Os 30 anos de um clássico adolescente

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Bill Murray, sempre muito acima da média
Bill Murray, sempre muito acima da média

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Publicada em 18/10/2014 às 00:30:00

* Anderson Bruno

"Os Caça-fantasmas" (Ghostbusters, Ivan Reitman, EUA, 1984, 107 min) foi o último dos clássicos exibidos pelo Cinemark. A projeção marca o aniversário de 30 anos de lançamento do filme como também o término da terceira temporada desse nostálgico evento.

Uma parte importante para o sucesso do longa está na composição engraçada do personagem Peter Venkman, cientista dramatizado por Bill Murray. Seu tom sarcástico e bufão elevam o interesse da plateia em acompanhar o quarteto caçador de fantasmas pela cidade de Nova York. O gênero característico do filme é a comédia. E qualquer produção desse estilo, para manter o interesse dos pagantes, precisa de um profissional não apenas treinado na técnica do fazer rir. Ele também precisa ter um pouco de Dom para se destacar dentre as outras produções do mesmo nicho.

Nota-se que Bill Murray trabalha bastante o improviso, característica marcante e que diferencia um bom e um mediano ator de comédia. Ele consegue absorver a sequência e extrai dela sua própria visão de cena. A partir disso, suas peripécias afloram compondo de maneira elevada a interpretação e a personalidade palhaça do Sr. Venkman.

Um bom exemplo está no momento em que ele fica todo enlambuzado ao ser atacado pelo fantasma 'Geléia'. Como suas mãos estavam cheias de gosma, ele as limpa nas fichas de papel do acervo da biblioteca da cidade. O ator poderia simplesmente se retirar de cena, mas ao invés disso, ele a executou naturalmente movido por um 'insight' cômico. Um improviso. Essa abordagem interpretativa continua em outras cenas.  É simplesmente formidável vê-lo atuar.
Os coadjuvantes Dana (Sigourney Weaver), Dr. Ray (Dan Aykroyd), Dr. Egon (Harold Ramis), Louis (Rick Moranis), Winston (Ernie Hudson) e Janine (Annie Potts) complementam as gargalhadas num verdadeiro ode à arte do riso.

O final da sequência inicial do filme (na biblioteca) é fantástica em sua edição. Os montadores David E. Blewitt e Sheldon Kahn criaram uma progressiva tensão. Sabemos que há um fantasma naqueles corredores. O que não sabemos é como ele vai ser revelado. A trilha sonora de Elmer Bernstein acompanha o ansioso momento passo a passo. A câmera segue a desavisada bibliotecária. Ela está sozinha. No ponto exato de sua aparição, apenas nos é mostrado em close a cara assustada da mulher num grito histérico. A fotografia de László Kovács ilumina todo o seu rosto, o logotipo dos caça-fantasmas aparece, fecha bem na cara da funcionária e a música tema da produção "Ghostbusters" (até hoje é um hit a música composta e interpretada por Ray Parker Jr.) sobe num 'background' para sermos apresentados ao filme de fato. Detalhe: o espírito não é mostrado, mas sabemos que ele está por lá e que mais cedo ou mais tarde vai querer assustar outro desavisado. A platéia espera ansiosa por um novo ataque.

Esse fator surpresa é revelado nas flutuantes assombrações projetadas graças aos efeitos especiais de Richard Edlund, John Bruno, Mark Vargo, chuck Gaspar e equipe. Ainda hoje o efeito criado para materializar em celulóide esses seres do além são bem convincentes. A exceção está nas cenas dos guardiões do vilão 'Gozer,o gozeriano'. Dá pra perceber o quanto os efeitos envelheceram quando esses monstrengos entram em cena. Parecem uma colagem mal feita.
A sequência final com a materialização de um imenso boneco de marshmallow a causar o pânico por entre as ruas de Nova York é inesquecível.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.