CONVITE PARA JANTAR

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Publicada em 26/10/2014 às 00:32:00

* Paulo Fernando  Morais                             

Começo da manhã de 2 de abril de 2008. Outono.                                                                                                                    
Ivan afastou a cortina do quarto, abriu um pouco a janela e foi envolvido por uma brisa ciciante e aromática. Comparou a sensação primaveril extemporânea ao reencontro de velhos amigos, que logo se despedem para escapar do vácuo de comunicação entre eles.

Dessa feita os habituais sinais indicando-lhe a mudança do tempo não foram  recebidos como se fossem o começo de vida nova, pelo contrário, deixaram-no apreensivo.  
A cabeça vagueava como se houvesse despertado de um sono de recém-nascido, ao passo que o corpo inteiro pulsava com a determinação de um maratonista. Seria o início de novo ciclo de sintonia com a natureza, ou um presságio que escapava à sua faculdade de entender o tempo e seus efeitos?
A alteração de humor motivada por essa expectativa não o dispensou da rotina diária: olhar com piedade sua mulher doente Manuela, que se agitava na cama se protegendo  dos fantasmas que povoavam seus pesadelos de enferma.

Entre julho e agosto, mais do que a precedência de outros períodos do ano, havia uma mexida caprichada no organismo de Ivan que o avisava da chegada da primavera.  Qualquer coisa indefinível desafiava seu entendimento: sentia-se transportado para um mundo recente e edênico.
Os padecimentos de Manuela, acometida de desordem mental desconhecida, poucos anos após o casamento, desabaram sobre o casal como um aguaceiro de águas deletérias.
A enfermidade avançou pelo corpo desfigurando-o; o apetite voraz por alimentos destruiu-lhe qualquer sinal de vaidade. Passava a maior parte do dia na varanda do apartamento, o olhar repousado no mar longínquo e sereno, enquanto dava na mão alpiste a bem-te-vis  migrantes e pardais domesticados, e ela própria se empanturrava de pães e doces.

Seu apego ao marido era obsessivo e submisso. A despeito das fugas da razão, com ele construía diálogos claros originários de pensamentos metódicos, o que se espera de uma pessoa mentalmente saudável. Esses momentos de equilíbrio produziam nele um efeito cruel levando-o a refletir se tais ocorrências eram reais ou criadas por sua mente, talvez já contaminado pela doença de Manuela.
O ardor de homem apaixonado esfriara e dera lugar à comiseração - o sentimento mais corrosivo na relação entre casados -, inabilitado para libertar a mulher da  indigência mórbida.

De temperamento tímido e escrupuloso, fantasiava namoros com amigas de Manuela, mas de um jeito tão secreto que elas, além de não desconfiarem de sua intenção, o temiam achando que as detestava.
Naquela manhã de abril, Manuela agarrou Ivan com ímpeto e mãos tenazes, e só o largou depois de engolir psicotrópicos, quase à força. Após a cena deprimente,  o marido deixou-a sossegada em seu refúgio mental. Vez por outra, o silêncio dela era quebrado por monólogos intraduzíveis, à medida que caminhava pelo apartamento inteiro até se acalmar na varanda com a visita da passarada.
No caminho para o trabalho, Ivan voltou a inalar a essência primaveril em pleno outono, agora interpretada como premonição.

Como de costume, mais tarde Manuela escapou do seu abrigo compartilhado com criaturas que sua cabeça gerava, e telefonou várias vezes ao marido com conversas longas e de conteúdo recorrente, quase cópias dos diálogos que os dois mantinham antes de ela adoecer. O médico explicou que os interstícios de lucidez, cuja repetência não era normal, constituíam-se enigmas da doença, e que ele, Ivan,  representava a única ligação da mulher  com a vida real.- A comunicação é permanente, doutor.   São conversas de quem tem a mente arrumada! Além de perguntas, faz sondagens, cogita. Ou estarei sofrendo do mesmo mal ao defini-la como se não fosse doente? Tirando seu desleixo com as roupas e o corpo, penso que o mais é encenação para me deixar subjugado.- O médico sorriu. - Não creio em ninguém capaz de representar durante tanto tempo, com mestria extraordinária capaz de iludir o marido, médicos e leigos. Embora o diagnóstico não tenha a precisão desejável, psicose de etiologia desconhecida, isto é, sem causa descoberta, não vejo no momento nada que me leve a endossar seu receio. Tenho até a impressão de que as chaves que irão fechá-la em seu mundo estão chegando.    

