Energia Elétrica - ontem

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Publicada em 11/11/2014 às 00:33:00

* Raymundo Mello

No período de 1939 a 1945, o mundo assistiu, viveu e sofreu os horrores da 2.ª guerra mundial - o eixo (Alemanha, Itália e Japão) contra a humanidade. Conflito executado de várias maneiras, morticínio desenvolvido por terra, mar e ar. Quantos morreram na luta, jamais se saberá, as estatísticas não eram tão eficientes como são hoje e, assim, fica difícil assegurar quantas vidas humanas foram ceifadas em combates, bombardeios, naufrágios e campos de concentração - somente Judeus, estima-se em 6.000.000 (seis milhões) de vítimas. E do resto do mundo, a favor e contra, quantos morreram? Dolorosa interrogação.

Descrever o que se passou, idas e vindas das políticas, consequências da segunda guerra, não é tarefa para mim, um simples e modesto Memorialista que apenas gosta de relembrar e registrar o que ficou guardado em sua memória e, de maneira bem simples, dizer aos de boa vontade, sem preconceito, que, guerra é o contrário de paz como vida é o contrário de morte. Tratar de assunto tão horripilante deve ser cuidado dos historiadores, pesquisadores, que citam datas, efeitos, consequências, quem ganhou, quem perdeu, o que ofereceu ao mundo de positivo e negativo. Eu me limito à memória, o que vi, o que vivi, o que me contaram e merece confiança. É o que tento fazer, com simplicidade, mas com a certeza de que, qualquer falta ou aumento nas narrativas, são consequências do desejo de despertar, a partir do texto despretensioso, a vontade de se conhecer um pouco mais do que a memória registra.

Atualmente, um assunto em tela para análises, críticas, queixas ou elogios a governantes é Energia Elétrica. Pois saibam que isso é velho, tem a idade do mundo, "e Deus criou o dia e a noite" (Gn 1,14-19), não está escrito assim? Pois bem: na época da segunda guerra mundial, aqui em nosso Sergipinho, viveu-se tudo o que se possa imaginar de positivo e negativo em função da energia elétrica produzida e executada por maquinário gigante, heroicamente operado pelos trabalhadores, em vários níveis do SLFA - Serviço de Luz e Força de Aracaju.

Aliás, diga-se de passagem que o SLFA teve ganhos de valor por vários meses. Explico: no período 1942/1943 os efeitos danosos da guerra transformaram a vida dos sergipanos; nas costas marítimas do nosso estado, sem qualquer expectativa, submarino alemão (U2) passou a bombardear navios cargueiros e de passageiros que navegavam rumo sul ou norte. Foram torpedeamentos seguidos na costa sergipana de navios mercantes pertencentes às empresas Loide Brasileiro e ITA, causando prejuízos materiais incalculáveis à época e, o que é pior, fazendo centenas de vítimas, cujos corpos chegaram boiando, às nossas praias, além de alguns "felizardos" que, de um jeito ou de outro, alcançaram a terra, extenuados pelo enorme esforço despendido, em sua maioria com problemas psicológicos graves, face ao que presenciaram no momento dos naufrágios. Um período, de fato, terrível, que deixou em choque os aqui residentes, também atemorizados com a barbárie.

Por tudo isso, alguns meses de 1943 o estado foi incluído no plano nacional de Black-out. A partir de determinada hora da noite, as máquinas geradoras de energia elétrica eram desativadas e a escuridão total, escondia toda a costa sergipana, suas cidades, seus moradores. Escuridão total até o raiar do dia; qualquer candeeiro ou vela que se acendia nas casas para uma necessidade momentânea, tinha que ter proteção especial para que nenhuma claridade pudesse ser localizada por aviões e embarcações em trânsito. E o esquadrão de cavalaria da Polícia Militar, em vários grupos, fiscalizava externamente as residências, e, se em uma ou outra aparecia algum rastro de luz, por portas, janelas e telhas de vidro, a brigada da cavalaria parava em frente à casa, um militar chegava à porta, batia fortemente com o cassetete e o praça ordenava a toda voz: "apague a luz, quinta coluna - imediatamente" e, claro, logo era atendido. Quinta coluna? Quem queria ser?

Pois bem. O black-out deu lucro ao SLFA pois as máquinas geradoras paradas sofriam menos desgaste e economizavam combustível. Como diz o ditado popular, "não há mal que não traga um bem". No caso, seria melhor, é claro, que não houvesse o mal.
Várias autoridades dirigiram o SLFA por muitos anos, tais como o senhor Hormindo Menezes e o senhor Amaro, ambos, naturalmente, sofriam os xingamentos quando havia falta de energia elétrica, como se eles fossem os maiores "culpados" pelos cortes de energia; havia, inclusive, uma crítica popular que dizia: "Aracaju, cidade que seduz, de dia falta água e de noite falta luz" - isso em ritmo de samba.

Para concluir essa etapa, registro fato vivido. Nos anos 1942 e 1943, auge da segunda guerra, eu, garoto de 10 a 11 anos, participava (mais por ser irmão de João Mello do que por pendores artísticos) do grupo de rádio-teatro da Rádio Aperipê de Sergipe - PRJ-6 -, com estúdios instalados na rua Itabaianinha, defronte do cinema Rex, onde funciona, até hoje, por esforço de seus dirigentes, o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, entidade de grande valor cultural, sempre disponível aos que o visita.

O grupo artístico responsável pelo setor de rádio-teatro participava como amador, não havia cachet porque as peças levadas ao ar, faziam parte do Esforço de Guerra, na maioria aplaudindo a FEB - Força Expedicionária Brasileira, incentivando apoio, economia e integração com os militares.

Eu, naturalmente, interpretava papel de criança nas peças escritas por Sales de Campos, Freire Ribeiro, Marques Guimarães e outros. Não eram apresentadas em capítulos - era uma apresentação corrida, com princípio, meio e fim, geralmente heroico e, ao som do Hino Nacional, da Independência, da Bandeira, do Soldado e também da canção "A voz do dever", de Mário Lago, interpretada pelo Sargento cantor João Mello, quase integrante do 3.º escalão da FEB - que lutou pela liberdade e a democracia, no campo que ele adotou, o campo das ideias. E ali ele era imbatível.

Como a peça era apresentada integralmente, como já disse, e os recursos de gravações eram ineficientes, tínhamos que rezar para não faltar energia durante a apresentação pois, quando isso acontecia, era reiniciada toda a apresentação. E aí, a salva de "elogios e aplausos" era para o dirigente do SLFA - "Ô Hormindo filho da p..."; "Que sacanagem de Hormindo"; "P...., precisa tirar esse cara, de energia ele não entende nada", etc... etc...

Todos riam e ficava-se na expectativa da volta da energia, e aí, o locutor de plantão anunciava: "Por motivo de falta de energia elétrica, vamos reapresentar todo o texto da peça, para que os caros ouvintes não sejam prejudicados".
E entre nós, intérpretes, bem baixinho: "Deus ajude que as máquinas aguentem, pelo menos durante a reapresentação da peça" ou, simplesmente, "Segura aí, seu Hormindo, deixa a p.... da energia funcionar", etc... etc...
Era duro ser dirigente do SLFA!

P.S. - Como cita Rangel Alves da Costa (Histórias de sol e seca - Jornal do Dia, edição de 09 e 10/11/2014), "A ficção e o Memorialismo também servem para ilustrar o drama nordestino e assim já ganharam pujança pelas mãos de Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Jorge Amado, dentre outros".

* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br