Senhora dos Restos; nada à deriva

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Publicada em 13/09/2014 às 00:31:00

* Feliciano José

Um misto de vivências, experiências e maturidade artística e pessoal vem retratar o espetáculo da crueldade; aquilo que, para quem ainda possui alguma migalha de humanidade, torna-se difícil não se incomodar. Tudo se passa entre quatro paredes, sendo uma delas imaginária (prerrogativa da arte de representar), cuja condição não a impediu de ruir instantes após a subida do pano, após o descerrar das cortinas. O enfoque desta peça é a expressão viva da degradação do ser humano apontada por estudiosos da sociologia, quando nos alertam, através das suas clássicas teorias, para as consequências nocivas que alguns modelos de organização social podem causar. E que a arte não se cansa de denunciar.

A pitada de humor impressa ao espetáculo "Senhora dos Restos" apenas suavizava a dor de quem ainda não adormeceu, e não daquele que ainda não acordou. Aos poucos, o público foi sendo envolvido, enquanto, no palco, persistia um riso crescente, apavorador. O contraste de emoções disfarçava o peso da carga dramática de uma senhora detentora de tão pouco ou de quase nada. A personagem é bastante densa, a sua realidade é circunstancial, porque ela não sofre de misofilia nem olvidou do seu pretérito. Como confidentes, ela possui dois bonecos de pano, que são a sua companhia naquele recanto em que vive fingindo disfarçar aquilo que lhe consome: o descaso. O seu desabafo desolador compõe o monólogo, cenicamente, estarrecedor.

O jogo discursivo e irônico daquela senhora, que, a cada hora, promove uma autocanonização com titularidades diversas - porque diversa também é a sua sabedoria - faz com que ela profira e promulgue a sua própria eternização. Talvez ela acredite que, com a dissolução da própria vida, o seu desejo de infinitude venha a ser concretizado perpetuando-a como a miséria invisível nela pôde se perpetuar. E, depois de a nada ter sido reduzida, ela autossantifica-se por diversas vezes. Por diversas vezes, ela tenta dissuadir-se de pensamentos escabrosos. Ela tenta ilidir a memória do seu passado e o faz perante uma sociedade cega que não identifica o seu próprio mal-estar. O final da peça é surpreendente e diverge do original. Assim o quis o seu diretor.

O texto, literariamente, talvez não possua, no que tange à vida pregressa da personagem, todos os ingrediente necessários à confecção de uma peça para teatro; aquilo que respalda as suas ações no presente (o tempo compreendido em cena). E é sobre esse respaldo que a pessoa atuante se debruça para dar consistência interpretativa e convincência à personagem. Na ausência desses insumos resta aos condutores do processo artístico da encenação lastrear esse passado fazendo brotar uma realidade originária fictícia que venha imbuir a personagem de força precípua e significar arte.

Ao espetáculo foram enxertadas palavras cruas e secas escarafunchadas nos baús interiores da intérprete, os quais armazenam um passado duro, mas precioso como um diamante, mesmo antes do seu lapidar. As vivências da atriz e do diretor vão ser comparadas, porém nunca equiparadas à múltipla incipiência do autor. Embora aquelas não anulem esta. Pois, juntas, elas concorrem (em sentido jurídico) sob distinção. O texto, encenado, possui fragmentos biográficos da intérprete depurados pela montagem. Do autor, alguns aspectos autobiográficos estão presentes no texto. Contudo, tanto uns quanto os outros foram naturalmente impressos sob legítima deliberação. Há, ainda, um jogo de termos e expressões associado a uma pronúncia coloquial, que seria somente engraçada se não fosse também cultural e rica, haja vista a diversidade ímpar deste país, que possui ao seu nordeste grande acervo, não só da riqueza vocabular. Isto, porque além do nosso gigantismo, "Dentre outras mil ...".

A encenação é guiada por um sequência de mantos que compõem o figurino da personagem; eles expressam o "desejo" de canonização por ela postulado. A opção de cenário, produzido a partir de materiais recicláveis crus, até certo ponto é inusitada; só não possui odores, nem seria necessário. Os adereços ganham vida durante a encenação e, ao final da peça, dá àquela inominada persona o revés deste vigor. Por fim, a vida estrangula aquela senhora-coragem como um amanhecer que se apaga revertendo-se em sinistra madrugada.

A atuação, neste espetáculo, se comparada à interpretação musical, lembra Elis Regina cantando "Rebento", quando a sua voz parte de um sussurro, beira o infinito e arremata como começou. O gráfico cênico dramatológico estabelecido nesta peça é primoroso. Ele é ritmado, crescente e surpreende quando chega ao seu final sem que nos tenhamos dado conta da sua duração (em torno de 60 minutos). Um monólogo com esta extensão facilmente seria adjetivado de enfadonho, independentemente do grau de qualidade do texto. Porém, a interpretação, conforme ordenam os preceitos desta arte, se fez (fiat lux) sem que se tenha buscado salvar a quem quer que seja.

O espetáculo até pode e vai sazonar-se, mas já em sua estreia, a 14 de agosto último passado, impõe-se como um produto artístico finalizado e não apenas um mero devir. O seu rendimento já atinge 97% da inevitável totalização. E isto não é pesquisa de boca-de-cena, já é a depuração na rotunda. Dele fazem parte Denys Leão, exuberante talento na iluminação; Fernanda Neves na assistência de direção e execução da sonoplastia; a cenografia é de Isabel e Iradilson (que assina também os figurinos, adereços e a maquiagem, além da trilha sonora); a fotografia é assinada por Maria Odília; o projeto gráfico é de Clarissa Rocha; o áudio, impecável, é de Negão Operador (Parceria Áudio); Augusto Barreto confeccionou os bonecos; e o texto de Euler Lopes foi dirigido por Iradilson Bispo. Isabel Santos e Patrícia Regina assinam a produção executiva.

A ousadia do produto artístico que, ora, estreia a Dicuri Produções expressa uma parceria singular posta e dividida entre atriz e equipe. "Senhora dos restos" representa também o voo de uma estrela de volta ao seu começo. No teatro, o primeiro sucesso de Isabel Santos foi exatamente um monólogo com metalinguagem teatral, aos seus 18 anos de idade. Anteriormente, ela havia atuado em outras duas peças. Depois, atuou em inúmeros elencos. O atual monólogo é o segundo da sua carreia. "Senhora dos Restos" conduz IS, este ás do teatro, ao seu brilho inicial, nesta ocasião em que ela revisita a solidão do tablado, com plenitude e muita, muita competência, além da leveza e da tranquilidade adquiridas sob transpiração e determinação. O seu talento goza de relevo no solo da dramaturgia brasileira.
 
Onde: Casa Rua da Cultura (Praça Camerino - Centro de Aracaju/Se)
Gênero: drama
Dias: às sextas-feiras - até o final de novembro/2014
Hora: 21:00
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)
Intérprete: Isabel Santos - Direção: Ira Bispo - Texto original: Euler Lopes.

* Feliciano José é crítico teatral