Oração pelas Vocações e pelos Sacerdotes

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Publicada em 03/09/2014 às 00:10:00

* Raymundo Mello

Entre os fatos que marcaram a vida da Igreja no século XX, sem dúvida, o Concílio Vaticano II ocupará para sempre um lugar de destaque. Realizado no período de 1962 a 1965, o Concílio, entre outras peculiaridades, registra o fato de ter sido instalado por seu idealizador, o Papa João XXIII, e concluído pelo seu sucessor, o Papa Paulo VI, à época ocupando a Cátedra de Pedro.
Os documentos do Concílio aí estão para mostrar as intenções pastorais de tão magno evento que oxigenou a vida da Igreja no mundo, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus, especialmente nas intenções proclamadas por João XXIII no programático discurso de abertura do Concílio onde elegeu por primeira grande meta a união dos cristãos.

O período imediato ao encerramento do Concílio causou um grande impacto entre, principalmente, os Cristãos Católicos, face às várias interpretações que foram dadas a formulações inovadoras concentradas nos vários documentos produzidos e nem sempre conscientemente estudados. Aliás, esta expectativa foi prevista pelo próprio Papa Paulo VI conforme escreveu ele ao Congresso de Teologia pós-Conciliar em carta de 21-09-1966 onde Sua Santidade diz: "Findo o Concílio, volta tudo ao que era antes? As aparências e os hábitos responderão que sim; o espírito do Concílio responderá que não. Alguma coisa, e não pequena, deverá ser, também para nós - antes, sobretudo para nós - nova. As mudanças de tantas coisas exteriores? Sim, mas não é a estas que ora aludimos. Aludimos ao modo de considerar a Igreja, modo que o Concílio cumulou tanto de pensamentos, de temas teológicos, espirituais e práticos, de deveres e de confortos, a ponto de exigir de nós um novo fervor, um novo amor, como que um novo espírito".

Tinha razão Sua Santidade. As interpretações particulares, as aplicações de declarações mal pensadas, etc… , etc… , etc… , levaram alguns pensadores a desejarem uma Igreja nova e diferente, fugindo do formalismo, do triunfalismo e outros tantos "ismos", porém, afetando os conceitos mais íntimos e solenes da Santa Madre Igreja, de tal forma que o Papa Paulo VI em determinado momento chegou a declarar que "parecia que a fumaça de satanás havia ultrapassado os alicerces da Igreja". Declaração estarrecedora, é verdade, mas que demonstrou toda a preocupação do Sumo Pontífice.

Uma das áreas mais atingidas, especialmente no Brasil, foi a vocação sacerdotal, principalmente pela série de sacerdotes que abandonaram o Ministério, alguns por acharem que suas expectativas pessoais não foram alcançadas, outros por entenderem que a abertura foi exagerada, além de várias outras hipóteses que esbarraram em uma vocação frágil, sem o grande alicerce da FÉ que é a oração permanente - "orai sem cessar" (1Tes 5, 16) - "Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé" (1Pe 5, 8-9a).

Aqui em Sergipe não foi diferente. A Igreja local sofreu esse mesmo impacto e as vocações escassearam. O número de seminaristas foi minguando, minguando, as vocações sumindo e a Igreja sofrendo. Enquanto o Clero diminuía, as novas vocações não surgiam, também e especialmente pela dessacralização em moda.
É de registrar-se que do final da década de 60 até o início dos anos 80 (1968 a 1982) a Diocese teve apenas uma Ordenação Sacerdotal, a do Padre Raimundo Cruz (11-04-1971), felizmente uma vocação firme e fiel, perseverante até seu último dia de vida, 8 de julho passado.

Vocações Sacerdotais - o principal problema, o prioritário na Arquidiocese. O Sr. Arcebispo Dom Luciano José Cabral Duarte deu início nos anos 70 à sua Ação Vocacionista, no que, diga-se de passagem, foi muito bem apoiado por seu Bispo Auxiliar à época, Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, que tratou de difundir junto às famílias católicas, aos vários movimentos eclesiais e através da imprensa a necessidade de um trabalho conjunto pela causa da Messe.

Junto aos leigos mais próximos ligados aos Movimentos (Cursilhos de Cristandade, Familiar Cristão, Senhoras de Ação Católica, Focolarinos, Apostolado da Oração, etc…) incentivou a criação do SERRA Clube de Aracaju e deu a esse movimento a responsabilidade maior de ser a extensão dos bispos e sacerdotes no incentivo às vocações sacerdotais e religiosas. O Serra Clube, fundado em 1977, firmou-se na Ação Vocacionista a partir de então, tendo sido reconhecido com Carta de Agregação ao SERRA Internacional e às Obras Pontifícias das Vocações Sacerdotais em 08 de setembro de 1980, na Festa da Natividade de Nossa Senhora.

Na época, Dom Luciano já difundia a sua grande meta vocacionista: colocar a Arquidiocese em ESTADO DE SENSIBILIDADE VOCACIONAL.
Assim, o tema tornou-se responsabilidade de todos e as vocações começaram a povoar o Seminário "Menor", com os Seminaristas "Maiores" sendo enviados para seus cursos de Filosofia e Teologia em Lorena, Aparecida e Brasília.

Faltava apenas um grande marco de fé já que orava-se, colaborava-se com o Seminário mas sentia-se que estava faltando algo - uma marca definitiva da Ação Vocacionista de toda a Igreja local, assim como um estandarte que identificasse o trabalho eclesial em prol dos operários da Messe do Senhor.
E essa marca tornou-se realidade, materializada no texto de uma Oração específica e que veio para tornar concreta a definição da Igreja da América Latina na Conferência realizada em Puebla - México, no período de 27/01 a 13/02/1979, que alertou para o problema vocacional, definindo sob inspiração que A VOCAÇÃO SACERDOTAL É A RESPOSTA DE DEUS PROVIDENTE À COMUNIDADE ORANTE.

Fomos instrumento para a realização dessa graça, uma vez que, para a entrega oficial da Carta de Agregação do Serra Clube de Aracaju (assunto a que nos referimos anteriormente) resolveu a Direção Nacional do SERRA, especialmente como uma homenagem à AÇÃO VOCACIONISTA do nosso então Arcebispo (Dom Luciano), concretizar o fato com a realização, em Aracaju, no período de 27 a 29/03/1981, da 1.ª Convenção Norte Brasileira de SERRA CLUBES, elegendo a nossa cidade como Capital Vocacionista do Brasil.

Aceitamos o encargo e encorajados pelo apoio hierárquico organizamos o evento e, para definir a oração como ponto básico de todo trabalho vocacional, confiamos à inteligência mística do Monsenhor José de Araújo Machado a construção do teor da fórmula que deveríamos usar naquela ocasião e daquela autoridade da Igreja - Chanceler da Arquidiocese, à época - recebemos a oração que originalmente assim redigida, recebeu a aprovação eclesiástica e foi reiteradamente proclamada durante o evento:

Oração pelas Vocações e pelos Sacerdotes

Divino Salvador, Jesus Cristo, que confiastes aos Sacerdotes, como a vossos representantes, a distribuição das graças da Redenção, eu vos ofereço, por intermédio de vossa Mãe Santíssima, pelos Sacerdotes e Candidatos ao Sacerdócio, as orações, trabalhos e sofrimentos deste dia.
Concedei-nos, Senhor, sacerdotes santos, inflamados no fogo do vosso amor, totalmente dedicados ao bem das almas e ao triunfo de vossa Igreja.

E vós, ó Maria, Mãe dos Sacerdotes, vós que sois a onipotência suplicante, protegei-os a todos, nos perigos e dificuldades em que se encontrarem.
Virgem Mãe e Rainha do Clero, aumentai nas famílias o respeito e o amor ao Sacerdócio, suscitai novas vocações sacerdotais e religiosas, e preparai, segundo os desejos do vosso coração, os nossos seminaristas, para que sejam, mais tarde, dignos Ministros do Altar, santos e devotados guias de nossas almas. Assim seja.

