Uma vitória acachapante

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Publicada em 03/11/2014 às 14:26:00

A burguesia e as lideranças mais conservadoras da política sergipana podem até chiar, mas não há dúvidas: depois de reeleito em primeiro turno, com mais de 122 mil votos de frente contra Eduardo Amorim (PSC), o governador Jackson Barreto (PMDB) deu um show na campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) durante o segundo turno, realizado domingo passado.
Se no primeiro turno Dilma obteve em Sergipe 54,93% dos votos contra 22,68% de Aécio Neves (PSDB), no segundo turno, quando Jackson já estava reeleito e se dedicou integralmente à campanha presidencial, a vantagem subiu para 67,01%, contra 32,99%. Dilma venceu com folga em todos os municípios sergipanos, inclusive a capital, onde os aliados de Aécio concentraram a campanha, com panfletagens de rua e reuniões no auditório da CDL.
Desde o início, a campanha de Aécio tinha como pilares em Sergipe o prefeito João Alves Filho, o ex-governador Albano Franco e o vice-prefeito José Carlos Machado. No segundo turno recebeu o reforço do senador Eduardo Amorim, o deputado federal André Moura e o senador Antonio Carlos Valadares, que na primeira etapa da campanha apoiou a reeleição do governador Jackson Barreto. Mas eles não fizeram mobilizações sérias, faziam poses para selfies, postagens maldosas nas redes sociais, distribuíam adesivos para carros e desfilavam com as cores da campanha de Aécio nos bares e restaurantes chiques de Aracaju, em festas regadas a vinhos e champanhe de R$ 2 mil a garrafa.
A campanha de Dilma seguiu o mesmo curso do primeiro turno, apenas com maior disponibilidade das lideranças que haviam participado da disputa estadual, casos de Jackson e de Rogério Carvalho, além de deputados, prefeitos e a viúva do ex-governador Marcelo Déda, Eliane Aquino. Liderado por Jackson, o grupo fez a campanha para presidente como se fosse uma campanha de governador e o resultado final foi incontestável.
Apesar do aperto da agenda e da pouca representatividade eleitoral do Estado de Sergipe, a presidente Dilma encontrou uma brecha na agenda para vir a Aracaju agradecer os votos obtidos no primeiro turno e pedir empenho eleitoral no segundo turno. Aécio não esteve em Sergipe, não gravou nenhuma mensagem específica para os sergipanos, e para as reuniões promovidas por João e Machado na CDL mandou foi velhos coronéis da política nordestina, como Agripino Maia (DEM-RN) e ACM Neto (DEM-BA), que também perderam de forma humilhante em seus Estados.
No resultado final, a diferença de votos de Dilma para Aécio foi de 392.031 em todo o Estado. Em Aracaju, a candidata do PT ganhou com 56,90% dos votos, enquanto o candidato do PSDB ficou com 43,10%. A diferença foi de 42.292, uma derrota vigorosa para o prefeito João Alves Filho - em 2010, quando Edvaldo Nogueira (PCdoB) era o prefeito de Aracaju, José Serra, o então candidato do PSDB, derrotou Dilma -, prova de que os aracajuanos não toleram administrações fracas e acomodadas.


Os números finais da eleição de 2014 não deixam dúvidas: o governador Jackson Barreto conquistou a posição de principal liderança política sergipana, papel exercido até recentemente por Déda. A partir de agora é conseguir superar os desafios para administrar o estado com ética e eficiência.

Sem cargos para a família

No auge da campanha eleitoral, quando Jackson já aparecia à frente de seus adversários, aliados do senador Amorim promoveram um encontro no comitê para tentar dar uma nova guinada na campanha. Queriam um programa mais agressivo na TV e a participação de todos nas mobilizações de rua.
No auge das discussões, o deputado federal André Moura advertiu que o grupo não podia vacilar, porque ninguém aguentava mais ser oposição no Estado. Foi nesse encontro, que também foi definida a participação de Edivan Amorim nos programas eleitorais, o que acabou favorecendo a candidatura de Jackson.
Derrotado no primeiro turno, Amorim e seus aliados se apegaram na campanha de Aécio tentando assegurar uma boquinha no governo federal. Também não deu certo e agora, a não ser que voltem a aderir ao governo da presidente Dilma, vão passar alguns anos sem emprego para aliados e familiares.

