar o tom da narrativa. Atreyu carrega em seu pescoço um 'Auryn', espécie de amuleto da sorte entregue a dedo apenas a alguns privilegiados. Ele é o escolhido para brecar o tão temido 'Nada'. Mai uma vez a história se repete. Atreyu é o Messias de 'Fantasia' com a missão de salvar a coragem, a fé e a auto estima perdida em Bastian.
Logo depois da morte de sua mãe, o jovem leitor passa por uma fase de melancolia. Um perigo em se tratando de uma criança. O simbolismo infantil presente na obra não é à toa. É justamente quando somos pequenos onde mora toda a carga de bondade, inocência e pureza do ser humano. Não diferente é o fato de a terceira criança ser uma menina, a ariana Imperatriz do lugar.

Além dela possuir as referências angelicais observados na sua candura e na clara pigmentação da pele e olhos, sua figura feminina se aglutina à da falecida mãe de Bastian. Toda mãe é sinônimo de bondade por causa da maternidade e todo ser feminino possui o dom de dar a luz, de fecundar, de criar o novo. Toda mãe é pura. Qualquer semelhança com a Virgem Maria não é mera coincidência. Igual a essa menina, moradora de um castelo em forma de flor, cenografada por Johann Katt, Herbert Strabel e Götz Weidner. Mai um sinônimo de pureza.

Toda essa riqueza literária da obra de Michel Ende redendou nesse pequeno grande filme. Merecidamente (de forma até inusitada) selecionado dentre os clássicos do cinema exibidos no Cinemark.
Esqueça os efeitos especiais já envelhecidos - bem como a trilha sonora de Klaus Doldinges e Giorgio Moroder bem marcadas nos eletrônicos sintetizadores dos anos 80 - e viaje na emoção dos carismáticos personagens desse filme genial rotulado com uma pseudo alcunha infanto-juvenil.
Assino essa crítica também enquanto fã do filme analisado. Principalmente pelo fato de a produção ter embalado a infância de muita gente que hoje está na faixa dos 30, como eu.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual