UMA RECESSÃO PRÉ-FABRICADA

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Publicada em 07/09/2014 às 00:29:00

Um sisudo comentarista desfilava na TV uma série de razões pelas quais a economia brasileira teria tecnicamente afundado em recessão. Recessão logo nos remete àquelas cenas de enormes filas de desempregados em busca de um só disputado posto de trabalho, as pessoas temerosas e precavidas reduzindo despesas, consumindo o mínimo para a subsistência. Depois do comentarista o noticiário prosseguia, e ficava-se então sabendo que em Brasília hotéis e restaurantes estão atravessando sérios problemas porque não há mão de obra disponível. Enquanto isso, os turistas brasileiros cada vez em maior número batiam recordes de gastança no exterior.
Sendo apenas uma constatação tão sinistra quanto eleitoreira, ou uma realidade indiscutível, a verdade é que o fantasma da recessão continua de vez em quando fazendo as suas aparições, isso porque, há dois anos, o Ministro Mantega já deveria ter sido devolvido à tranquilidade da sua residência. Nele ninguém mais acredita, e esse descrédito é coisa grave, porque no Brasil, desde o Império, os agentes econômicos sempre se movimentaram em torno das decisões, ou dos favores do Ministério da Fazenda.
O homem que manobra a economia brasileira pode tornar-se desacreditado por dois motivos: falha própria ou atingido pela conspiração do prostíbulo financeiro em que se transformou o capitalismo global desenfreado. Mantega é vitima das duas coisas, mas, já tendo dado o que deveria dar, há muito tempo teria chegado a sua hora de pegar o chapéu e sair.
Se de fato existe, essa nossa recessão é um tanto estranha. Contrastando com ela, nas ruas das cidades americanas e europeias há nítidos e alarmantes sinais de uma progressiva deterioração social.
Aqui, nenhum banqueiro saltou do alto de algum prédio na Avenida Paulista. Na recessão de 1929 banqueiros, magnatas falidos, foram se esborrachar sobre o asfalto, despencando de edifícios da Wall Street, onde a Bolsa e todo o sistema financeiro agonizavam. Por aqui os bancos, todos eles, sem nenhuma exceção, exibem inacreditáveis lucros. E esse ganho despudorado resulta cada vez mais da especulação avassaladora, que não gera emprego nem distribui renda. E ainda querem a autonomia para o Banco Central, um eufemismo que na realidade significa o controle da economia pelo mercado financeiro.