Ontem - hoje. E amanhã? (II)

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Publicada em 14/10/2014 às 02:19:00

* Raymundo Mello

Esses temas que abordo de memória já são publicados desde a Gazeta de Sergipe, levados pelo amigo Luiz Antônio Barreto, que, após o encerramento das atividades daquele importante órgão, passou a encaminhá-los ao Jornal do Dia onde são pautados, hoje, diretamente, pelo seu Editor Geral, Jornalista Gilvan Manoel, a quem agradeço de público pela atenção.
E, por intermédio deste órgão, chego a uma quantidade de leitores que nunca imaginei: recebo e-mails, telefonemas e comentários em encontros ocasionais com pessoas que nos leem; mais que isso, tenho a satisfação de ter reproduzidos (desde julho/2014) os artigos aqui publicados, através do "Blog Ney Vital - Rádio Nas Asas da Asa Branca", de Petrolina - PE e Juazeiro - BA, onde, segundo o jornalista que mantém programa radiofônico dominical, os temas são também comentados. Assim, essas nossas memórias já estão na rota Sergipe - Pernambuco - Bahia e, como o blog é lançado através da internet, estamos no mundo - acessou, leu. Lembro, despretensiosamente, aquele slogan antigo da Rádio Jornal do Comércio - "Pernambuco falando para o mundo" - e eu, daqui, escrevendo para o mundo! (Desculpem-me a brincadeira).
Bom, alguns amigos leitores me pediram para complementar o que eu ainda teria a acrescentar quando publiquei "Ontem - hoje. E amanhã?" (Jornal do Dia - edição de 07/10/2014), o que faço, a seguir, com o devido respeito às pessoas citadas no texto.
Vamos aos fatos. Lembro que o meu patrão, Senhor Sobral, por aqueles dias tinha sido detido na Capitania dos Portos, sem qualquer motivo que justificasse, o que, naturalmente, o deixou constrangido.
Os mais idosos lembram a figura do Senhor Tibúrcio, pessoa de respeito, circunspecto, alto funcionário de carreira do Banco do Brasil - cargo de chefia. Os menos idosos lembram seu filho, conhecido como Tiburcinho, que o pai, com seu prestígio, conseguiu nomeação para serviços subalternos no banco. Ia para o expediente extremamente bem vestido da cabeça aos pés, engravatado, mais apresentável que o gerente da agência. Entrava lordemente para trabalhar; lá dentro, tirava seus trajes de festa, vestia o uniforme de servente e cumpria o expediente, esquivando-se (passando longe do balcão) para não ser reconhecido com o uniforme, que era tirado assim que o expediente encerrava-se e ele saía do banco tão bem vestido como entrara. Era festeiro, vivia entre os considerados "gente bem" e citado pelos cronistas, queria estar em todas as boas festas e recepções; e conseguia.
Naqueles dias, o Capitão dos Portos ofereceu uma recepção a convidados em número extremamente reduzido - convites esgotados, o que deixou Tiburcinho chateado: não poderia perder aquela festa e resmungava entre seus amigos. Um deles, comerciante (artigos de pesca esportiva para ricos), Juarez Gomes da Rocha, ouve sua lamentação e, a título de brincadeira, diz: "Tiburcinho, você está lamentando porque quer - vá aí, no escritório da Real, procure Sobral, e peça a ele pra lhe arranjar um convite - ele é tão amigo do Capitão que passa dias hospedado naquela casa nobre ao lado da Capitania. Há poucos dias ele foi hóspede do Capitão por 8 ou 10 dias. Fale com ele que ele consegue"; e ficou rindo, pensando que Tiburcinho entendera a brincadeira. Ele não entendeu, acreditou no que Juarez havia lhe dito e não conversou - caminhou para a Agência da Real e foi pedir o favor.
"Sobral, eu soube que você é amigo íntimo do Capitão dos Portos, que de vez em quando ele lhe convida e lhe hospeda por 8, 10 dias. Ele está dando uma festa por esses dias para convidados especiais, você, naturalmente, vai estar lá; consiga-me um convite ou leve-me como seu convidado. Vou ficar muito grato a você".
Senhor Sobral, homem digno, constrangido, não deu resposta a Tiburcinho - deixou-o no meio da sala, calado, e foi continuar seu trabalho, sério e silencioso.
Naquele instante, um arrastar de cadeira, passos fortes e rápidos, Senhor Barbosa, sócio e grande amigo de Sobral, caminha para Tiburcinho, pega-o pela lapela do paletó, dá uns dois balanços e diz a plenos pulmões: "Moleque, irresponsável, sem respeito. Fora daqui!" - puxa-o para a porta; "quarta feira, na reunião maçônica, onde eu e seu pai somos irmãos de ordem, vou comunicar a ele a sua irreverência e dizer a ele que você é pessoa não grata aqui em nossa empresa; fora, fora daqui!" - e deixou-o na porta da rua.
Não sei se depois o assunto foi esclarecido, mas, empregado da firma, assisti tudo e lamentei o ocorrido.
Se o Capitão não tivesse sido "mais realista que o rei", tivesse se comportado como um democrata, esse fato, tão constrangedor, não teria acontecido. E, como um assunto sério, ao ser tratado com irreverência, causou tantos danos: Juarez, chateado por ter transmitido a Tiburcinho a informação inconsequente, alegou que julgava estar apenas brincando, pois o fato não era segredo. Tiburcinho, nas nuvens, não entendia por quê foi considerado "persona non grata" entre os sócios da empresa. Seu Sobral, um constrangimento a mais, tão inoportuno quanto indevido. Quanto ao assunto entre Barbosa e Tibúrcio (pai), ficou em surdina, foi tratado "entre colunas", no interior indevassável da Loja Maçônica.
Assuntos sérios não devem e não podem ser tratados como brincadeiras!
Como citei ao iniciar o artigo anterior (Jornal do Dia - edição de 07/10/2014), trago essas memórias à tona como pano de fundo para registrar minha preocupação com questões éticas nos períodos de eleição. Na primeira parte, referi-me às incursões ao judiciário por um ou outro "disse me disse", quando a boa conversa esclareceria verdades ou mentiras; neste texto, destaco o cuidado que é preciso ter com a inconsequência de informações jogadas ao vento.
Concluo com a mesma frase com que encerrei o texto anterior, para deixá-la, como uma máxima, bem gravada na mente dos amigos leitores: Os ideais divergem mas o respeito humano é indispensável. O diálogo engrandece!

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br