- Ave Maria, etc…
V. Nossa Senhora da Conceição
R. Rogai por nós.
V. São Pio X
R. Rogai por nós.
(Com aprovação Eclesiástica)

Encerrado o evento, partimos com o apoio do Sr. Arcebispo e o eficiente trabalho do Padre Raimundo Cruz, à época Reitor do Seminário, e com a inestimável colaboração do Sr. Dom Hildebrando Mendes Costa, então Bispo Auxiliar de Aracaju, para solicitar a inclusão da oração em todos os eventos, encontros, novenas e Missas, com a recitação daquela prece como apoio e empenho de todas as comunidades à obra das vocações sacerdotais. Deu trabalho, encontramos dificuldades mas, aos poucos, fomos conscientizando os cristãos a engajarem-se na campanha simples e de eficácia futura, como esperávamos.
Como o texto era um pouco longo, resolveu Dom Luciano adaptá-lo a poucas linhas, mantendo o valor da súplica mas facilitando para que fosse mentalizada para ser rezada de cor. E a oração passou a ter o seguinte e definitivo teor:
Oração pelas Vocações e pelos Sacerdotes

Divino Salvador, Jesus Cristo, concedei-nos Sacerdotes santos, inflamados no fogo do vosso amor, totalmente doados à edificação da vossa Igreja.
E vós, ó Maria, Mãe dos Sacerdotes, vós que sois a onipotência suplicante, socorrei-os a todos, nos trabalhos e dificuldades em que se encontrarem.
Virgem Mãe e Rainha dos Apóstolos de Jesus, aumentai nas famílias o respeito e o amor ao Sacerdócio, suscitai novas vocações sacerdotais e religiosas, guiai, segundo o amor de vosso coração os nossos seminaristas, para que sejam, mais tarde, dignos Ministros do Altar, santos e dedicados pastores do povo cristão. Assim seja.
(Com aprovação Eclesiástica)

E ainda, solicitou o Arcebispo que a oração oficialmente adotada na Arquidiocese fosse insistentemente rezada ("pedi e recebereis") especialmente ao Post-Comunio de cada Celebração Eucarística.
A fórmula atendeu aos anseios e foi insistentemente rezada, inclusive nas Dioceses de Estância e Propriá, e logo os efeitos positivos começaram a ser sentidos, reativando o ardor vocacional e trazendo para os Seminários os candidatos que hoje, em grande parte, compõem o Clero da nossa Arquidiocese e das dioceses irmãs, e, não tenham dúvidas, a oração já deu um Bispo Auxiliar para a Arquidiocese (Dom Dulcênio Fontes de Matos - ex-Bispo Auxiliar de Aracaju e atual Bispo de Palmeira dos Índios-AL).
O esforço de muitos, sobretudo o empenho de Dom Luciano que viu concretizada a sua grande aspiração - colocar a Arquidiocese em Estado de Sensibilidade Vocacional - surtiu o efeito esperado, pois, "tudo é possível ao que crê" (Mc 9, 23b).

Seria ótimo que, principalmente os padres ordenados a partir de 1982, não esquecessem essa simples mas tão eficiente ajuda e apoio que receberam aos seus chamados para a vida sacerdotal. Muitos rezaram e continuam rezando pelos senhores. E, como retribuição, poderiam e deveriam incluir nas Missas, na Oração Eucarística, pedidos pelo Sr. Arcebispo Dom José Palmeira Lessa, mas, também, pelo Sr. Arcebispo Emérito, Dom Luciano José Cabral Duarte, pois isto seria uma retribuição justa ao muito por ele desenvolvido para que cada um, com todo apoio, concretizasse a sua realização sendo Ordenado Sacerdote, segundo a Ordem de Melquisedeque para servir à Igreja de Jesus Cristo, de Maria Santíssima e do Papa.
Em 33 anos de fé e perseverança, a oração vem cumprindo a sua finalidade e a Comunidade Orante tem recebido de Deus Providente os seus pastores, vendo a cada ano o florescer de novas vocações devidamente assumidas para a santificação do Povo de Deus.

Graças a Deus!

***
Este texto foi originalmente escrito em 2001, quando a Oração completou 20 anos. Hoje (setembro/2014) já são 33 anos e o resultado é cada dia mais visível, prova evidente de que Jesus Cristo Sacerdote a abençoa e responde ao que nela se pede. Adaptei-o ao momento presente e compartilho com o público leitor.
Continuemos rezando, cheios de fé e confiantes no crescimento do nosso Clero.

* Raymundo Mello, Fiel Cristão Leigo, é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br