Resultado das eleições gerais - Um espantoso mundo velho

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Publicada em 14/10/2014 às 00:20:00

MIGUEL DOS SANTOS CERQUEIRA

O resultado eleitoral, que saiu das urnas no primeiro turno das eleições gerais do último 05 de outubro, merece uma análise, talvez precária, porém lúcida e desapaixonada, do saldo que ficou das jornadas de maio e junho e 2013 e dos entreveros ocorridos durante o curto espaço da campanha na televisão.

Excluído-se da análise o resultado eleitoral que advirá do segundo turno, que diferente do que se supõe, não se trata do somatório dos votos dos que se antagonizam entre si, mas sim uma espécie de liga ou solda siderúrgica entre os interesses de classe, os preconceitos arraigados ou emergidos subitamente, a defesa de privilégios perdidos, o horror contra a inclusão social e a saudade por um tempo pretérito no qual cada segmento, no caso a classe média branca e proprietária, detinha a reserva de mercado em determinado setor da sociedade,  notadamente nas universidades  públicas, nos cursos considerados de ponta,  citem-se, direito, medicina, engenharia, e, ainda, nas cadeiras dos aviões, por exemplo; o que se viu no resultado das eleições para o Parlamento,  ao contrário de pretensões por avanços progressistas, foi a ânsia pelo regresso; a reação avançando indômita na pretensão da alteridade, demonstrando cabalmente que a indignação e a revolta difusa, própria do anarquismo pequeno burguês, nem sempre ancora em portos libertários.

A questão aqui posta não tem nada de novo. Vladimir Maiakovski, aquele poeta trágico que, decepcionado com os rumos da Revolução Russa, cometeu suicídio em 14 de abril de 1930, em umas das suas mais famosas peças de teatro, uma alegoria, intitulada "O Percevejo", retrata a situação que emergiu na Rússia no interregno posrerior a derrubada do governo de Alexander Fyódorovich Kérensky, a Guerra Civil entre Brancos e Vermelhos,  a NEP- Nova Economia Política e a consolidação do Stalinismo.

No período conhecido como a NEP- Nova Economia Política, para fazer face a crise econômica, com falta de víveres, completa débâcle do sistema produtivo, os então revolucionários, Lênin e Bukharin,  à frente, uma vez que deles só discordam aqueles do chamado bloco de Esquerda, elaboram um plano econômico de concessões e pacificação social que possibilitasse o ingresso de inúmeros segmentos da anterior sociedade à classe média, ocorreu assim um choque de capitalismo, como a liberalização do pequeno comércio, o fortalecimento do mercado interno, a democratização da propriedade pelo seu fracionamento, nessa conjuntura ocorreu a retomada do crescimento econômico, enriquecimento de segmentos emergidos das bordas e um desenfreado consumismo por parte desses. Por outro lado, ocorreu que aqueles que foram beneficiados pela Revolução, uma vez tendo ingressado nas chamadas classes médias, se miraram no exemplo dos anteriores senhores das terras e do capitães do capitalismo incipiente, a chamada "burguesia", passando a compor o exército dos regressistas, dos que são tidos na peça de Maiakoviski como sendo os "Percevejos", "Os lambe-botas", aqueles que chupam sangue e bajulam, que naquele contexto histórico preparam o terreno para a ascensão do Stalinismo, que se tratou de uma deformação ou traição da revolução, com a sua apropriação pelos burocratas e os setores que emergiram para a classe média com a política da NEP.

De fato, a exemplo do momento histórico da NEP, o que se viu das eleições gerais no Brasil ocorridas no último 05 de outubro foram que àqueles beneficiados com a política econômica de democratização dos "benefícios" do capitalismo, que permitiu o acesso às chamadas classes médias de alguns segmentos que se encontravam nas bordas, se voltarem egoisticamente contra qualquer possibilidade de avanço econômico ou institucional que permitam novas inclusões, a adesão maciça desses setores ou segmentos a um moralismo falso e tacanho, tipicamente individualista, e a uma política de regresso, um quadro que nada fica a dever àquele retratado por Vladimir Maiakovski na sua peça "O Percevejo".

O resultado das eleições do último dia 05 de outubro para o Parlamento, indubitavelmente, contraditaram a ânsia de mudanças no sistema político e eleitoral que parecia emergir das manifestações de maio de junho de 2013. Sem qualquer dúvida, o fato do avanço das forças retrógradas, do aumento de parlamentares que representam o pensamento dos reacionários, da ideologia anti direitos-humanos, de egressos do pensamento em favor do recrudescimento de um modelo do direito penal do inimigo, de deputados eleitos dentres os prosélitos do fundamentalismo religioso e daqueles que em sua maioria são contra as políticas de reparação, daqueles  que defendem o extermínio de remanescentes indígenas e quilombolas  demonstra claramente que o ingresso de setores das bordas ao círculo das tidas classes médias, sem que esses setores que emergiram tenham efetivamente se convertido ao credo da solidariedade ou da fraternidade, a exemplo do que ocorreu na Rússia no período da NEP, favorece é o surgimentos dos "Percevejos", dos chupa sangue, daqueles que, no caso do Brasil, são saudosistas de um tempo em que as empregadas domésticas não detinham quaisquer direitos, de que aos negros cabiam exclusivamente o espaço das favelas ou nos andaimes da construção civil, de que levas de pais e filhos expulsos das suas terras, então na condição de migrantes, sem acesso a um pão sequer, se deixavam escravizar nas lavouras de cana de açúcar ou de laranja.    
O notável nesse espantoso mundo velho é que a indignação e a repulsa como as transformações que diminuem gradativamente as desigualdades não são vociferadas abertamente pelos mangagões, pela alta burguesia do capital industrial e financeiro, essa apenas estimula os preconceitos através dos meios de comunicação de comunicação de massas, através dos jornais, revistas e televisões.

De fato não são os industriais da Avenida Paulista que amaldiçoam o "Bolsa Família", a política de cotas sociais e raciais , o fato de terem que dividir assento nas cadeiras de aviões com pedreiros e empregadas domésticas, aqueles que amaldiçoam essas transformações como sendo subversivas, uma vez que marcam uma certa indiferenciação entre classes, esses setores usam a boca de ventríluquos, são os setores das antigas classes médias ressentidas e atuais classes médias vaidosas, são os burocratas, os funcionários públicos, são os médios e pequenos comerciantes que destilam ódios e preconceitos a pleno meio dia e na surdina das urnas clamam pela emergência da reação.

Independentemente do que venha parir as urnas no segundo turno das eleições, se o até ontem imprevísivel sucesso do "Cavalo de Tróia" construído pelos rentistas, por aqueles que almejam se desvencilhar das peias que freiam a maximização dos lucros pela precarização de direitos e salários ou, se, ao contrário a permanência do modelo atual de reformismo e inclusão social lento e gradual, do modelo aparentado como o "fordismo" americano que pressupunha um capitalismo que tangenciava interesses das massas de trabalhadores e não exclusivamente os privilégios exclusivos de Wall Street, certo é que a leitura que se deve fazer dessas eleições não prescinde da análise do resultado das eleições para o Parlamento ocorrida no último dia 05 de outubro, da sua composição e do que advogam os seus membros.
De fato, o que se assistiu na eleição para o Congresso Nacional, para  o Parlamento, foi a mudança de parte do mobiliário da sala, a sua substituição por um outro,  e esse mobiliário não é o mais harmonioso.

Tendo em vista que nos últimos tempos os movimentos sociais foram desbaratados, engessadados como contraponto aos organismos estatais, restando um ou outro aqui e acolá,  as portas abertas ao direitismo deslavado e para o regresso, de início pode não encontrar freios para o seu ímpeto,  uma vez que as tramóias não se dão as escâncaras e os conluios para a permanência do espantoso mundo velho, da imutabilidade ou prevalência dos interesses das finanças, do capital industrial e financeiro em detrimento dos interesses do conjunto da nação, do que se apelidou nessa campanha de "velha política", se dão na calada da noite.

Parece uma medonha profecia, mas a conjugação da emergência do Cavalo de Tróia como o avanço da tropa de reacionários no Parlamento, como tem sido repetida vezes denunciado por figuras notoriamente difamadas na história da humanidade, conformará os interesses dos novos e velhos "percevejos", cujo exemplo categórico é o da Rússia Stalinista, do Chile que emergiu da derrubada de Salvador Allende por seu até então Chefe do Estado Maior, Augusto Pinochet, e, recentemente, o da Itália que saída da euforia da operação "Mãos Limpas", que culminou com a destruição de todos os partidos políticos, tidos por elameados com a corrupção, presenteou o povo da "península" com a figura "exemplar" de operador da chamada boa política, ou política dos cidadãos impolutos e honestos, de arauto dos interesses de conservação das classes médias, de nada mais nada menos do que Silvio Berlusconi.           

* MIGUEL DOS SANTOS CERQUEIRA, Defensor Público titular da Primeira Defensoria Pública do Estado de Sergipe, e-mail migueladvocate@folha.com.br