'Lawrence da Arábia', um clássico peso pesado

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Cena do clássico \'Lawrence da Arábia\'
Cena do clássico \'Lawrence da Arábia\'

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Publicada em 30/08/2014 às 00:03:00

* Anderson Bruno

Um grande filme! Simples assim, resumiria de imediato minhas impressões acerca de "Lawrence da Arábia" (Lawrence of Arabia, David Lean, Reino Unido, 1962, 216 min).
Também pudera. Um longa-metragem com duração de três horas e trinta e seis minutos precisa se sustentar no dinamismo de sua projeção e na qualidade artística de seu conjunto. O dito foi consumado e o mundo presenteado com esse clássico peso pesado.
A (super) produção de imediato já se mostra de grosso calibre pelo fato de pertencer ao gênero épico autobiográfico.

T. E. Lawrence - Thomas Edward Lawrence - personagem principal do filme, lançou em 1926 (36 anos antes de a obra em película estrear nos cinemas) o livro "Os Sete Pilares da Sabedoria" - "Seven Pillars of Wisdom", no original de língua inglesa - para relatar sua epopéia pessoal à frente ao levante árabe empreendido contra a invasão do império turco.
A ambientação dramatizada é perpassada por entre os anos de 1916 a 1918. A cenografia de John Stoll e Anthony Masters - junto à fotografia de Freddie Young - reproduz enquadramentos fantásticos gravados nos desertos da Jordânia e do Marrocos. Além da beleza natural dos conjuntos de dunas e das imensas montanhas de pedras banhadas com a luz amarelo-alaranjada do sol, o filme convida o público a desfrutar da magnitude desse imenso mar de areia com planos abertos filmados especialmente para projeções em CinemaScope.

A técnica consistia no aumento do filme em tela. O efeito era conseguido ao encaixar tarjas pretas nas partes superior e inferior da tela (widescreen) bem como na ilusão do alargamento do filme exibido, efeito alcançado através do uso de lentes anamórficas. É de arrepiar o acompanhar de tomadas com planos gerais nos quais a pessoa fica menor que um grão de areia perante a potência e vastidão do deserto.
Um desses planos a se destacar está no da invasão dos rebeldes árabes à cidade litorânea de Aqaba. A câmera em plano aberto filma a cavalaria adentrar na cidade. Milhares de figurantes proporcionam tal grandeza de espetáculo também. Numa panorâmica, o conjunto hípico soma-se à estrutura de casas do lugarejo para logo depois finalizar o quadro com mais um elemento: o mar. Tudo sem efeitos especiais e refletido numa imensa projeção de cinema. É o pedigree da filmografia épica.
Muito dessa apoteose se deve ao diretor britânico David Lean. Especialista em grandes obras clássicas, é dele também a assinatura de "A Ponte do Rio Kwai" (1957) e "Doutor Jivago" (1965).

Além de levar uma grande equipe para gravar no meio do nada, Lean também extraiu interpretações magníficas de seu elenco. O egípcio Omar Sharif é revelado ao mundo com seu contido e íntegro Sherif Ali, braço direito do Príncipe Feisal, figura de personalidade irônica caracterizada por Alec Guiness. O mexicano Anthony Quinn dá vida ao carismático e mercenário Auda Abu Tayi, chefe da tribo árabe de alcunha Howeitats. Na batalha contra os turcos, ele se junta ao oficial Lawrence, inglês comparado a um profeta.

Coube ao até então desconhecido ator britânico Peter O'Toole, a responsabilidade em protagonizar e dar vida a um papel bastante complexo. Lawrence era magrinho e anti-popular. Não havia nele os elementos concernentes a um herói. Com astúcia, coragem, perdas e traumas, sua personalidade forte se transformou na própria imagem da vitória do levante árabe contra os turcos. Até comparado a uma divindade Lawrence foi. Ao invés de uma coroa de espinhos, foi-lhe dado um agal dourado (adereço que circunda o pano sobre a cabeça dos homens dessa região). Seus olhos azuis e cabelos extremamente louros deram-lhe um ar angelical. E como não poderia faltar, a corja política é sempre a arquiteta da maldade vigente.

Enquanto nosso ariano herói quase enlouquece na busca pela paz (ele é um assumido e romântico entusiasta pela causa árabe), a alta cúpula militar e política da Grã-Bretanha se junta aos monarcas locais para definir quem fica com o quê após a conquista dos revoltosos. Tudo imbuído em negociações ceticistas e desconfiadas comuns aos bastidores desse tipo de tramóia, como bem diz o personagem de Alec Guiness em determinado momento.

A filarmônica de Londres deu vida à oscarizada trilha sonora composta por Maurice Jarre. Ela é tão grandiosa e inesquecível quanto o filme. "Lawrence da Araábia ainda abocanhou outros 06 Oscar.
O último dos clássicos exibidos pelo Cinemark foi exibido para fazer valer aquela máxima: 'Não fazem mais filmes como antigamente'.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.