Soberba e manipulações

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Publicada em 13/10/2014 às 22:50:00

O resultado das eleições da semana passada para o governo de Sergipe e o Senado Federal revela uma grande contradição: a reeleição do governador Jackson Barreto (PMDB) mostrou que a força do dinheiro não foi suficiente para que o eleitorado aceitasse aventuras, vetando a ascensão de um grupo político capaz de qualquer negociata com o Estado; para o Senado, no entanto, o poder financeiro foi fundamental para assegurar a apertada reeleição da senadora Maria do Carmo Alves (DEM) contra o deputado federal Rogério Carvalho (PT).

Jackson e Rogério tiveram que enfrentar o poderio do dinheiro unificado em torno das campanhas de Eduardo Amorim (PSC) e Maria do Carmo, a manipulação dos noticiários das emissoras de rádio e televisão dos grupos Franco e Amorim, além das falsas pesquisas de opinião pública divulgadas ao longo de toda a campanha, inclusive na véspera do dia do pleito.

No dia 4 de outubro, como a vitória de Jackson já estava consolidada no primeiro turno e não havia mais nada a ser feito, o ex-governador Albano Franco, pai de Ricardo, candidato a primeiro suplente de Maria, e o prefeito João Alves Filho, marido da senadora, se mobilizaram tentando evitar a vitória de Rogério a qualquer custo. Começaram manipulando as pesquisas do Dataform, divulgada pelo jornal Cinform que foi distribuído por todo o Estado, e à noite, na própria TV Sergipe, foi apresentada uma pesquisa Ibope em que Rogério tinha a metade das intenções de votos da senadora. Caso semelhante só ocorreu em 1994, patrocinado pelo mesmo Ibope e o mesmo Albano, que adiou por 20 anos a chegada de JB ao governo de Sergipe.

Vitória incontestável - A vitória do governador Jackson Barreto com mais de 122 mil votos de frente, em primeiro turno, calou a boca dos irmãos Amorim, que desde a eleição de Eduardo para o Senado, em 2010, iniciou o loteamento de cargos no Executivo e, inclusive, em outros poderes, principalmente a Assembleia Legislativa, incluído ai também o Tribunal de Contas.

A partir do final do primeiro ano do segundo mandato do governo Marcelo Déda, os Amorim passaram a mostrar os dentes, impondo derrotas legislativas duras ao governador, inclusive rejeitando projetos fundamentais para o desenvolvimento de Sergipe. Não respeitaram sequer a doença e o doloroso tratamento enfrentado por Déda, que acabou provocando a sua morte em dezembro de 2013. Eles já haviam loteado o Estado e agiam como se já estivessem no comando do governo.

Jackson se transformou em governador titular pela fatalidade da morte de Déda, enfrentou com rigor os problemas econômicos do Estado, reoxigenou a máquina administrativa, teve a coragem de denunciar as pretensões patrocinadas principalmente por Edivan Amorim contra o próprio Estado e pavimentou o caminho para se transformar num candidato competitivo antes mesmo do início da campanha eleitoral.

No final de junho, quando foram realizadas as convenções partidárias, JB já estava em situação de empate técnico com Amorim e, a partir daí, mesmo com a unidade de toda a burguesia e dos políticos mais retrógados do Estado, a sua candidatura não parou mais de crescer, até a vitória no domingo passado. Jackson incutiu na cabeça do eleitor, que a sua candidatura representava o bem e a de Amorim, o mal, já que eles não possuíam serviços prestados ao Estado e queriam transformar o governo num balcão de negócios.

A força de Rogério - Para se transformar em candidato a senador, Rogério Carvalho teve que pacificar o PT, garantir apoio a candidaturas de tendências opostas e mostrar que tinha condições de virar o jogo contra a favorita Maria do Carmo. Chegou ao final da campanha em condições de igualdade, mas enfrentou muitos golpes sujos e o poderio financeiro do ex-governador Albano Franco, principal financiador da campanha de Maria em função da suplência de seu filho, e as manipulações eleitorais das TV Sergipe e Atalaia e do jornal Cinform. Rogério acabou perdendo por uma diferença de 3%, quando na véspera da eleição, Ibope e Dataform previam vitórias retumbantes de Maria.
"As pesquisas que foram divulgadas na última semana me prejudicaram. Assim como ocorreu em 94 com Jackson Barreto e em 2006 com Déda. As pesquisas foram divulgadas com a intenção de prejudicar minha candidatura. Só na última semana foram divulgadas três pesquisas fraudulentas", afirmou Rogério.

