A disputa para o Senado

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Pintura do artista Eduardo Fabião
Pintura do artista Eduardo Fabião

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Publicada em 24/08/2014 às 00:54:00

Mesmo sem um pedido de licença for-mal, o prefeito João Alves Filho (DEM) largou o comando da Prefeitura de Aracaju nas mãos de alguns secretários para cuidar da campanha à reeleição da sua mulher, senadora Maria do Carmo (DEM). É João quem discursa nos comícios do interior em nome de Maria e é também ele, juntamente com o ex-governador Albano Franco, pai do candidato a primeiro suplente na chapa, Ricardo Franco (PTB), quem negocia apoios com prefeitos e lideranças do interior.
Os únicos papéis de Maria na campanha são cumprir o tradicional corpo-a-corpo na periferia da Grande Aracaju e repetir por diversas vezes pequenos trechos de discursos para a propaganda eleitoral no rádio e na TV. Ela não se envolve nas questões financeiras da campanha, também sob responsabilidade de Albano e João.
Toda essa blindagem tem a ver com o resultado da campanha da sua reeleição, em 2006. Ela iniciou a campanha com folga gigantesca nas pesquisas e acabou reeleita com pequena margem em relação ao adversário da época, José Eduardo Dutra (PT), mesmo usando escancaradamente a máquina administrativa do governo, inclusive promovendo desfile de ambulâncias do Samu com faixas de sua campanha, e impedindo pela via judicial a divulgação de pesquisas às vésperas do pleito que atestavam o empate técnico.
Nestas eleições, quando tenta seu terceiro mandato, Maria está sendo preparada para um confronto mais duro. O adversário é o deputado federal Rogério Carvalho, presidente estadual do PT, que trabalha num ritmo alucinante, unificou o partido e tem entre os seus aliados prefeitos de 50 municípios e lideranças importantes de todas as regiões do Estado. Sem a timidez de Dutra.
"Estamos prontos para comparar o nosso trabalho com o da senadora Maria do Carmo, estamos dispostos a mostrar para as pessoas os dois mandados e qual trouxe mais benefícios para o povo de Sergipe. Podemos com tranquilidade comparar os 16 anos de mandato de Maria do Carmo Alves com os 3 anos e meio do meu mandato como deputado federal. Basta que os eleitores interessados acessem a página do Congresso Nacional e verifiquem minha atuação", destacou Rogério, que é candidato pela coligação que apóia a candidatura a reeleição do governador Jackson Barreto (PMDB). Maria é candidata pela chapa do senador Eduardo Amorim (PSC).
Além de comparar as atividades dos dois no parlamento, Rogério Carvalho também pretende questionar a gestão do prefeito de Aracaju, João Alves Filho (DEM), marido de Maria, e coordenador da sua campanha. "Na verdade o prefeito teria que governar a cidade em vez de pensar em eleger senador. Devia cuidar da saúde de Aracaju, manter os prontos socorros abertos porque estão quase fechados, limpar a cidade, consertar os buracos no asfalto. A população está insatisfeita com a cidade, com a forma que ela está sendo tratada. É importante lembrar que ele é prefeito e não candidato a senador", disse o deputado.
Nas gestões de Marcelo Déda como prefeito de Aracaju e governador do Estado, Rogério Carvalho teve ações destacadas na condição de secretário de Saúde da capital e depois do Estado. Em Aracaju, foi o responsável pela implantação dos hospitais da Zona Norte (Nestor Piva) e da Zona Sul (Fernando Franco), depois transformados em UPAs. Foi como secretário de Estado da Saúde que ele enfrentou os maiores embates com o ex-governador João Alves Filho, hoje prefeito da capital.
Como secretário da Saúde no primeiro Governo Déda, Rogério projetou 102 e o governo já inaugurou 86 Clínicas de Saúde da Família que são modelo de unidade de saúde, elogiadas por profissionais do setor e os usuários.
Segundo Rogério Carvalho, quando João Alves era governador de Sergipe "ele fechou 10 hospitais e agora, enquanto prefeito de Aracaju, se não houver uma ação da população vai fechar as UPAs deixando a população sem atendimento. Ou seja: ele nunca mostrou compromisso com a saúde do povo de Sergipe e agora mostra o mesmo em relação a Aracaju".
Rogério, que exibiu na última sexta-feira na TV depoimentos da presidente Dilma e do ex-presidente Lula apoiando a sua candidatura, começou também a fazer a prestação de contas do seu mandato como deputado federal. Além de ter sido relator do programa Mais Médicos, aprovado por 90% dos brasileiros, relaciona a conquista de R$ 370 milhões em recursos para obras e custeio para todos os municípios, frutos de emendas orçamentárias devidamente realizadas e entendimentos nos ministérios.
A disputa para o Senado nestas eleições deverá ser tão marcante quanto o confronto para o governo. A mesma burguesia que se uniu para tentar impedir a reeleição do governador Jackson Barreto, também tenta evitar a ascensão de Rogério ao Senado. Se Amorim tem Augusto Franco Neto, filho de Walter Franco, como candidato a vice-governador, Maria tem como suplente Ricardo, filho de Albano.

 Processos
Na entrevista que concedeu à TV Sergipe, na última quinta-feira, o candidato Eduardo Amorim (PSC) não soube justificar a razão de tantos processos movidos pela sua coligação contra jornalistas, membros de redes sociais e órgãos de comunicação. Disse que "respeita muito a imprensa" e que procura a Justiça "quando tenho a honra ofendida, quando sou agredido e a minha família é agredida. É assim que a gente procurar agir, apenas nessa situação".

Na Saúde
Eduardo Amorim foi o primeiro secretário da Saúde do terceiro governo João Alves (2003-2006) e acabou sendo substituído em função de escândalos sobre a aquisição de medicamentos. Na TV ele também não soube explicar direito a situação. Limitou-se a dizer que "não é processo, não tenho nenhum processo. É inquérito. Estou com a consciência tranquila por ter se tratado de um inquérito que o Tribunal de Contas apurou na época e me inocentou, assim como o Ministério Público Federal". Ao ser questionado por que o processo estava em Brasília, no Supremo Tribunal Federal (STF), Amorim respondeu que estava lá pela lei do foro especial, pelo fato de ser senador. "Tenho consciência tranquila, se trata de inquérito e fui inocentado pelo Tribunal de Contas e Ministério Público". O inquérito no STF corre em "segredo de justiça".

Edivan
O apresentador Ricardo Marques também quis saber o papel que o irmão Edivan Amorim terá no governo: "Edivan Amorim é sempre presente nas decisões relacionadas ao senhor, mas pesam contra ele muitas acusações de envolvimento em alguns escândalos e ações judiciais, como a do Banestado, onde foi condenado por empréstimo de mais de R$ 5 milhões e, segundo o Ministério Público, usou laranjas, e que também responde a ações em outros Estados. Qual será o papel dele no seu governo no caso de o senhor ser eleito governador?" A resposta de Eduardo Amorim foi mais uma evasiva: "Amo e respeito o papel da família. Escuto e respeito pessoas como sempre fiz ao longo da vida profissional. Escuto amigos e irmãos, mas ninguém nunca me obrigou a nada. Sempre adotei os princípios do valor cristão por acreditar em Deus. No meu governo quem vai agir é a minha consciência. Aquele princípio que adotei para conduzir todos os meus passos com muito zelo e dedicação".

Improcedentes
Ao analisar o mérito das ações judiciais movidas por Edivan e Eduardo Amorim contra jornalistas e órgãos de comunicação, juízes eleitorais começam a reverter decisões antes favoráveis ao grupo político. Caso de decisões do juiz federal Carlos Rebelo Júnior e da juíza Lidiane Vieira Bomfim Pinheiro de Meneses em relação a ações contra o JORNAL DO DIA. Os irmãos querem evitar que a imprensa continue apresentando suas biografias.
Buraqueira
No início da década de 1980, Heráclito Rollemberg era prefeito de Aracaju quando o então senador Passos Porto, seu aliado político, cunhou frase que até hoje é citada sempre que a capital sergipana enfrenta buraqueira como ocorre agora. Disse o ex-senador: "Aracaju parece uma Beirute sem bombardeio".

Proporcionais
O empresário e secretário municipal de Comunicação, Carlos Batalha, perdeu a disputa para que sua produtora fosse responsável pela produção do programa da senadora Maria do Carmo Alves, que concorre à reeleição. Mas foi contemplado com as gravações dos candidatos a deputado federal e deputado estadual da coligação de Eduardo Amorim (PSC). A campanha de Maria está casada com a do candidato a governador, inclusive com cartazes mostrando apenas os dois.

Na Justiça
Além de ter recorrido ao diretório nacional do DEM, o deputado federal Mendonça Prado também vai à justiça para garantir direito de usar o tempo destinado ao seu partido na TV no horário eleitoral. Mendonça diz que está sendo perseguido pela coligação liderada pelos irmãos Amorim. "O chefe Edivan Amorim deu ordens ao dono da produtora que faz os programas da coligação, para não veicular na TV e no rádio o meu programa eleitoral", denunciou Mendonça, que mantém posição contrária a aliança do seu partido com os Amorim e apoia a candidatura à reeleição de Jackson.z