Campanha aborda sexualidade feminina em consultórios médicos

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Publicada em 17/08/2014 às 00:58:00

Kátia Azevedo
katiaazevedo@jornaldodiase.com.br

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade de São Paulo (USP) lançaram uma campanha nacional para identificar os principais entraves envolvendo o tema da sexualidade feminina nos consultórios médicos.
A campanha, denominada Sinta-se, foi lançada na última quinta-feira, 14, em Brasília. De acordo com pesquisadores envolvidos na iniciativa, a ação tem como proposta motivar ginecologistas e pacientes ao diálogo franco sobre sexualidade nas consultas de rotina realizadas diariamente em todo o Brasil como forma de garantir maior qualidade de vida às mulheres.

Os pesquisadores chegaram à conclusão que a sexualidade feminina ainda continua sendo tratada como um assunto tabu nas unidades de atendimento à saúde e que a maior parte das pacientes não se sente à vontade para conversar com seus ginecologistas sobre muitos dos problemas que afetam a sua vida sexual.
De acordo com os pesquisadores que estão à frente da campanha, Ivaldo Silva, coordenador do grupo "Afrodite", da UNIFESP, e Carmita Abdo, coordenadora do grupo "ProSex", da USP, 56% das mulheres se dizem insatisfeitas com a vida sexual. Outra informação revelada pelos especialistas é que 63% das pacientes têm dificuldades de admitir o problema.
"Em 2001, uma sondagem realizada pelo grupo ProSex apontou que 56% dos ginecologistas não investigam a vida sexual de suas pacientes e 50% dos ginecologistas mostraram-se pouco seguros para responder sobre os problemas sexuais de suas pacientes", revela Carmita Abdo.
Segundo os pesquisadores, as razões do problema são muitas, como a falta de tempo, de opções de tratamento, desconhecimento e inibições, dentre outras, tanto das pacientes quanto dos ginecologistas.
"O que precisamos saber, agora, como, quando e em quais situações ginecologistas tratam as queixas sexuais de suas pacientes. É isso o que a campanha "Sinta-se!" quer avaliar", explica Ivaldo Silva.
A campanha começou com palestra sobre o tema ministrada pelos dois pesquisadores no simpósio "A evolução da neuroplasticidade e seus impactos na sexualidade feminina", durante o 47º Congresso de Ginecologia e Obstetrícia do Distrito Federal, no dia 14 de agosto, das 12h10 às 13h50, no Auditório 2 do Centro de Convenções Ulysses Guimarães em Brasília, na sequência teve início uma pesquisa voltada aos ginecologistas, que está sendo aplicada entre os participantes do evento.
Através da pesquisa, os coordenadores da campanha objetivam entender, do ponto de vista dos ginecologistas, os motivos do silêncio envolvendo o tema da sexualidade na maioria dos consultórios. Os resultados da pesquisa realizada em Brasília serão apresentados em um simpósio durante o Congresso da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo (SOGESP), que acontecerá no início de setembro, em São Paulo. As mulheres irão participar da pesquisa na segunda parte da campanha a ser realizada nos próximos meses.

Os pesquisadores afirmam que a campanha propõe motivar ginecologistas e pacientes ao diálogo franco sobre a sexualidade, estimulando a discussão da qualidade de vida sexual das mulheres e as eventuais dificuldades enfrentadas por elas para que o médico possa contribuir com tratamentos ou encaminhamentos necessários à promoção da saúde sexual das pacientes. Eles explicam que cada caso tem suas particularidades, mas que têm a convicção de que o diálogo ajuda, e muito, e é o primeiro passo para resolver o problema.
"A campanha Sinta-se foca na conscientização e no diálogo. Mas se o ginecologista entender que sua paciente precisa de medicamentos ele tem total autonomia para indicar", ressaltam.
Também de acordo com os pesquisadores, os estudos da sexualidade feminina para o tratamento das doenças possuem um fator importante no campo da saúde.  "A resposta sexual feminina é muito mais elaborada que a masculina e é importante olhar para todos os sentimentos que interferem neste processo. Os estudos sobre a sexualidade auxiliam nisso. São vários os fatores que afetam a vida sexual feminina desde fisiológicos, comportamentais até sociais. Nesse processo, estamos certos que médicos ginecologistas podem ajudar a mulher a perceber o quanto é positivo cuidar de sua saúde sexual com atenção e segurança. Ela pode encontrar em seu ginecologista todo o respaldo para zelar por esta dimensão tão importante em sua vida", observam Ivaldo Silva e Carmita Abdo.

Os coordenadores da campanha enfatizam que outra intenção da iniciativa é disseminar a discussão sobre as relações médicas e a sexualidade feminina em todo o país e que os ginecologistas presentes no lançamento da campanha serão multiplicadores da proposta em cada região do Brasil. Eles destacam que mesmo considerando as reações mais diversas das mulheres em relação à campanha, há uma convicção de que mulher quer receber ajuda, considerando que a saúde sexual é parte fundamental da qualidade de vida das mulheres. Os grupos de pesquisa Afrodite e Prosex estão realizando a campanha com o apoio da Biolab Farmacêutica.