Por quem os sinos dobram?

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Romantismo no caixão dos outros é refresco
Romantismo no caixão dos outros é refresco

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Publicada em 22/08/2014 às 00:29:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Ontem foi dia de ouvir Raul bem alto. Só pra constatar que a sombra projetada sobre o rock made in Brasil, 25 anos depois de sua morte, não é papo de tiozão. Infelizmente. Tenho pena de quem morre de saudades, olhos e ouvidos avessos aos rangidos do mundo. Muita coisa bonita sucedeu as tragédias pontuadas pelos estilhaços de garrafas esvaziadas num gole só e disparos de revolver que marcam a biografia dos outsiders (alguém há de explicar, um dia, o fascínio das ruínas). Romantismo no caixão dos outros é refresco. Não há como negar, contudo, que os mártires da música já nos deram motivos mais bonitos para pranto.
Ano passado foi a vez de lembrar Kurt Cobain. E a proximidade entre o aniversário de 46 anos do filho ilustre de Seatle com a morte de Chorão (pense num batismo certeiro!) impunha uma comparação. Muito barulho por nada.

Nem uma lágrima - Eu não sei onde estava enterrado quando o Nirvana aconteceu. O mais provável é que me encontrasse no quarto, com os ouvidos entupidos de jazz e progressivo. De certo, as lágrimas que não derramei quando o galego foi encontrado morto, com um tiro na cabeça.
Hoje, os ruídos de Seattle me cobram o tempo perdido, como fazem todas as experiências tardias. Assumo o ônus da arrogância adolescente, mas não abro mão dos pré-conceitos do adulto. Duvido pagar tributo semelhante à memória de Chorão, algum dia.

Se o mundo valer o peso de seus mortos, estamos lascados. Mesmo pra quem não viveu o momento, os três discos gravados pelo Nirvana, sua simplicidade cruel e inventiva, justificam o espanto e a consternação de quem não conseguia acreditar na notícia.
Não era apenas o personagem, nem o homem de carne osso com um rombo na testa que saía de cena. Mas também, os anos revelariam, o último berro sincero da música.
De lá pra cá, muito pouco de notável ocorreu. Nada que tivesse a mesma força. Perto das facadas rasgadas na garganta de Mr Cobain, os riffs da Charlie Brown Jr, por exemplo, não assustam nem as menininhas.
Em minha defesa, um último argumento: Luciano Huck e Ana Hickman declararam luto. Não dá pra contemporizar com essa gente.