Ontem - hoje. E amanhã?

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Publicada em 07/10/2014 às 00:36:00

* Raymundo Mello

Aos oitenta anos de vida já se pode dizer que conheceu muita coisa. Não se trata de viagens internas e/ou externas que assegure a muitos dizer-se internacional e gabar-se de conhecer o mundo, suas belezas, originalidades, culturas, etc., ser um homem ou mulher, claro, que aviona para "as Oropas, França e Bahia" - é muito mais que isso - é já ter atravessado, ao passar dos anos, climas de liberdade (como atualmente, por força da Constituição cidadã vigente - 1988), climas de semiliberdade (anos 40 e 50), anos sem liberdade (1964 a 1980) e voltar ao bem, ao 'Libertas quae sera tamem' atual. Mas, me preocupa quando, principalmente em períodos de eleição, um indivíduo diz alguma coisa que sabe ou ouviu dizer sobre outro e esse outro, por sentir-se ofendido, imediatamente recorre à justiça, como se esta não tivesse tantas outras ações, às vezes mais necessárias e urgentes a serem analisadas e resolvidas, julgadas e encerradas. Os "disse me disse" ou "eu soube disso ou daquilo" divulgados na imprensa em seus vários níveis, poderiam ser esclarecidos e resolvidos como ensinou Jesus e está recomendado em Mateus 18, 15-18; não registro os versículos para que cada um dê-se o trabalho de consultar o Evangelho.

Escrevo como quem atravessou as épocas de 1940 a 1988. Anos quarenta e cinquenta, semiliberdade - oficialmente nada existia, mas, autoridades estaduais (Chefe de Polícia e comandados) restringiam a liberdade popular a seu bel prazer (não pode trabalhar aqui, não é de confiança, é comunista) e atacavam reuniões onde às vezes não estava se tratando sequer de política, mas, para "os homes", não era de confiança, coisa de esquerdistas e a perseguição ocorria, corre, fecha, bate e etc. ... e se fosse política, pior, esquadrão de cavalaria tentava amedrontar, principalmente os tidos como subversivos, comunistas e se esses não se aterrorizavam porque estavam exercendo seus direitos de cidadãos, tome patas de cavalos, surra de espada ou, infelizmente, tiros de fuzil, como aconteceu em 29 de novembro de 1947, em frente ao então cinema Rio Branco, Rua João Pessoa, centro da cidade, quando a polícia interrompeu um simples comício de protesto contra a cassação do Partido Comunista e aos tiros atingiu e matou o operário Anízio Dário.

É difícil fazer esses registros, mas precisam ser feitos, pois causaram muito mal e muita tristeza a todos os que amam e respeitam a liberdade. Já nos anos cinquenta, a repressão era feita também por militares da área federal - Exército, Marinha e Aeronáutica - e a repressão mais violenta era exercida pela Marinha: o Capitão dos Portos, pessoa de bom trato, respeitado em todas as áreas, era o terror de quem lia, estudava a doutrina marxista e, às vezes às claras, às vezes na surdina, se reuniam para analisar, debater, conhecer o que escreveram Marx e Engels em seus famosos manifestos. E não eram apenas operários e trabalhadores comuns não - lá estavam sempre médicos, advogados, empresários, professores e outros mais de famílias de respeito, ocupantes de funções de destaque e com sede de liberdade de poder debater e aprofundar suas ideias. Tomo a liberdade de citar alguns nomes - Dr. Armando Domingues, Dr. Carlos Garcia, Professor Manuel Franco Freire, Álvaro Santos, José Sampaio, Freire Ribeiro, Austregésilo Porto, Dr. Márcio Rolemberg, Walter Sampaio, Aloísio Sampaio, João Batista de Lima e Silva, Fragmon Carlos Borges, Dr. João Cardoso Nascimento Júnior, Robério Garcia e outros.

Entre esses outros, o meu patrão, homem sério, de muita responsabilidade, inteligente, de boa leitura, tranquilo, um cidadão digno de respeito - o senhor Manuel de Faro Sobral, sócio da firma Sobral & Cia., agente da Real Transportes Aéreos. Por essa empresa de aviação civil chegavam diariamente jornais do Rio de Janeiro e São Paulo - O Globo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Gazeta Esportiva etc. - que eram entregues aos representantes logo após o desembarque, para serem vendidos - chegou, recebeu, levou e, naturalmente, vendeu.

Entre esses jornais, uma vez por semana chegava um pacote de jornal de esquerda - Folha Popular ou Classe Operária (não lembro bem o nome) - do Rio de Janeiro, e, como sempre, o pacote era entregue a um rapaz, aparentemente acanhado e que, logo após retirá-lo, como os demais, saía sorrateiramente com os cerca de 50 jornais amarrados, colocava no porta-bagagem de sua bicicleta e desaparecia estrada a fora - chegava e saía calado, sempre aparentando pressa. O fiscal do estado que registrava as mercadorias desembarcadas e se considerava autoridade policial, passou a anotar esse jornal (os demais saiam sem registro - todos eram isentos de impostos) e tentava colher do rapaz informações sobre onde eram vendidos, quem era o agente, etc. ... mas não conseguia nada. No dia certo o rapaz chegava, encostava, Seu Sobral lhe entregava o amarrado de jornais e ele se mandava.

O fiscal denunciou o fato ao Capitão dos Portos e esse, de forma abusiva, intimou nosso patrão a prestar informações, a quem se destinavam os jornais, e dessa forma, sem qualquer documentação ou mandato judicial, deteve senhor Sobral, que foi colocado numa sala comum lá na Capitania dos Portos junto a outros comunas. Não houve comunicação a ninguém, inquiriu o homem sem admitir a presença de advogado e dez dias depois, do mesmo jeito que o prendeu, libertou-o. "Vá embora! E pronto!" - Sobral nunca entendeu porque uma pessoa que não demonstrou bons princípios, que devia uma satisfação ao detido e a quem de direito, não comportou-se como devia. E os reflexos de tudo isso: comunicados à direção da Real que, felizmente, ignorou as denúncias, mas comunicou-as para a empresa e ficamos sabendo que até funcionários da companhia agiram de má fé, denunciando o fato.

Fui com a caminhonete da empresa ao portão da Capitania, recolhi o senhor Sobral, barba e bigode crescido (o que não era de seu costume), abatido, cansado, e levei-o à sua residência. Nunca ninguém soube o que se passou com Seu Sobral naqueles dez dias.
Eu teria outra parte a acrescentar a este texto mas preferi não fazê-lo para não tirar o sentido desse registro, que é alertar sobre a necessidade de cuidados e a importância do bom entendimento entre os homens.
Os ideais divergem mas o respeito humano é indispensável. O diálogo engrandece!

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br