Dias mais tarde, a impressão de primavera temporã estava explicada e personificada, aguardando Ivan na antessala do seu gabinete: a nova gerente de um banco do qual era cliente. - Já o conheço de nome, dr.Ivan. O senhor é um parceiro especial. Precisamos de empreendedores do seu jaez. -  As palavras soaram convincentes, principalmente "jaez", pronunciada como se ela fosse a autora. O empresário detectou  nuanças na entonação, na clareza da pronúncia, na objetividade da frase. Viu além: apesar do profissionalismo da executiva, percebeu algo pessoal naqueles elogios. Envolvido pela beleza e pelo requinte da funcionária, ficou confuso, desobrigou-se de qualquer cautela e a convidou para almoçar, mas Heloísa já havia marcado outro compromisso: .- Fica para outra vez, dr.Ivan. Terei o maior prazer.- Deixemos de lado o formalismo: me chame apenas de Ivan.- A gerente sorriu: - Tudo bem...Ivan.
Tudo bem demais, porque ele passou o restante do dia desafogado com a descoberta de que a primavera antecipada se chamava Heloísa e era dela o aroma que ainda o impregnava.

Quando chegou a casa, abraçou Manuela como há muito não o fazia. A mulher o olhou como se fosse cega, disse alguma coisa inaudível, e sorriu com a revoada dos pássaros.  Ivan relatou as mesmas histórias de todos os dias dessa feita entremeando-as de gracejos. Motivado, mais paciente do que nunca, fez-lhe agrados. Ela os aceitou com gélido descaso, como se o corpo não fosse  dela.
A preocupação com seu estado de saúde, que parecia ter piorado, não o sensibilizou suficientemente para desalojar a bancária do pensamento. Teve uma noite turbulenta, levantou-se várias vezes, acompanhava as horas que se arrastavam quanto mais ele as desejava rápidas.

Nos dias seguintes, antes de sair para o trabalho, já não houve motivo para livrar-se dos abraços estranguladores de Manuela, cuja caminhada para o irreal ia aos saltos, mantendo-a a maior parte do dia na cama. A fase era de pouca comida e mutismo. O médico foi informado e acalmou Ivan, dizendo-lhe que estava próximo de um diagnóstico conclusivo. Que o aguardasse nos próximos dias.
Heloísa, loquaz e persuasiva, fez com que o empresário depositasse todo o numerário da empresa em sua agência.

Infelizmente, ainda não agendara o almoço, porque  eram muitos os compromissos assumidos antes de conhecê-lo. -  Vou ver se dou um jeitinho...espere...achei: em vez de almoço, podemos jantar no dia 28, está bom? - Excelente!, entusiasmou-se Ivan.
Melhor não podia ser: um jantar, não um almoço!, dali a quarenta e oito horas. A ansiedade cravara-se nele e não o largou durante as horas seguintes.
No dia combinado, voltou para casa mais cedo. Passou pela cozinha para avisar à cozinheira que ia jantar fora. Entrou no quarto, empalideceu; as pernas fraquejaram; sentou na cama para não cair: Manuela estava irreconhecível, vestida com roupa de festa e maquiagem de atriz.- Você hoje está muito bonita!- gaguejou, perplexo. - Estou?! Como pode ter esquecido, Ivan? 28 de abril: aniversário do nosso casamento. Vamos sair para jantar.      
     
* Paulo Fernando Morais é jornalista e escritor (pftmorais@ig.com.br)