Na sexta-feira, num programa de rádio, Rogério citou nominalmente os veículos de comunicação que patrocinaram as pesquisas falsas e disse que os números do Ibope que a TV Sergipe apresentou no sábado, véspera da eleição, mostravam levantamento feito 15 dias antes. "Eles me prejudicaram deliberadamente para que um político que não foi votado possa assumir uma cadeira no Senado", denunciou, referindo-se a Ricardo Franco, filho de Albano.
Esta campanha eleitoral mostrou que as elites sergipanas topam tudo para continuar no controle do poder. Inclusive gastar fortunas e manipular veículos de comunicação que são concessões públicas e institutos de pesquisa. O eleitorado é mais sábio do que o dinheiro deles.

Manipulações
As manipulações do Ibope e TV Sergipe nas pesquisas para o Senado forçaram o instituto a divulgar nota após a eleição tentando explicar o inexplicável. De acordo com a última pesquisa do Ibope, divulgada um dia antes do pleito, Maria seria reeleita com 61% dos votos válidos, enquanto Rogério ficaria com 36%. Mas, abertas as urnas, os números foram outros: Maria venceu com 48,91% e Rogério obteve 45,52%. Ou seja, a pesquisa, que tinha margem de erro de três pontos, acabou turbinando em 12 pontos a campanha de Maria, prejudicando o petista.

Ascensão
Segundo o Ibope, "a curva de ascensão de Rogério, que teve 23% dos votos válidos na primeira pesquisa, 32% na segunda, e 36% na terceira e última rodada, permitia supor uma proporção mais alta de votos para o candidato do PT no dia da eleição". E conclui, depois que a manipulação provocou efeitos nefastos na política: " Reforçamos sempre que o objetivo da pesquisa não é prever ou antecipar o resultado das urnas, mas sim contar a história do processo eleitoral até determinado momento, o que nos permite identificar a ocorrência e direção das movimentações existentes, e com isso subsidiar a análise das tendências mais prováveis". Ou seja, pesquisa só serve como instrumento de manipulação.

Mudanças
Trecho de artigo do publicitário e jornalista Carlos Cauê, responsável pelo marketing da campanha de JB: "Do nosso lado, tivemos um candidato robusto, sério, com uma biografia consolidada na vida sergipana e que abraçou o desafio de fazer-se governador eleito de Sergipe de modo responsável e fiel aos valores políticos do grupo que representa em Sergipe as mudanças iniciadas por Marcelo Déda. Além disso, Jackson tem uma disposição para o trabalho que não deixa dúvidas quanto à sua tenacidade. O marketing, portanto, deveria estar à altura desses pressupostos. E esteve".

Prioridades
Jackson foi reeleito, mas como só se tornou governador efetivo no final do ano passado, teve a oportunidade de encaminhar na semana passada para a Assembleia Legislativa o primeiro orçamento do Estado definindo claramente as suas prioridades. Para o próximo ano, ele priorizará as áreas de saúde, educação e segurança. Para isso, ele enviou a proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) para Assembleia Legislativa que prevê 77%  (R$ 6,6 bilhões) do orçamento anual para essas áreas. O valor total do orçamento é de R$ 8,625 bilhões. Quem vota o orçamento são os atuais deputados estaduais. Os eleitos no domingo passado só tomam posse em primeiro de fevereiro.

Baixarias
Ao vencer no primeiro turno, Jackson evitou as baixarias que a presidente Dilma está tendo que enfrentar neste segundo turno. Até em Sergipe, onde Aécio não tem qualquer chance de vitória, os seus aliados estão querendo cantar de galo. Inclusive o derrotado Eduardo Amorim e o vice-prefeito José Carlos Machado. Uma eventual derrota de Dilma daria fôlego novo a esse povo, que passaria a controlar os cargos federais no Estado.

Empenho
A visita da presidente Dilma ao Estado, na quinta-feira, serviu para mostrar a unidade dos partidos que apoiaram a reeleição de Jackson. O governador reeleito, inclusive, chegou a suspender uma pequena viagem de descanso para se dedicar ao segundo turno da campanha presidencial.

Márcio
O deputado federal Márcio Macêdo (PT) está empenhado na campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). Além de participar do ato de apoio à petista em Aracaju na última quinta-feira (9), quando Dilma esteve em Sergipe, o parlamentar realizará neste domingo, 12, e na segunda-feira. 13, panfletagens na capital em apoio à candidata. "Vamos trabalhar firmes e com afinco até o dia do segundo turno em prol da reeleição da nossa presidenta Dilma, que tem demonstrado muito compromisso com o povo de Sergipe", afirmou.

Futuro
O deputado Rogério Carvalho garante que não irá disputar um cargo eletivo nas eleições de 2016, mas que irá participar de forma a ajudar o seu partido. Rogério disse que retorna ao cenário político em 2018. No PT ninguém tem dúvidas de que ele pretende disputar a prefeitura de Aracaju daqui a dois anos.