Entre o sagrado e o profano

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\'Interestelar\' propõe explicação científica para Deus
\'Interestelar\' propõe explicação científica para Deus

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Publicada em 08/11/2014 às 00:29:00

* Anderson Bruno

Impressionante como algumas músicas marcam alguns filmes.  Um exemplo é a canção 'Footloose'. Até hoje ela é lembrada pelo embalo marcante na trilha sonora do longa metragem de mesmo nome: "Footloose - Ritmo Louco" (Footloose, Herbert Ross, EUA, 1984, 107 min).
Segundo filme exibido dentro da quarta temporada de clássicos do Cinemark, a produção tem como protagonista Kevin Bacon no papel de Ren McCormack, um jovem rapaz de Chicago (3°maior cidade americana) recém-chegado à pequena Elmore, no estado de Oklahoma.
A edição de Paul Hirsch já faz um resumo do longa nos seus primeiros planos de abertura. A canção-tema toca enquanto na tela somos cooptados a suingar junto aos vários 'takes' de pés dançantes. Numa tradução livre, 'Footloose' quer dizer 'perder os pés', lógico, de tanto bailar.
Logo após a farra ao som da inebriante música, o corte revela a silhueta da cidadela entrecortada por uma cordilheira de montanhas, lindamente cenografada por Rob Hobbs. Tudo é silencioso. Tudo é pequeno. Tudo é quieto.

A partir daí o roteiro de Dean Pitchford revela uma luta entre o sagrado e o profano. A bíblia e seus ditames representam a primeira parcela da situação, enquanto que a música e a dança são vistas como a própria blasfêmia terrestre. Não há nada demais na história: os jovens ávidos por diversão se rebelam contra os obtusos e religiosos comandantes do lugar. O diferencial está no quão o público se identifica com Ren, um rapaz bonito, de personalidade e muito carismático. Ou então com Ariel (Lori Singer), garota rebelde e valente. O público também pode até compactuar com o conservador Reverendo Shaw Moore (o sempre ótimo John Lithgow), homem que levou toda uma cidade às trevas musicais depois da perda de seu filho quando este voltava de uma festa.
A cena da coreografia solo de Kevin Bacon num galpão abandonado envelheceu, mas é inegável a empatia do filme para com a platéia.

Em "Interslelar" (Interestellar, Christopher Nolan, EUA/Reino Unido, 2014, 169 min) - curiosamente também com John Lithgow no elenco - a proeza está na explicação científica de Deus.
O roteiro do próprio diretor Christopher Nolan escrito junto a Jonathan Nolan, seu irmão, explora essa temática num filme de ficção de quase 3 horas de duração.
Eles misturam estudos sobre o chamado 'buraco de minhoca' (na teoria física, dá pra viajar no tempo através dela), o mistério dos buracos negros, a teoria da relatividade e dimensões paralelas espalhadas pelo Universo, para construir uma epopéia científico-cinematográfica.
Nem todos irão gostar. Christopher primou pelo aprofundamento dramático movido pelos diálogos entre os vários conflitos perpassados pelas personagens e não na exaltação dos magníficos e impressionantes efeitos digitais.
Isso é um problema porque até chegar ao ápice do drama, a produção se arrasta quando deveria e poderia ser mais dinâmica.

A música de Hans Zimmer se excede na grandiloquência. Um exagero já que toda a produção possui uma cadência menos frenética. Não precisava tanto. A parte interessante desse material é perceber sua partitura final muito parecida com a clássica "Assim Falou Zaratustra", petardo composto por Richard Strauss e executado em "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968). Vários trechos da viagem intergaláctica, por sinal, são muito parecidos com os do longa de Stanley Kubrick.
Alguns efeitos sonoros lembram trechos de um outro filme de ficção científica: "Contato" (1997) - coincidentemente, assim como em "Interstellar", a produção tinha  Matthew McConaughey como um dos protagonistas.
Alguns ruídos são muito parecidos com as emissões de som enviadas por extraterrestres na antiga produção estrelada por Jodie Foster.
Baseada nos estudos dos físicos Stephen Hawking e Kip Thorne e com um elenco estelar (assim como diz o título do filme), "Interestelar" ganhou na reprodução da teoria cientificista para explicar nosso sentido espiritual aqui na Terra, mas perdeu na emoção.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual.