Robin hood + Terceiro Mundo = Trash

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Trinca juvenil é a alma de \"Trash\"
Trinca juvenil é a alma de \"Trash\"

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Publicada em 25/10/2014 às 00:49:00

* Anderson Bruno

Volta e meia, a cinematografia brasileira consegue uma projeção internacional. "Trash - A Esperança vem do Lixo" (Trash, Stephen Daldry, Reino Unido/BRA, 2014, 114 min) é uma produção tupiniquim em parceria com a Grã- Bretanha. A produtora brasileira de filmes O2 (de Fernando Meirelles) se juntou à londrina Working Title na feitura do longa.
Pela enésima vez é construída uma história acerca da miséria, exclusão e das favelas do nosso País. Uma pena nossa cinematografia ser estigmatizada apenas pelo viés apelativo e conveniente dos morros.
O roteiro de Richard Curtis - de "Quatro Casamentos e um Funeral" (1994) - e "Um Lugar Chamado Notthing Hill" (1999) - cria uma trama em cima de três adolescentes das ruas cariocas: Rafael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luís) e Rato (Gabriel Weinstein).
Os três personagens principais dessa história são oriundos do livro "Trash" do escritor inglês Andy Mulligan. Ele faz trabalhos educacionais em vários países do mundo e suas experiências aqui no Brasil redundaram nesse livro que deu origem ao filme.

A trinca juvenil é a alma de "Trash". O trio está bastante entrosado e com interpretações dignas de deixar qualquer Selton Melo no chinelo. O ator de "Meu Nome não é Johnny" (2008) também está na produção. Frederico, um corrupto chefe de polícia, é o seu papel. Nosso amigo é um intérprete de estabelecido reconhecimento dramático. Por isso mesmo foi escalado para o elenco. Só que aqui ele peca um pouco por querer enfeitar o personagem sem necessidade. Selton parece ter se empolgado e se entusiasmado um pouco com a internacional produção. O tipo malvado que bate em luva de pelica acabou não sendo uma de suas melhores composições. Essa persona construída não constrói e nem conclui nenhum conflito de personalidade mais profundo em nenhum momento do longa. É simplesmente um policial sacana e pronto! A plateia acredita que vai haver alguma revelação bombástica vinculada a ele ou que uma reviravolta vai irradiar a partir de sua personalidade, mas nada acontece. Seu papel é apenas um simples coadjuvante e mais nada.

Já Wagner Moura tem melhor sorte. É dele o papel de José Ângelo, empregado do deputado ladrão de pré nome Santos (Stephan Nercessian). Parte de suas ações o desenrolar de todo o filme. Ele guarda na carteira informações capazes de levar à cadeia o parlamentar ladrão. O jogo de gato e rato se estabelece e as provas acabam caindo nas mãos dos meninos.
O ator de "Tropa de Elite" (2007) também é um coadjuvante e todas as suas cenas são reproduzidas em momentos de flash-back. Ele apenas divide um momento com Selton Melo. Wagner sim desempenha de maneira tranquila e sóbria um papel pequeno e dentro daquilo que lhe cabe, sem ter a necessidade de ir mais além como Selton o fez.

O filme parece ser uma mistura de liturgia de terceiro mundo com Robin Hood. No final é mais uma história a elaborar um perfil nebuloso e verdadeiro do Brasil, mas que já ficou batido  tamanha é sua reprodução em outros longas. É a exploração dos meninos de rua, dos trabalhadores de lixões e da religiosidade do povo brasileiro (vide o Cristo Redentor cravado no Rio). Tudo misturado numa redundante lição de moral e esperança onde a parte má do maniqueísmo estabelecido é vencida pela parte boa. Nenhuma novidade a partir daí: os maus políticos são revelados, todo o dinheiro volta a ser dos mais pobres e todos vivem felizes para sempre no verdadeiro paraíso tropical que é o nosso País.
Os americanos Martin Sheen (Padre Juillard) e Rooney Mara (Professora Olívia) lideram o elenco gringo da produção.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.