Meu querido Cristian Góes

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Com a corda no pescoço
Com a corda no pescoço

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Publicada em 20/08/2014 às 00:43:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

"Rian, depois de meses de promessa, saiu! Ufa! Que este livro, uma história extraordinária, possa embalar os seus caminhos para que tenhamos, um dia, outro jornalismo".

A dedicatória do jornalista Cristian Góes foi rabiscada há mais de sete anos. Presente maior do que o Meu querido Vlado, sempre ao alcance das mãos, aqui na estante. Naquela altura, impossível imaginar que o mundo daria uma volta tão grande e o meu amigo enfrentaria a barra dos tribunais. Uma puta ironia. Triste.
O ministro Ricardo Lewandowski e a segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitaram recurso extraordinário contra decisão do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE) que condenou o jornalista José Cristian Góes a sete meses e 16 dias de prisão sob a acusação de escrever o que bem lhe dá na telha. O Supremo não julgou o mérito do caso, mas também não acatou o recurso. Lavou as mãos.

Com a decisão do STF, publicada na última sexta-feira, 15, fica mantida a prisão do jornalista, constrangido a lustrar o banco dos réus com a bunda seca após cometer a ousadia de trazer o pensamento à ponta da pena. Ainda cabe um último recurso ao próprio STF. Espera-se que o Supremo finalmente analise o caso e reafirme os princípios constitucionais que pontuam inúmeras decisões em favor da liberdade de expressão proferidas pela mesma Corte. Até lá, Cristian que se vire com a corda no pescoço.

Kafka não iria tão longe. O desembargador Edson Ulisses vestiu a carapuça, mas não se deu ao trabalho de explicar como reconheceu as próprias feições no personagem da crônica 'Eu, coronel de mim', dedicada a um jagunço das leis e aos conluios que moldam os labirintos do poder, num dado lugar, num dado tempo. O dedo em riste foi seu único argumento. E bastou. Em terra de Cacique (o desembargador é cunhado do finado governador Marcelo Déda), manda quem pode e obedece quem tem juízo. Eu, Rita Lee e Cristian Góes estamos fodidos.