Os bambas da terra por Raquel Delmondes

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O melhor é sonhar e deixar de mais-mais
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Publicada em 13/09/2014 às 17:50:00

A cantora Raquel Delmondes lançará no dia 18 de setembro, às 20h30, no Teatro Atheneu o seu segundo disco, intitulado "Vem Cantar Meu Samba". No novo trabalho, composto de 12 faixas, Delmondes interpreta 11 canções de compositores sergipanos além de 'Quem Cantar Meu Samba', de autoria de Oduvaldo Lacerda e Frazão, consagrada pelo grupo Demônios da Garoa.
Sem fugir do foco do seu disco de estreia- "Sambando Bem" (2010) - em que explora o samba feito pelos seus conterrâneos, Raquel Delmondes inova ao deixar de lado a vertente jazzística, para abraçar o samba regional. "Quando convidei o violonista Marcus Ferrer para me auxiliar na escolha do repertório desse segundo disco, além de assinar a direção musical e os arranjos das canções, ele sugeriu que esse segundo trabalho explorasse mais o samba regional", explica.

Jornal do Dia - O seu CD revela a muita gente que não falta compositor de samba bom em Sergipe. Como se deu o seu contato com esse universo? Vivência ou pesquisa? Há material a disposição dos interessados em beber na fonte dessa história toda?

Raquel Delmondes - Meu contato com esse universo se deu a partir de uma interação com vários compositores sergipanos. Entrei em contato e fui pessoalmente conversar com cada um. Eles me mostraram muitas composições. Ouvi tudo durante um longo tempo e depois da minha escolha pessoal, o meu diretor musical, o Marcus Ferrer avaliava e chegávamos a um consenso sobre o que poderia ser gravado em virtude do conceito do disco e da proposta do novo trabalho.
Posso afirmar com convicção que existe muito material interessante que não está registrado. Passamos uma tarde com o Gilton Lobo, e ele nos mostrou cerca de 20 músicas inéditas cantaroladas por ele mesmo, uma música mais linda que a outra! Ele é um compositor extremamente criativo e seu registro é sua memória e anotações que ele vai fazendo. Já o compositor Sérgio Botto, me passou um acervo com centenas de músicas catalogadas e muitas já gravadas por diversos parceiros. Deu trabalho escolher entre tantas músicas maravilhosas. O incrível de Sérgio é que ele me orientava sobre como gostaria que fossem executadas. A visão dele era completa, não deixava nada solto.
A Joésia Ramos me passou músicas oriundas de sua parceria com a poeta Maria Cristina Gama, samba que é poesia pura. Com João Mello, eu entrei em contato com sua família e por meio do João Alberto, seu genro, recebi dois CDs contendo as gravações de dois LPs lançados por João Mello na década de 50. Músicas belíssimas com execuções primorosas do João Mello que foi considerado o Cantor Máximo de Sergipe. Fiquei muito impactada com a obra de João Melo. E recebi do irmão dele, Seu Raimundo, um livro contando a trajetória de João Melo, que li num piscar de olhos. Tive muita identidade com a obra dele. Todos os compositores com quem entrei em contato foram bem receptivos. Rubens Lisboa, artista completo que já foi gravado por tantas vozes, me deu algumas opções de músicas inéditas.

JD - Muita gente torce o nariz para a aproximação possível entre samba e jazz. Conversa antiga, remonta ao beco das garrafas, coisa e tal. A participação de Saulo Ferreira em uma das faixas de seu disco, com uma guitarra completamente jazzy, parece colocar o dedo nessa ferida, tomando partido na peleja, concorda comigo?

Raquel - Como dizem meus queridos amigos Guilherme Godoy e Sérgio Natureza na música de Sérgio Botto, intitulada "Amor Dissonante (Samba pro Gershwin)": "Se o jazz é samba do bom logo o samba-canção também é puro jazz. Pra que deitar falação se o melhor é sonhar e deixar de mais-mais".
Na quarta faixa do meu disco, Saulinho arrasa com sua guitarra semiacústica na música de Joésia Ramos e Maria Cristina Gama, e eu fiquei bem feliz com o resultado!

JD - Há um preconceito corrente segundo o qual música de preto exige mais do que técnica e conhecimento de causa, requer também uma espécie de filiação sentimental e iniciação espiritual ao gênero. Como é possível situar o seu trabalho nesse contexto? De onde vem o samba de Raquel Delmondes?

Raquel - Acredito que a música que canto traz em suas raízes características de nossos ancestrais dos quais herdamos emoções e um sentimento de superação que faz parte do povo brasileiro. Ismar Barreto falava muito bem sobre isso no refrão de Eu sou Brasil: "Sou negro, índio e cor e onde for eu sou amor eu sou Brasil!" Meu samba se propõe a dar voz aos compositores sergipanos de forma simples e bela.

JD - Os compositores selecionados pelo seu repertório são, em sua maioria, autores consagrados há muito tempo. O mais jovem talvez seja Marcio de Dona Litinha, que já está ficando careca de tanto fazer música. Há resistência ao samba entre os meninos de hoje?

Raquel - Os compositores que escolhi para meu repertório são de fato mais experientes, mas já tive a oportunidade de gravar canções de João Ventura, Nino Karvan que representam uma nova safra da música em Sergipe. Gravar a música Felicidade João Mello, que ele compôs na década de 50 é um privilégio. Fiquei encantada com sua obra e a minha geração muitas vezes desconhece.

JD - Em sua opinião, o Samba de raiz ainda permanece circunscrito a uma espécie de gueto? Como o seu trabalho pode contribuir para ampliar esse público? Ele se pretende a tanto, ou você não tem nada com isso?

Raquel - Essa coisa de gueto sempre existiu e continuará existindo, pois faz parte da nossa cultura. Acredito que o samba de raiz tem seu lugar. Quando estou dando voz aos compositores sergipanos quero que as pessoas em geral conheçam o que é produzido aqui e se orgulhem disso.