DECLARAÇÃO DE VOTO

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 04/10/2014 às 17:03:00

O voto é a arma dos cidadãos, costuma-se tão recorrentemente repetir.
Seria mesmo? O voto anda tão aviltado, transformando-se numa mercadoria que é posta à disposição de quem tiver recursos para adquiri-la.
Mas é preciso acreditar ainda na capacidade que tem a democracia de depurar-se através do continuado exercício do voto.

Tenho 73 anos, estou, portanto, dispensado da ¨obrigação cívica¨ de votar. Mas irei hoje digitar meus votos. No dia em que me sentisse desobrigado de participar estaria renunciando ao privilégio de viver.
Vou vestir uma camisa vermelha e sob o sol do sertão que esbraseia e tonifica caminhar até uma sala da Escola Municipal Augusto Franco, no povoado Curituba, em Canindé do São Francisco, onde repetirei o mesmo gesto que ali faço há mais de 20 anos. O vermelho cor da camisa não significará nenhuma adesão a partido, apenas uma espécie de evocação aos tempos da juventude, quando as bandeiras rubras dos sentimentos revolucionários me fizeram descrer do voto e acreditar na possibilidade única da mudança social alcançada pela multiplicação de Sierras Maestras por onde estivesse a opressão e a injustiça. Hoje, a camisa vermelha é, tão somente, uma alegoria ao tempo que passou, deixando vestígios dos ideais da juventude, destituídos agora, completamente, da insanidade de imaginar que a violência poderia partejar o novo e realizar o sonho da purificação social.

É possível até continuar sonhando, desde que tenhamos a tranquila convicção de que o caminho da busca daquilo que imaginamos deverá ser palmilhado por sucessivas e sucessivas gerações, tendo como meta a utopia, sabendo, todavia, que ela é irrealizável, sem que, por isso, percamos o ânimo e a vontade de tentar construí-la. Para um quase longevo, como é o meu caso, não há porque desacreditar na democracia, apesar do aviltamento do voto, da multiplicação dos picaretas e assaltantes que se disfarçam como políticos.

Já votei à luz de velas porque haviam cortado a energia para que não se espichasse pela noite adentro uma indesejada votação, e havia ainda uma fila enorme de eleitores a esperar.  Fiscal de partido, dormi estirado no chão, atravessado na porta de uma sala onde estavam as urnas que seriam apuradas no dia seguinte. Era a vigilante prevenção contra a fraude, numa comarca onde o juiz se declarava acintosamente partidário. Durante a apuração presenciei uma acirrada discussão entre dois políticos, um dos quais mataria o outro no dia seguinte e fugiria amparado pela polícia.
Sem dúvidas evoluímos, as instituições se fortaleceram, a Justiça Eleitoral funciona, as urnas se tornaram eletrônicas, digitais, e a tecnologia afasta a possibilidade de fraudes, embora o poder econômico permaneça soberanamente intocado.

Nesse espaço de tempo que vai da urna e das atas de votação violadas e fraudadas até a identificação biométrica do eleitor, o Brasil tornou-se um país violento, e as elites ainda mais corruptas; mas em compensação as cadeias já são habitadas também pelos ricos e poderosos.
Entre tiroteios infindáveis nas favelas, vândalos que incendeiam ônibus, nos livramos do estigma da fome. Aquela desgraça social que sempre foi escondida começou a desaparecer e o Brasil segundo informa a ONU, saiu do mapa mundial da fome. Foram mais de quinze milhões de brasileiros que passaram a ter direito a um prato de comida.

 Essa façanha brasileira é resultado do voto livre, as mazelas que ainda nos atormentam poderão diminuir, e até desaparecer, se insistirmos em continuar votando com liberdade e consciência.
Meu voto hoje é a escolha óbvia feita entre um candidato que se construiu e se fez líder, e um outro pré-fabricado e manipulado para desempenhar o papel de governante subalterno ao irmão que o conduz, esse voto, é mais do que uma simples opção, porque significa, também, um protesto contra a devastação da ética que assola Sergipe.
Meu voto hoje é o resultado de uma atitude consciente, e também de um enorme sentimento de medo.

Medo de ver Sergipe dar meia volta no tempo e retornar ao passado de mandonismo, da cidadania sufocada, do povo riscado das decisões, da arrogância se sobrepondo à sensatez.
Quando o irmão de um conivente candidato ao governo vai a uma rede de emissoras que lhe pertence para ofender difamar e agredir pessoas em linguagem desabrida e chula, sem poupar nem mesmo uma mulher, mãe, que recentemente tornou-se viúva, e filhas que ainda choram a morte de um pai, surge em corpo inteiro a ameaçadora e tenebrosa imagem da canalhice que poderá tomar conta de Sergipe.
Quando a ambição desmedida se torna parceira do desatino o perigo nos ronda.

O voto que darei a Jackson Barreto, além da reação indignada a um grupamento político sem raízes populares, ou identificação com os movimentos sociais, destituído minimamente de valores éticos, é também, e sobretudo, o resultado da confiança em um político com uma biografia que o distingue dos omissos e dos carreiristas, porque se construiu nas lutas populares, e se engrandeceu na adversidade de tempos tormentosos.

Jackson fez o trânsito da oposição sempre barulhenta e cáustica para as responsabilidades que surgem com o peso dos desafios de governar, e saiu-se exitosamente. Domou os ímpetos, temperou o discurso, e revelou-se o administrador competente, dominado pela benfazeja ânsia de transformar o exercício do poder numa oportunidade para por em prática as ideias de justiça social das quais nunca se afastou.
As circunstancias complexas em que assumiu como vice do governador Marcelo Déda enfermo, e depois tornando-se governador efetivo, revelaram um Jackson Barreto maduro, reflexivo, entusiasmadamente dedicado às suas tarefas, querendo fazer sempre mais com recursos invariavelmente escassos, e Sergipe andou para a frente.
Com Jackson permanecendo no governo haverá a certeza de que Sergipe não retrocederá no tempo nem se transformará numa mesa farta para o banquete de mafiosos.