O Pré-Caju tem o apoio popular

Depois que o Pré-Caju se consolidou como a maior festa popular de Sergipe, seus organizadores passaram a enfrentar, todos os anos, uma série de problemas às vésperas da sua realização. Na semana passada, o Ministério Público Federal impetrou ação judicial pedindo que a justiça determine que a ASBT devolva recursos recebidos do Ministério do Turismo, através de emendas parlamentares, para a execução da festa entre 2008 e 2010.
A entidade vai se defender na ação e mostra que esses recursos também foram destinados a outras festas populares pelo país, que também cobram ingresso e algumas são até fechadas. Caso do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Nos últimos anos, também associações militares questionam a participação da PM na segurança da festa. Os blocos e camarotes possuem segurança privada. A polícia participa da festa na proteção dos foliões que se multiplicam na pipoca para o acompanhamento dos blocos. Da mesma forma que outros serviços públicos, como na área da Saúde.
Criador da festa, Fabiano Oliveira questiona o conceito de que o Pré-Caju tenha caráter privado e mostra que só paga para acompanhar os dias de folia, quem quer mais conforto. "O público pode acompanhar todo o percurso dos blocos na pipoca, na pista ao lado, da mesma forma que os proprietários de apartamentos se divertem nas varandas dos prédios", destaca.
Esta semana, os donos dos blocos terão audiências com o prefeito João Alves Filho e com o governador Jackson Barreto, para saber se os órgãos da PMA e do Estado vão mesmo dar o suporte para a festa. Governo e prefeitura participam dando o suporte para as milhares de pessoas que participam diariamente da festa, como ocorre em outros eventos e em todos os Estados brasileiros.
Sem isso, o Pré-Caju 2015 terá que ser modificado e até se transformar numa festa nitidamente privada. Hoje todos podem se divertir. Sem a garantia de segurança para o povo não há como ser realizado numa área aberta.

Luta contra a burguesia

No primeiro turno, quando o senador Valadares decidiu fazer campanha para a candidata do PSB, Marina Silva, Jackson considerou natural, afinal era a representante do seu partido na disputa presidencial. A opção de Valadares por Aécio no segundo turno é que surpreendeu não apenas o governador como a ampla maioria do PSB que possui representatividade, e que não o seguiu.  "Ele procurou o caminho da burguesia e da elite. Não entendeu que esse pleito foi uma luta de classe social", ressaltou.
E completou: "Essa eleição não foi uma qualquer. Entrei em uma luta de classe ideológica, foi uma luta do povo contra a burguesia. O povo derrotou a elite. Isso me marcou muito. Saber que na hora 'H' não se pode contar com um aliado não é coisa simplória. Essa eleição definiu com quem você pode contar nos momentos difíceis. Como vou confiar novamente em Valadares?"
Mas diz que não se negar a sentar com Valadares. "Hoje já tenho claro o que penso. Mudou a forma de análise política de Valadares. Para mim o Valadares de antes não é o mesmo de agora".
Apesar dos impasses, o senador também parece disposto a seguir com Jackson e adotar uma postura independente no Senado Federal. Essa é a posição de outros representantes importantes do PSB, a exemplo do governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, que considera fundamental o diálogo com a presidente Dilma a partir de agora.

Diagnóstico da crise

No início de julho, logo após a convenção que formalizou a participação do PSB na chapa do governador Jackson Barreto, com a indicação de Belivaldo Chagas como candidato a vice, o senador Valadares previu ao colunista que a campanha seria dura, mas que Jackson ganharia. E advertiu: "Não sei por que ele quer tanto ser governador. Ele sabe que o Estado enfrenta uma grave crise econômica, os repasses da União estão caindo e o déficit previdenciário é muito difícil de ser administrado".
Na última quarta-feira, 29, uma nota da Secretaria de Estado de Comunicação informava que em função da redução nos repasses do FPE e o aumento dos gastos com os aposentados e pensionistas, o governo do Estado teria que parcelar o pagamento da folha de outubro dos servidores. Na quinta, receberam todos os funcionários da Educação e na sexta foram pagos até R$ 1,5 mil para os demais servidores, e o restante será pago até 11 de novembro.
A medida comprovou o diagnóstico certeiro do senador, mas o governo está confiante e o secretário da Fazenda, Jeferson Passos, garante que essa diferença, e os salários de novembro, dezembro e décimo terceiro serão pagos nas datas previstas (ver entrevista na página 7).
Há também críticas contra suposto excesso no número de cargos em comissão no Estado, mas o mesmo Jeferson explica que 96,5% dos gastos com pessoal são relativos a servidores efetivos e apenas 3,5% referem-se a cargos em comissão.
De qualquer forma, o parcelamento da folha acabou deixando os servidores de cabelos em pé.