SELDA

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Publicada em 20/09/2014 às 18:17:00

* Paulo F.T.Morais

Graças a São João da Cruz, já estou em São Paulo, minha terra, para onde voltei com mais riqueza, um tesouro maior do que aquele que fui procurar. Fui registrado com o nome de João da Cruz, homenagem de minha mãe ao padroeiro das almas desconsoladas, mas de agora em diante meu nome é João Fortunato.
Por causa da cana-de-açúcar e de um sol tórrido que em Sergipe queima tanto como se estivesse ao alcance de um voo do incrível goleiro Manuel Neuer, quase me desmancho  em água fervente naquela terra de solo rico e gente camarada.
- Dr.João, era bom a gente dar uma paradinha naquele arruado. Minha garganta está pegando fogo.
- A minha também, Cipó; pode parar.
Foi num domingo de outubro de 2013, por volta das 10 horas da manhã. Estávamos em Sergipe, a caminho da usina Canabrava, que me interessava comprar. Obtive dela preciosas informações passadas pelo meu amigo Flávio Souto, usineiro da Bahia, em cuja casa passei uma temporada me recuperando de uma inesperada e dolorosa viuvez. Flávio foi meu  colega de turma no Mackenzie, e nossa amizade não tem arestas. Um dos seus motoristas, Cipó, velho conhecido, foi incumbido de vir comigo e ficar à minha disposição pelo tempo que me fosse conveniente.
Entramos num bar e nos sentamos em tamboretes sob uma puxada de palha de coqueiro, que se esticava até o acostamento da estrada asfaltada. O calor era de tal ordem que nos alucinava: vimos línguas de fogo lambendo a rodovia, e dobrando-se ao vento que soprava em nossa direção. O refrigerante estava morno, descia arranhando a garganta crestada.
- A usina Canabrava fica perto daqui? - perguntei ao dono do bar.
- Nem tão longe, que não chego nunca; nem tão perto, que já chego lá. Três léguas de beiço. Depois da ponte de madeira, quebre a esquerda, vai bater nela.
Íamos saindo quando um carro parou adiante, e dele desceram um homem e uma mulher. Não pareciam gente da região, quer fossem julgados pela fisionomia ou traje. Notei que uma moça estava olhando tristemente através do vidro traseiro. Tinha  o semblante dos que sofrem resignadamente; os olhos verde-azulados, ora translúcidos, ora toldados, refletiam  com maior ou menor intensidade os desalinhos daquela alma. Cabelos quase louros, traços fisionômicos tão perfeitos que deve ter sido assim que o Criador fez o último modelo de Eva. Cipó, sem controlar a emoção, olhou-me encabulado, balbuciou um arremedo de admiração.
- Já viu igual, Cipó? - dei-lhe corda.
- É ver a Virgem Santa, doutor.
O casal retornou ao carro, e partiram.
- Conhece? - perguntei ao dono do bar, apontando o veículo que saía.
- É gente da Canabrava. Se eu fosse o senhor - sei que é pior pra mim - seguia no pé deles.
Foi o que fizemos. Chegamos à usina perto do meio-dia. Àquela altura dezenas de carros já estavam estacionados em frente de uma pequena igreja. Disse a Cipó para não perdermos contato com os passageiros do carro que seguimos. Um trabalhador improvisado de manobrista, atravessado numa roupa nova, o colarinho arrochando-lhe o pescoço, uma perna da calça mais curta do que a outra, indicou-lhes o local para estacionar: um galpão naturalmente escolhido para abrigar os veículos dos convidados de maior cabedal.
O casal e a jovem eram realmente gente da família. As boas-vindas com que foram recebidos não deixavam dúvida. Somente o casal saiu do carro. Os dois, pelos gestos, instavam a moça a que descesse. Não conseguiram persuadi-la. De repente, o tom das falas aumentou, principalmente o da voz da mulher. A jovem estava coradíssima, repetindo a frase ''nem morta", enquanto o homem fixava o chão, calado. A mulher, resmungando, banzeava o corpo com o rosto irado.
Fui conversar com o manobrista, o qual já estava arrodeado de algumas pessoas, que apontavam para o local de onde eu saíra. Aproximei-me, puxei-o levemente pelo braço:
- O que está havendo ali?
- É a filha do patrão. Aqueles são os tios, quero dizer, ele é irmão da mãe dela, com quem mora em São Paulo, faz um bocado de anos. Seldinha não se dá com os pais, mas hoje apareceu por causa das Bodas de Prata deles. Nas minhas contas, vai emperrar e não desce. Não será a primeira vez.
- Bodas de Prata?! Vamos dar meia-volta, Cipó. Não é dia para negócios. Mesmo assim, amigo, - virei-me para o manobrista - o que houve entre eles?
- Dizem que tudo começou com as manias dela. Parece que não bate bem. Por exemplo: só sai com sombrinha e não anda pelas calçadas, com medo de que os beirais caiam sobre a cabeça. Quando chegavam visitas, escondia-se, observava-as pelas gretas das portas e das janelas. Ainda bem jovem danava-se a correr por dentro dos canaviais, e saía coberta de sangue, a pele sulcada pelas palhas de cana. Soube que os tios sofrem o diabo com ela, mas são muito apegado à sobrinha, e mais tolerantes do que os pais.
Terminada a missa, logo que os assistentes foram deixando a igreja, ouvimos um grito pavoroso vindo do carro de Seldinha. Todos corremos para lá. Ela, segurando um canivete, e o casal estavam sujos de sangue. Via-se, no entanto, que eram ferimentos artificiais. Selda estava tão  bonita em sua  santa fúria que, extasiado, esbocei um sorriso fitando-a tranquilamente. Largou o canivete e correu em minha direção com os braços abertos. Acolhi-a alisando sua cabeça, enquanto ela chorava apertando-me o corpo, dizendo que somente eu a salvaria da tortura de não poder sonhar.

* Paulo F.T.Morais é jornalista e escritor (pftmorais@ig.com.br)